Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Teorias da Felicidade, Prof. Doutor Rui Sampaio (Universidade dos Açores)

O Poder do Pensamento[1]
 
O exemplo das teorias da felicidade
 
Dia Mundial da Filosofia: 15 de Novembro de 2007
 

Prof. Doutor Rui Jorge Sampaio da Silva
 Universidade dos Açores
 
Índice
 
Concepções da filosofia
Sócrates
Platão
Epicuro
Cícero
Kant
Nietzsche
 
O poder do pensamento
Daniel Defoe
Epicteto
Hölderlin
 
Teorias da Felicidade
1. Aristóteles
2. Epicuro
3. O estoicismo
3.1. Epicteto
3.2. Séneca
3.3. Fernando Pessoa
4. Santo Agostinho
5. Schopenhauer
6. Nietzsche
 
 
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Concepções da filosofia
 
          Sócrates: “uma vida não-examinada não é digna de ser vivida”.
          Platão: a filosofia como visão de conjunto.
          Epicuro: a filosofia como busca de felicidade.
          Cícero: a filosofia como “cultura da alma”.
          Kant: a filosofia como o tribunal da razão; como reflexão sobre os fundamentos do conhecimento, da moral e da arte.
          Nietzsche: a filosofia como criação de novas possibilidades para a vida humana.
 
 
O poder do pensamento
 
          Daniel Defoe: “Pensar é um avanço real do inferno para o céu.”
 
          Epicteto: “O que perturba os homens não são as coisas, mas os juízos que formulam sobre as coisas.”
 
          Hölderlin: “Tal como o relâmpago vem das nuvens, virá das ideias a acção?”
 
 
1. Aristóteles
 
1)       O bem como fim último das nossas acções e investigações.
2)       A felicidade (eudaimonia) como o fim último.
3)       A vida do prazer, a vida política e a vida contemplativa.
4)       O argumento da função; a actividade racional é a função própria do homem, e é nisso que se deve basear a felicidade
 
Razões para se preferir a vida contemplativa (Ética a Nicómaco, X)
 
1)       É a actividade da parte mais nobre de nós (o intelecto).
2)       É a mais estável.
3)       Comporta os prazeres mais puros e permanentes.
4)       É a actividade mais auto-suficiente; requer poucos bens exteriores.
5)       É um fim em si própria.
6)       Está estreitamente ligada ao lazer (um ingrediente tradicional da felicidade).
7)       É a única actividade concebível nos deuses, que possuem a felicidade suprema.
 
2. Epicuro
 
1)       A física ao serviço da ética: eliminar o receio do sobrenatural.
2)       A filosofia como busca da felicidade.
3)       A desvalorização da morte e da dor.
4)       O prazer como o bem supremo.
5)       O prazer como a ausência de dor no corpo e de perturbação na alma.
 
“A voz da carne clama: não ter fome, não ter sede, não ter frio. Quem possui tais coisas e pode esperar possuí-las no futuro pode competir com Zeus no que toca à felicidade.”
 
O DIA
Não procures, Leuconoe, – ímpio será sabê-lo -
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os horóscopos babilónicos:
Melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê ainda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
não acredites no amanhã.
                Horácio
 
3. Estoicismo
 
1)       O soberano bem: possuir a ciência do que é conforme à natureza; possuir a virtude.
2)       A paixão como movimento irracional da alma, contrário à natureza. Paixão vs. razão; paixão vs. natureza.
3)       A doutrina dos indiferentes; só tem importância aquilo que depende de nós.
 
