Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

O que é, então, ser-se tolerante?

Tolerância, nas palavras de Simon Blackburn,

 É a nossa posição em “abstermo-nos de agir contra o que reprovamos, contra o que nos é politicamente contrário ou contra o que é diferente de nós. A tolerância em matéria religiosa é um dos bastiões do estado democrático moderno; neste aspecto, a Carta sobre a Tolerância, de Locke (1689), é a autoridade basilar, embora o próprio Locke excluísse os católicos da sua área de protecção, com a justificação de que a sua verdadeira fidelidade era para com a Igreja e não para com o governo. O problema filosófico central consiste em compreender como pode um princípio de tolerância coexistir com a convicção moral e religiosa genuína.” 

Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia

Já Agostinho da Silva perspectiva o termo tolerância num sentido mais abrangente, nomeadamente:

Nenhum de nós poderá, num momento qualquer, garantir que a sua doutrina seja a que encerre a verdade; os desmentidos surgem a cada passo, as incertezas vão sendo mais fortes à medida que se penetra com maior informação e mais atenta inteligência no mundo que nos cerca; o afirmar categoricamente vai-nos aparecer ao fim de certo tempo tão absurdo como o negar categoricamente; a maior parte dos juízos que formámos reconhecemo-los errados, a maior parte das teorias que arquitectáramos ruíram sem remédio; há, ocultos no futuro, os factos que se preparam exactamente para nos vir desfazer a laboriosa construção; só a dúvida é boa companheira.

O que podemos é tomar certas hipóteses como mais ou menos prováveis; podemos joeirá-las no curso da razão e pôr de lado as que não resistam à prova; possuiremos sobretudo a verdade e iremos pelo recto caminho na medida em que nos submetermos à experiência e formos tão ágeis de entendimento e tão poderosos de vontade que nos não importemos de abandonar a mais bela das casas se ela se revelar desarmónica ante o mundo exterior; deixaremos Newton por Huyghens e possivelmente voltaremos a ele com a teoria nedelartig; somos como o Eremita para o qual o abandono da casca quer dizer crescimento; é com íntimo júbilo que ascendemos a nova escadaria.

Fórmulas, teorias e hipóteses nada mais são do que as sucessivas instituições de um mesmo fenómeno permanente e vivo: o impulso de pensar; devemos combatê-las quando se revelem gastas, mas impedir os retrocessos ao que por sua vez se revelou deficiente em anos já remotos; não é a construção de uma geometria ou de um sistema político o que define o homem; a sua natureza revela-se na tendência a construí-los; o resultado a que chegou interessa-nos apenas pelo que mostra de poder criador; por isso veneramos tudo o que morre; mas detestamos o que ressuscita; não nos agradaria viver em mundo povoado pelos fantasmas das baladas alemãs.

Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria de que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre.

Agostinho da Silva, Textos e Ensaios Filosóficos I, Âncora Ed., Lisboa, 1999

"Creio primeiro, que o mundo em nada nos melhora, que nascemos estrelas de ímpar brilho, o que quer dizer, por um lado, que nada na vida vale o homem que somos, por outro lado que homem algum pode substituir a outro homem. Penso, portanto, que a natureza é bela na medida em que reflecte a nossa beleza, que o amor que temos pelos outros é o amor que temos pelo que neles de nós se reflecte, como o ódio que lhes sintamos é o desagrado por nossas próprias deficiências, e que afinal Deus é grande na medida em que somos grandes nós mesmos: o tempo que vivemos, se for mesquinho amesquinha o eterno."

Agostinho da Silva, Educação de Portugal, Ulmeiro, Lisboa, 1990

publicado por Luís M. M. Duarte às 12:24
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