Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Definição, caracterização, valor e problemas da Filosofia (2)

 

O que é a Filosofia?

 

O carácter conceptual da filosofia
Pensemos outra vez numa afirmação como "Nenhum objecto pode viajar mais depressa do que a luz". As afirmações das ciências empíricas são afirmações do género desta: afirmações que se referem ao mundo que podemos observar pelos sentidos ou que podemos inferir a partir de observações e medições complicadas realizadas com instrumentos como um espectrómetro ou um radiotelescópio. Mas por mais que façamos medições e observações não iremos descobrir se os animais têm direitos, nem se Deus existe, nem se há números.
Ao contrário da física e da biologia, a filosofia não tem um carácter empírico; é um estudo conceptual. Neste aspecto, a filosofia é mais parecida com a matemática, que também não é uma disciplina empírica. Mas a filosofia distingue-se da matemática por várias razões. Em primeiro lugar, não dispõe de métodos formais de demonstração, como a matemática; em segundo lugar, não se ocupa do tipo de problemas de que se ocupa a matemática. Mas de que tipo de problemas se ocupa afinal a filosofia?
Uma vez mais, o melhor é dar exemplos e apontar algumas das características mais salientes dos problemas filosóficos típicos. Pensemos, por exemplo, em Deus. Os cristãos têm uma dada concepção de Deus, os muçulmanos outra e os hindus outra ainda. E há muitas mais, tantas quantas as religiões. As religiões partem de certas verdades reveladas pelos seus profetas e inscritas nos seus livros sagrados; procuram descobrir a verdadeira natureza de Deus e encontrar o caminho da salvação. Mas nada disso são problemas filosóficos. A filosofia não cultiva dogmas, como a religião; a filosofia faz o contrário: procura destruir dogmas. Os cristãos, muçulmanos e hindus, partem do princípio de que existe Deus. A filosofia pergunta: mas que razões temos para pensar que existe Deus? E, admitindo que existe um deus sumamente bom e criador, omnisciente e omnipotente, como se explica a existência do mal? A filosofia faz as perguntas difíceis que muitas pessoas gostariam de calar, e que efectivamente têm muitas vezes conseguido calar ao longo da infeliz história humana. Podemos dizer, poeticamente, que a filosofia é um grito de liberdade contra a opressão do dogma. E nisto, uma vez mais, a filosofia é semelhante à ciência.
O que distingue os problemas da filosofia dos problemas da ciência é o seu carácter conceptual, a sua generalidade e a inexistência de fronteiras precisas. Os problemas da matemática são também bastante gerais e em grande medida conceptuais – mas têm fronteiras muito precisas. Não se pode determinar matematicamente se os animais têm direitos; não se pode determinar matematicamente se Deus existe – e nem sequer se pode determinar matematicamente se os números existem independentemente de nós. Qualquer problema com suficiente generalidade, de carácter conceptual e para a solução do qual não exista qualquer ciência pode ser um problema filosófico. Os problemas da matemática têm fronteiras muito claras: têm de poder ser resolvidos pelos métodos formais da matemática. Em filosofia, pelo contrário, não há métodos formais para resolver problemas.
Irei de seguida dar alguns exemplos de problemas típicos da filosofia. Antes, porém, quero esclarecer desde já uma confusão que costuma subsistir na prática do ensino da filosofia no nosso país. Essa confusão é a seguinte. Há certas correntes irracionalistas em filosofia, surgidas no século XIX, que defenderam o fim da filosofia – falam dramaticamente da "morte da filosofia". O que isto quer dizer é o seguinte: estas pessoas não acreditam que seja possível alcançar qualquer tipo de resultados interessantes pela reflexão filosófica. É como se estivessem intoxicadas pelo positivismo do século XIX, que afirmava que um dia todo o conhecimento seria matemático e preciso como a física. Uma vez que a filosofia não é de modo algum como a física, essas pessoas pensaram que a filosofia era um projecto sem futuro.
Esta ideia, como todas as ideias filosóficas, deve ser discutida às claras, com a nossa inteligência crítica, em vez de ser subterraneamente transmitida aos estudantes como se fosse consensual. E é claro que não é nada consensual. Nunca se produziu tanta filosofia de tanta qualidade como hoje em dia; na verdade, produziu-se mais filosofia nos últimos 60 anos do que em toda a história da filosofia. É caso para dizer que a filosofia está bem viva.