3.1. Epicteto
 
“Coisas há que dependem de nós – e outras há também que de nós não dependem. O que depende de nós são os nossos juízos, as nossas tendências, os nossos desejos, as nossas aversões: numa palavra, todos os actos e obras do nosso foro íntimo. O que de nós não depende é o nosso corpo, a riqueza, a celebridade, o poder; enfim, todas as obras e actos que de maneira nenhuma nos constituem… Se tu desejas qualquer uma das coisas que não dependem de nós, necessariamente que serás infeliz.”
                Epicteto, O Manual
 
3.2. Séneca
 
“Eis uma coisa verdadeiramente grande: saber unir a fragilidade de um mortal com a serenidade de um deus. É inacreditável a força da filosofia ao repelir todos os golpes do destino”
 
- Sobre os desejos:
 
“Pobre não é quem tem pouco, mas quem clama por mais”
“Se queres ser rico, não aumentes o teu dinheiro, mas diminui os teus desejos” (frase atribuída a Epicuro).
“Pensai que não há nada de admirável a não ser a alma, que se é grande, nada é grande como ela.”
 
3.3. Fernando Pessoa e o estoicismo
 
D. FERNANDO
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma
 
D. DUARTE
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
 
4. Santo Agostinho
 
A felicidade como bem supremo e fim último.
A felicidade pressupõe a obtenção do objecto do desejo, mas não de todo o desejo: “Se alguém quer os bens e os tem, é feliz; se, por outro lado, quer coisas más, ainda que as tenha é infeliz” (Diálogo sobre a felicidade)
 
1)       Quem teme não é feliz
2)       Quando é possível perder o que se ama, teme-se
3)      “as coisas que dependem das circunstâncias do acaso podem perder-se...
                Logo, “quem as ama e as possui não pode, de modo nenhum, ser feliz”.
 
                “Quem decide ser feliz deve adquirir o que é sempre permanente e não pode ser destruído por nenhum revés da fortuna. [...] Portanto, quem possui Deus é feliz”
 
5. Schopenhauer
 
Tema fundamental: a irracionalidade da vontade, expressa na irracionalidade do desejo e dos conflitos entre indivíduos.
 
“Todo o desejo nasce duma falta, dum estado que não nos satisfaz, portanto é sofrimento, enquanto não é satisfeito. Ora, nenhuma satisfação dura; ela é apenas o ponto de partida de um novo desejo. Vemos o desejo em toda a parte travado, em toda a parte em luta, portanto, sempre no estado de sofrimento: não existe fim último para o esforço, portanto, não existe medida, termo, para o sofrimento.” (O Mundo como Vontade e Representação)
 
“Toda a felicidade é negativa, sem nada de positivo; nenhuma satisfação, nenhum contentamento, por consequência, pode durar: no fundo, eles são apenas a cessação de uma dor, ou duma privação, e, para substituir estas últimas, o que vier será infalivelmente ou uma dor nova, ou então qualquer languidez, uma espera sem objecto, o aborrecimento.”
 
“O homem que chegou à negação do querer-viver, por mais miserável, triste, plena de renúncias que a sua condição pareça, também este homem está cheio de uma alegria e de uma paz celestes. [...] Os instantes em que, libertos da tirania dolorosa do desejo, nos elevamos de algum modo acima da pesada atmosfera terrestre, são os mais felizes que conhecemos”
 
6. Nietzsche
 
1- A justificação estética da existência:
 
“O mundo e a existência não podem ter justificação alguma a não ser como fenómeno estético; assim compreenderemos que o mito trágico tem precisamente por fim convencer-nos de que até o que nos parece horrível e monstruoso não é mais do que uma representação estética” (A Origem da Tragédia)
 
2- O homem forte (super-homem) transforma a dor em alegria:
 
“Será o pessimismo necessariamente sinal de declínio, de decadência...? [...] Ou haverá um pessimismo da força? Uma predilecção intelectual pela aspereza, pelo horror, pela crueldade, pela incerteza da existência, predilecção devida à saúde excelente, ao excesso da força vital, à excedência da vida? [...] A visão mais penetrante não será por isso mesmo dotada de uma temeridade irresistível, que busca o terrível como quem busca o inimigo, que procura um adversário digno contra o qual possa experimentar a sua força?” (Origem da Tragédia; “Tentame de Autocrítica”)
 
3- O nexo entre felicidade e poder criador:
 
