Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Os problemas da Filosofia

Eis, então, alguns exemplos de problemas da filosofia. A filosofia desenvolveu ao longo da sua vida milenar várias disciplinas distintas. Por vezes, alguns problemas surgem em mais do que uma disciplina. Mas é bom ter uma ideia dos diferentes tipos de problemas estudados por algumas disciplinas da filosofia.

Comecemos pela ética. A ética não estuda os preconceitos comportamentais - preconceitos como a ideia católica de que os homossexuais não podem casar e que ninguém deve ter relações sexuais antes do casamento. A ética nada tem a ver com este tipo de coisas. Este tipo de coisas emana de um certo código religioso de comportamentos, que pouco se relaciona na verdade com a ética - é apenas uma manifestação de uma certa visão religiosa do mundo. Faz-se por vezes uma distinção entre "moral" e "ética" querendo reservar para esta última a acepção filosófica, ao passo que a primeira se referiria aos costumes sociais. Mas esta distinção é artificiosa e caiu em desuso desde há muito tempo.

A ética ocupa-se de vários tipos de problemas bastante distintos. Os mais fáceis de compreender são os da ética aplicada, que se ocupa de problemas como o aborto e a eutanásia. Será o aborto um mal que deve ser proibido? Repare-se que não se trata de saber se o aborto é um mal aos olhos de Deus ou do Papa ou de qualquer confissão religiosa; trata-se de saber se o aborto é, eticamente, e à luz da nossa razão, algo que deve ser proibido, tal como o assassínio é proibido independentemente das religiões. O que ocupa a reflexão filosófica não é apenas a tentativa de dizer "Sim, o aborto é um mal" ou "Não, o aborto não é um mal". O que distingue a reflexão filosófica é a fundamentação racional: os argumentos que sustentam as nossas posições. O que importa são os argumentos que se apresentam para dizer que sim ao aborto ou para dizer que não. O trabalho da filosofia consiste em estudar esses argumentos e avaliá-los criticamente. A filosofia é algo que cada um faz com a sua própria cabeça, em diálogo crítico com os outros. A filosofia não consiste em ler textos e "comentar" o que esses textos dizem. A filosofia consiste em pensar nos mesmos problemas que são tratados nesses textos, o que é muito, muito diferente.

Mas a ética ocupa-se de outras questões menos óbvias. Por exemplo, o que quer dizer "Matar inocentes é um mal" ou "Não devemos matar inocentes"? O que quer realmente dizer a palavra "dever"? Este tipo de problema é enfrentado pelo que se chama "metaética". A metaética ocupa-se da questão de saber qual é a natureza do juízo ético. É a área mais geral e conceptual da ética. Há várias teorias que tentam responder a este problema, algumas delas tecnicamente bastante complexas e precisas.

A epistemologia é outra disciplina da filosofia. Neste caso, trata-se de investigar vários problemas relacionados com o nosso conhecimento. Uma vez mais, o carácter conceptual da filosofia obriga a distinguir os problemas filosóficos do conhecimento dos problemas psicológicos ou sociológicos do conhecimento. Por exemplo, a psicologia cognitiva tem vindo a conduzir várias investigações sobre o modo como os seres humanos estruturam vários aspectos do conhecimento. Piaget, por exemplo, procurou estabelecer etapas diferenciadas no desenvolvimento cognitivo dos seres humanos. Os seus estudos estão hoje ultrapassados por investigações mais recentes, mas tanto os seus estudos como os estudos mais recentes não são estudos filosóficos nem têm interesse para a filosofia. Os problemas estudados pela epistemologia ou pela filosofia do conhecimento não se referem de modo algum ao fenómeno do conhecimento tal como ele ocorre realmente nos seres humanos; os problemas da epistemologia e da filosofia do conhecimento são mais gerais e de carácter conceptual.

Um dos problemas da epistemologia mais simples de apresentar é este: o que é o conhecimento? O conhecimento distingue-se da mera opinião porque o conhecimento é factivo – isto é, não podemos conhecer falsidades, apesar de podermos pensar falsidades. Mas o que é realmente o conhecimento? Não ser trata apenas de opinião, porque as opiniões podem ser falsas mas o conhecimento não. Será então que o conhecimento é apenas a opinião verdadeira? Mas será que podemos dizer que os atomistas gregos sabiam realmente que tudo é composto por átomos? Eles tinham realmente essa opinião, e essa opinião veio a verificar-se séculos depois ser verdadeira; mas, de algum modo, parece que eles não sabiam realmente que tudo era composto de átomos – apenas tinham essa opinião que, por acaso, acabou por coincidir com a realidade. O que está em causa neste problema é a definição de conhecimento – algo que não pode determinar-se recorrendo a estudos de natureza empírica.

Outro problema importante na área da epistemologia é a questão da justificação do conhecimento – perante um fragmento particular de pretenso conhecimento, como podemos saber que se trata realmente de conhecimento e não de uma ilusão? Por exemplo, todos pensamos que o mundo exterior é independente de nós; mas que razões teremos para pensar isso? E não haverá razões para pensar o contrário?

Reserva-se por vezes o termo "epistemologia" para a filosofia do conhecimento científico, usando-se o termo "gnosiologia" para a filosofia do conhecimento em geral. Mas esta terminologia não é usada hoje em dia nas grandes universidades do mundo inteiro, nem corresponde à realidade do que se estuda quando se estuda epistemologia. A epistemologia é o estudo filosófico de vários problemas relacionados com o conhecimento - independentemente de se tratar de conhecimento científico ou de outro qualquer tipo de conhecimento. É a filosofia da ciência que se ocupa de vários problemas relacionados com o conhecimento científico.

Outra disciplina filosófica é a metafísica, que se ocupa de outro tipo de problemas. Que tipo de coisas existem no mundo? Admitindo que existem árvores e mesas e pessoas, será que os números também existem? E as cores? E os conceitos, como a justiça? Quantos tipos de existência há, se há mais do que um? E quais são as categorias mais gerais da realidade? Como poderemos pensar a identidade? Se ao longo de 10 anos formos substituindo as tábuas todas de um bote de madeira, o bote de hoje será ainda o mesmo do que o bote de há 10 anos? Mas se não é o mesmo, para onde foi o bote de há 10 anos e quando deixou ele de existir?

É claro que há muitos, muitos mais problemas da filosofia. Os problemas da filosofia têm esta característica em geral: não se podem resolver recorrendo aos métodos estabelecidos das ciências e implicam um uso forte da argumentação. Os problemas da filosofia interpelam-nos e exigem-nos argumentos. É claro que eu acho que o mundo exterior existe independentemente de mim; mas como posso eu justificar esta opinião? A filosofia é um pedido sistemático de justificações e essas justificações são argumentos – argumentos de carácter conceptual e não argumentos de carácter empírico.

                                                  Desidério Murcho, (2000). O que é a filosofia?

publicado por Luís M. M. Duarte às 12:48
link do post | comentar | favorito
|

Luís M. M. Duarte (Coordenação)

pesquisar

 

Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

posts recentes

Os "Sexalescentes" do Séc...

O fenómeno atual multimod...

A REDEFINIÇÃO (DA NOÇÃO) ...

V Comemoração do Dia Mund...

V Comemoração do Dia Mund...

O que é a Filosofia? - Um...

IV Comemoração do Dia Mun...

Comemoração do 25 de Abri...

Os Valores

II, A Racionalidade práti...

arquivos

Abril 2017

Maio 2015

Abril 2012

Novembro 2011

Novembro 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

links

blogs SAPO

subscrever feeds