Mas eu não quero discutir aqui esta ideia da "morte da filosofia", que paira sobre os manuais e professores do ensino secundário e superior não como uma ideia claramente articulada, mas como um pressuposto turvo do qual não se tem bem consciência. O que quero fazer é mostrar como esta ideia ajuda a lançar a confusão, desvirtuando a filosofia e transformando-a num parente pobre de disciplinas respeitáveis como a psicologia, a sociologia, a antropologia ou os estudos literários. Se temos a filosofia como profissão e achamos que a filosofia morreu, deveríamos pelo menos ser consequentes e abandonar completamente a nossa profissão. Ao invés, o que se verifica é que se cultivam as especulações antropológicas, sociológicas, etc., sem qualquer base científica, ou que se transforma a filosofia em crítica literária de má qualidade.
Uma das características da filosofia é o facto de não ser uma investigação empírica, como já sublinhei; para saber se os animais têm direitos ou se Deus existe, não tenho de fazer trabalho científico de campo, não tenho de fazer experiências em laboratórios, nem tenho de elaborar inquéritos, nem tenho de fazer estatísticas; limito-me a pensar. Posso ter de usar dados empíricos fornecidos pelas ciências; mas não compete à filosofia fazer o levantamento desses dados.
Este modo de proceder tradicional da filosofia, que resulta da sua natureza conceptual, acaba por contribuir para pseudo-investigações de quem não sabe distinguir os problemas susceptíveis de serem estudados pela filosofia dos problemas que só com alguma investigação empírica podem ser abordados de forma respeitável.
Repare-se na seguinte distinção crucial. Todos nós temos opiniões sobre vários aspectos do mundo que nos rodeia. Eu vou a um país estrangeiro e formo uma ideia intuitiva sobre o carácter das pessoas desse país, comparando-as com as pessoas do meu próprio país. A formação deste tipo de opiniões é inevitável; mas não se pode confundir isto com ciência. Ninguém pode dizer, só porque visitou durante 3 anos a Índia, que os indianos são em geral mais honestos do que os portugueses. Este resultado não oferece quaisquer garantias; é suficiente para animar conversas de café com os nossos amigos; mas basear um estudo sério sobre estas observações não sistemáticas é uma tolice.
Se temos de basear uma reflexão filosófica sobre dados empíricos, esses dados empíricos têm de ser fidedignos; não podem resultar da mera observação de senso comum. Isso é apenas má sociologia ou má psicologia. Isso não é um estudo sério e honesto. O que é irónico é que abundam os problemas filosóficos em que podemos reflectir sem termos de usar informação empírica e só as doutrinas da "morte da filosofia" afastam as pessoas desses problemas – fazendo-as procurar novos problemas que, no entanto, não podem ser seriamente estudados sem usar os métodos empíricos da sociologia ou da psicologia.
Outra consequência desastrosa das doutrinas da "morte da filosofia" é a ideia de que a filosofia é uma arte. Uma vez mais, podemos defender esta ideia filosófica – mas às claras, como algo que tem de ser criticamente avaliado, e não subterraneamente, como algo que está sempre suposto e latente mas que nunca se manifesta.
É claro que qualquer pessoa pode fazer o que quiser - e se quiser escrever textos sobre temas filosóficos com o objectivo de produzir obras literárias, ninguém deve interferir. Mas é preciso compreender que esta ideia não é o projecto original da filosofia; o projecto original da filosofia não era produzir literatura, mas sim explicações que satisfaçam a nossa curiosidade sobre os aspectos mais gerais da nossa estrutura conceptual. Não só é redutor querer encarar a filosofia unicamente como uma forma de literatura, como é algo que renuncia ao projecto original de pessoas como Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant ou Frege.
Aliás, é também estranho que as pessoas que em geral encaram a filosofia como uma forma de literatura, gostam depois de interpretar filosoficamente as artes. É estranho que possamos escrever filosofia artisticamente e que possamos interpretar filosoficamente as artes, mas que não possamos interpretar as artes artisticamente nem escrever filosofia filosoficamente. Claro que perante os artistas uma pessoa com formação filosófica consegue impressionar, e perante os filósofos os ademanes "literários" podem ter o seu efeito. Mas o objectivo de um estudioso não deveria ser impressionar, mas contribuir modestamente para o avanço e transmissão do conhecimento.