“O bem-estar tal como o entendeis – não é um objectivo, antes nos parece ser um fim! Um estado que logo torna o homem ridículo e desprezível [...]. A disciplina do sofrimento, do grande sofrimento – não sabeis que foi só esta disciplina que criou, até agora, todas as sublimações do homem?” (Para Além do Bem e do Mal, §225)
 
 
AUTOPSICOGRAFIA
 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente
...
Fernando Pessoa
 


[1] O presente texto reduz-se às linhas gerais presentes na apresentação da Conferência “Teorias da Felicidade”, feita em PowerPoint, pelo que a mesma extravasa o reducionismo da presente compilação. Optou-se, porém, por expô-la, em virtude das várias solicitações feitas por diferentes espectadores da mesma. Esperamos, finalmente, que o seu autor verta para livro estas linhas gerais e aquelas que foram expostas na Conferência.
 
publicado por Luís M. M. Duarte às 12:35
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4 comentários:
De Laura F. a 16 de Novembro de 2007 às 22:34
Tenho pena das pessoas que sabem o que é a felicidade. Ou até, aquelas que não o sabem, mas pensam que são felizes.
A felicidade nunca poderá ser atingida. Isto porque, se o fosse, teríamos de ter resposta para três perguntas essenciais que acabariam com a Filosofia definitivamente. '' De onde vim? '', ''O que sou? '' e '' Para onde vou? ''. Sem a resposta a estas perguntas nunca podemos alcançar a felicidade eterna. Podemos, no entanto, dizer que a felicidade é momentânea. Isso já aceito. Mas só sentimos a felicidade se alguma vez tivermos sentido o contrário. Tristeza, mágoa, ódio. Tal como Schopenhauer diz, '' nenhuma satisfação dura; ela é apenas o ponto de partida de um novo desejo."
Isto reflecte a sociedade actual. A sociedade consumista dá demasiado valor ao que é superficial, esquecendo-se muitas do que é a verdadeira felicidade. Aí sim, sendo consumista (e podendo ser consumista), a felicidade é muito fácil de alcançar, teimando em contrariar o pensamento e a dúvida crítica. Mas, tal como o dinheiro acaba depressa, a felicidade morre juntamente com ele.
Será que se pode associar a definição de felicidade (se é que há uma definição universal) à definição de saúde proclamada pela OMS?( "Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença")
Sim, pode-se. Mas o que a OMS não refere é que é necessário percorrer um caminho até '' se ser saudável ''. Por outras palavras, é necessário filosofia para se chegar à felicidade.
Isto porque a Filosofia permite-nos construir e conhecer o nosso próprio caminho. Permite-nos criar o nosso mundo e a nossa felicidade. Então, contrapor-me-ei, dizendo que, tal como não há uma definição de Filosofia, não há uma definição de felicidade, embora a definição de felicidade possa ser a mesma que a definição de saúde.
Mas será que ser feliz não incluirá momentos de tristeza?
A felicidade total é a morte da crítica, do pensamento. A felicidade total é o desconhecimento de nós próprios. É o desconhecimento do nosso mundo. Pode-se assim concluir que a felicidade total é igual a destruição do nosso ser. Porque, se somos felizes, estamos fechados dentro de uma cúpula que nos faz sentir bem. Passado algum tempo, precisamos de '' apanhar ar ''. Mais concretamente, precisamos de ficar tristes. Porque a tristeza é que nos faz querer ser felizes.
De Luís M. M. Duarte a 19 de Novembro de 2007 às 13:09
Ora aqui está um excelente ponto de vista. Discutível e/ou polémico - como, aliás, muitos outros aspectos -, porém, bem estruturado e redigido.
De Fernando Costa a 20 de Novembro de 2007 às 13:13
Onde fica essa escola? Pelos vistos é muito dinâmica e interessante.
De Luís M. M. Duarte a 21 de Novembro de 2007 às 12:03
A nossa Escola situa-se na cidade da Ribeira Grande, na Ilha de S. Miguel, no Arquipélago dos Açores.

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