Quinta-feira, 14 de Maio de 2015

O fenómeno atual multimodal das tendências - Moda e Símbolo Sexual Masculinos

Por: Luís M. M. Duarte

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A moda, por definição, é e sempre foi uma tendência, mais ou menos generalizada, daquilo que a sociedade considera mais apreciável em termos de gosto e, por arrasto, de consumo, nomeadamente, ao nível da indumentária.

Mesmo numa perspetiva etimológica, o termo moda reforça esta ideia de tendência e efemeridade, dado que, do latim, modus significa modo, maneira, costume. Por isso, o termo moda está associado ao termo moral, o qual, do latim, mor moris, denota, igualmente, os costumes e as formas de se comportar.

Assim entendida, a moda, mais do que a mera forma de vestir-se, masculina ou feminina, traduz um sistema complexo de valores de uma sociedade, mas, paradoxalmente, ofusca-se tão depressa como aparece, através de ciclos transitórios e, amiúde, contraditórios e radicais com o tempo anterior e seguinte.

A transformação será um dos seus epítetos, pelo que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, conforme os ditames camonianos.

O vestuário, o penteado, a gastronomia, os materiais, as cores, as texturas, as fragrâncias e tantas outras manifestações culturais de uma sociedade – e como que acompanham os diferentes sentidos humanos –, constituem esse sistema que é inseparável do tempo e do espaço onde nos inserimos.

Em todo o caso, uma distinção se afigura necessária, estilo e tendência: na moda, coexistem, ainda que distintas.

De que modo, então, podemos atualmente falar em tendência ou em estilo da moda masculina numa sociedade em profunda e célere transformação? Será, sequer, possível esse pleonasmo real?

Se, por um lado, o mito e estigma da vaidade masculina têm vindo a ser diluídos, dado que a vaidade excessiva, ainda que aceite no género feminino, durante muito tempo foi associada à homossexualidade, por outro, nas últimas décadas tem-se exacerbado a ideia oposta e catapultada, inclusive, ao nível da fama.

O problema atual é que a moda acaba por anular-se a si mesma, a tendência, longe de ser mais ou menos consensual ou modal, é, paradoxalmente, amodal ou, existindo, multimodal. Por sua vez, os estilos, em vez de constituírem um reflexo da tendência, assumem-se como substituto desta.

A agravar, enquanto as tendências, se bem que circunscritas às fronteiras do tempo e do espaço em que emergiam, têm vindo a romper essa determinação e universalizando-se com a globalização. As ditas cidades-piloto da moda, como Londres, Milão, Nova Iorque e Paris, têm vindo a perder o seu monopólio face a outras tendências e estilos marginais, desde os hipertatuados e com implantes, ao vintage e ao dandismo.

Hoje, mais do que nunca, a moda está indissociável a sexualidade e, tal como esta também se tem libertado de muitos estigmas, aquela funde-se a esta e impõe uma nova tirania do costume: a antimoda! A moda amodal! A moda multimodal!

A expressão metrossexual foi utilizada pela primeira vez acerca de 20 anos, por Mark Simpson, para descrever a tendência de um certo tipo de homem urbano: que cuida de si e da forma como se vestia. Era a primeira grande vaga da moda masculina!

O próprio Mark Simpson, vem agora chamar a atenção para a redefinição do termo: spornossexual, como a segunda grande vaga da moda masculina. Esta tendência de moda, retoma a anterior, mas acrescenta a preocupação pelo corpo, o qual, mais do que um produto, é encarado como acessório. Corpos meticulosamente tonificados, com recurso a outros acessórios, como tatuagens e piercings ou, ainda, por barbas bem recortadas e definidas. A dimensão desportiva e atlética, associa-se às dimensões da moda e sexual, quase a roçar o domínio do pornográfico estilizado.

As redes sociais e os rituais nelas contidos, como as selfies, podem contribuir para a sua explicação, em que os homens, tal como as mulheres, querem ser procurados pelos seus corpos e não já somente pela roupa que ostentam, mas, infelizmente, não pelos seus cérebros, como refere Simpson.

Até aqui tudo bem. Ou não!