 
Eis, então, alguns exemplos de problemas da filosofia. A filosofia desenvolveu ao longo da sua vida milenar várias disciplinas distintas. Por vezes, alguns problemas surgem em mais do que uma disciplina. Mas é bom ter uma ideia dos diferentes tipos de problemas estudados por algumas disciplinas da filosofia.
Comecemos pela ética. A ética não estuda os preconceitos comportamentais - preconceitos como a ideia católica de que os homossexuais não podem casar e que ninguém deve ter relações sexuais antes do casamento. A ética nada tem a ver com este tipo de coisas. Este tipo de coisas emana de um certo código religioso de comportamentos, que pouco se relaciona na verdade com a ética - é apenas uma manifestação de uma certa visão religiosa do mundo. Faz-se por vezes uma distinção entre "moral" e "ética" querendo reservar para esta última a acepção filosófica, ao passo que a primeira se referiria aos costumes sociais. Mas esta distinção é artificiosa e caiu em desuso desde há muito tempo.
A ética ocupa-se de vários tipos de problemas bastante distintos. Os mais fáceis de compreender são os da ética aplicada, que se ocupa de problemas como o aborto e a eutanásia. Será o aborto um mal que deve ser proibido? Repare-se que não se trata de saber se o aborto é um mal aos olhos de Deus ou do Papa ou de qualquer confissão religiosa; trata-se de saber se o aborto é, eticamente, e à luz da nossa razão, algo que deve ser proibido, tal como o assassínio é proibido independentemente das religiões. O que ocupa a reflexão filosófica não é apenas a tentativa de dizer "Sim, o aborto é um mal" ou "Não, o aborto não é um mal". O que distingue a reflexão filosófica é a fundamentação racional: os argumentos que sustentam as nossas posições. O que importa são os argumentos que se apresentam para dizer que sim ao aborto ou para dizer que não. O trabalho da filosofia consiste em estudar esses argumentos e avaliá-los criticamente. A filosofia é algo que cada um faz com a sua própria cabeça, em diálogo crítico com os outros. A filosofia não consiste em ler textos e "comentar" o que esses textos dizem. A filosofia consiste em pensar nos mesmos problemas que são tratados nesses textos, o que é muito, muito diferente.
Mas a ética ocupa-se de outras questões menos óbvias. Por exemplo, o que quer dizer "Matar inocentes é um mal" ou "Não devemos matar inocentes"? O que quer realmente dizer a palavra "dever"? Este tipo de problema é enfrentado pelo que se chama "metaética". A metaética ocupa-se da questão de saber qual é a natureza do juízo ético. É a área mais geral e conceptual da ética. Há várias teorias que tentam responder a este problema, algumas delas tecnicamente bastante complexas e precisas.
A epistemologia é outra disciplina da filosofia. Neste caso, trata-se de investigar vários problemas relacionados com o nosso conhecimento. Uma vez mais, o carácter conceptual da filosofia obriga a distinguir os problemas filosóficos do conhecimento dos problemas psicológicos ou sociológicos do conhecimento. Por exemplo, a psicologia cognitiva tem vindo a conduzir várias investigações sobre o modo como os seres humanos estruturam vários aspectos do conhecimento. Piaget, por exemplo, procurou estabelecer etapas diferenciadas no desenvolvimento cognitivo dos seres humanos. Os seus estudos estão hoje ultrapassados por investigações mais recentes, mas tanto os seus estudos como os estudos mais recentes não são estudos filosóficos nem têm interesse para a filosofia. Os problemas estudados pela epistemologia ou pela filosofia do conhecimento não se referem de modo algum ao fenómeno do conhecimento tal como ele ocorre realmente nos seres humanos; os problemas da epistemologia e da filosofia do conhecimento são mais gerais e de carácter conceptual.
Um dos problemas da epistemologia mais simples de apresentar é este: o que é o conhecimento? O conhecimento distingue-se da mera opinião porque o conhecimento é factivo – isto é, não podemos conhecer falsidades, apesar de podermos pensar falsidades. Mas o que é realmente o conhecimento? Não ser trata apenas de opinião, porque as opiniões podem ser falsas mas o conhecimento não. Será então que o conhecimento é apenas a opinião verdadeira? Mas será que podemos dizer que os atomistas gregos sabiam realmente que tudo é composto por átomos? Eles tinham realmente essa opinião, e essa opinião veio a verificar-se séculos depois ser verdadeira; mas, de algum modo, parece que eles não sabiam realmente que tudo era composto de átomos – apenas tinham essa opinião que, por acaso, acabou por coincidir com a realidade. O que está em causa neste problema é a definição de conhecimento – algo que não pode determinar-se recorrendo a estudos de natureza empírica.