O que vem a lançar a confusão é o facto destas tendências, se bem que compatíveis e sequenciais no tempo e globalmente aceite, pela generalidade da globalização, coexistem, paradoxal e perniciosamente, outras tendências em simultâneo: ao lado do spornossexual, coexiste o lumberman/lumberssexual (e de uma forma mais desenvolvida, o metrojack) e mais recentemente o dad body man ou, simplesmente, dad bod.

Mais importante do que rotular os homens com estas tendências da moda, como é frequente ver-se, recorrendo a figuras públicas do mundo desportivo ou cinematográfico, optou-se por tentar compreender o que subjaz por detrás dessas subsecções da moda.

Importando da estatística, o conceito de moda, poderá mostrar-se profícuo para a compreensão deste fenómeno.

Assim, em estatística descritiva, dá-se o nome de moda ao valor que detém o maior número de ocorrências ou frequência num determinado conjunto de dados, ou seja, ao valor mais comum a ocorrer. Pelo contrário, a média ou mediana são únicas.

Ora, assiste-se atualmente ao semelhante na moda, visto que, além de não ser única – por efémero que o tempo de duração seja –, mas plural, a própria tendência também o não é, antes, multimodal, no mesmo espaço de tempo.

Assim, enquanto o lumberssexual, de inspiração hipster, parece desprezar os moldes da moda e da aparência, reabilitando a robustez máscula de um lenhador com as suas barbas generosas e desalinhadas, botas e calças grosseiras e camisas axadrezadas de flanela, gorros na cabeça e mochila às costas, como que reivindicando simbolicamente outros valores que não os da urbe cosmopolita, como, por exemplo, ambientalistas e ecológicos, o qual fomenta o culto da natureza natural face à natureza claustrofóbica do escritório; o dad bod aparece como o homem descuidado, flácido, corpos pouco ou nada tonificados, alheio ou à margem da moda e de qualquer tendência ou estilo que não seja apenas o seu bem-estar ou maneira de ser e viver, neste caso, com o ícone da “barriga de cerveja”, como refere Mackenzie Pearson, à imagem do “pai de família”, o qual não prescinde uma boa jantarada, um fast food, a qualquer creme de beleza ou ida regular ao ginásio.
Que tendência prevalece? Que estilo predomina? Todos e, ao mesmo tempo, nenhum!Atualmente, a efemeridade da moda, efémera por essência, tende a contrariar qualquer tendência, por muita breve que ela possa ser. A única tendência a prevalecer é a multimoda, a pluralidade de gostos e de valores, os quais se anulam por tão contraditórios, subjetivos e relativos que são.Ao lado do homem musculado e hipercuidado com a sua imagem, tanto ou mais do que o género feminino, surge o homem demasiado humano, numa condição quase a roçar o primitivo, de tão natural em que emerge.Porém, apesar dos gostos e das perspetivas, o certo é que se, por um lado, esta tendência quase grotesca de homem continua a ter adeptos e procura – quer pelo facto de não intimidar a mulher nem concorrer com a beleza feminina, além de prenunciarem os corpos que irão ter quando estiverem na casa dos 40, 50 anos –, por outro, acaba por promover, ainda que indiretamente, uma outra desigualdade de género: enquanto no masculino é aceitável o descuido e o natural; no feminino será inaceitável, pelo que a mulher deverá continuar a frequentar o ginásio (as aulas de pilates e aeróbica), de dietas intermináveis, de idas frequentes a salões de beleza (depilações, cabeleireiro, manicures, pedicures…), num jogo em desequilíbrio. Uma palavra final, apesar da máxima latina, segundo a qual de gustibus non est disputandum, isto é, em matéria de gosto, não se pode/deve discutir ou, simplesmente, gostos não se discutem, julgo que não só se podem, como se devem discutir, ainda que não se devam impor, sob o perigo de anular esse direito aos demais. A moda, a sexualidade e símbolo sexual hoje, mais do que nunca, acompanham, por sua vez, a moralidade e todos eles, os valores, os quais parecem valer todos o mesmo, logo pouca coisa ou coisa alguma. As referências, por efémeras e transitórias que sejam, perderam as suas fronteiras… As tendências dissiparam-se num caleidoscópio de estilos antagónicos e contíguos.É o reino do relativismo e do niilismo axiológico ou, nas palavras de Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio ou d’O Império do Efémero.

 

publicado por Luís M. M. Duarte às 17:38
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