Outro problema importante na área da epistemologia é a questão da justificação do conhecimento – perante um fragmento particular de pretenso conhecimento, como podemos saber que se trata realmente de conhecimento e não de uma ilusão? Por exemplo, todos pensamos que o mundo exterior é independente de nós; mas que razões teremos para pensar isso? E não haverá razões para pensar o contrário?
Reserva-se por vezes o termo "epistemologia" para a filosofia do conhecimento científico, usando-se o termo "gnosiologia" para a filosofia do conhecimento em geral. Mas esta terminologia não é usada hoje em dia nas grandes universidades do mundo inteiro, nem corresponde à realidade do que se estuda quando se estuda epistemologia. A epistemologia é o estudo filosófico de vários problemas relacionados com o conhecimento – independentemente de se tratar de conhecimento científico ou de outro qualquer tipo de conhecimento. É a filosofia da ciência que se ocupa de vários problemas relacionados com o conhecimento científico.
Outra disciplina filosófica é a metafísica, que se ocupa de outro tipo de problemas. Que tipo de coisas existem no mundo? Admitindo que existem árvores e mesas e pessoas, será que os números também existem? E as cores? E os conceitos, como a justiça? Quantos tipos de existência há, se há mais do que um? E quais são as categorias mais gerais da realidade? Como poderemos pensar a identidade? Se ao longo de 10 anos formos substituindo as tábuas todas de um bote de madeira, o bote de hoje será ainda o mesmo do que o bote de há 10 anos? Mas se não é o mesmo, para onde foi o bote de há 10 anos e quando deixou ele de existir?
É claro que há muitos, muitos mais problemas da filosofia. Os problemas da filosofia têm esta característica em geral: não se podem resolver recorrendo aos métodos estabelecidos das ciências e implicam um uso forte da argumentação. Os problemas da filosofia interpelam-nos e exigem-nos argumentos. É claro que eu acho que o mundo exterior existe independentemente de mim; mas como posso eu justificar esta opinião? A filosofia é um pedido sistemático de justificações e essas justificações são argumentos – argumentos de carácter conceptual e não argumentos de carácter empírico.

Argumentos
Mas o que é um argumento? Bom, um argumento é uma forma de justificarmos uma afirmação. E um argumento é um conjunto de afirmações. Um conjunto de tal modo organizado que algumas dessas afirmações fundamentam a afirmação que se quer defender. Por exemplo, eu posso defender que a vida não faz sentido com o seguinte micro-argumento:
A vida não faz sentido. Se fizesse sentido, Deus existiria. Mas Deus não existe.
Este argumento tem uma característica que muito interessa aos filósofos: é válido. O que é um argumento válido? Repare-se: não há qualquer maneira de as premissas deste argumento serem verdadeiras e a sua conclusão falsa. As premissas são "Se a vida fizesse sentido, Deus existiria" e "Deus não existe". E a conclusão é "A vida não faz sentido". Não é difícil de ver que é impossível as premissas serem todas verdadeiras e a conclusão falsa. Significa isto que estabelecemos assim tão facilmente a conclusão filosófica de que a vida não faz sentido? Claro que não. Ainda mal começámos o trabalho crítico da filosofia. O nosso trabalho só começa quando nos perguntamos: será este argumento razoável? Bom, já sabemos que é válido – mas isso quer dizer apenas que é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Mas serão as premissas verdadeiras?
Agora começamos a perceber que este argumento, só por si, é um mau argumento. Isto acontece porque as duas premissas são pelo menos tão disputáveis como a conclusão. Se não temos mais razões para aceitar as premissas de um argumento do que a sua conclusão, então o argumento é mau, ainda que seja válido. Ora, que razões temos para pensar que Deus não existe? E que razões temos para pensar que se a vida fizesse sentido, Deus existiria? Não será possível que a vida faça sentido apesar de não existir Deus?
Este argumento poderia ser a síntese de um argumento mais vasto, argumento no qual se defendesse cada uma das suas premissas cuidadosamente. Nesse caso, este argumento seria tão bom quanto os argumentos usados para defender cada uma das suas premissas.
E agora já estamos a ver duas características fundamentais da filosofia: o seu carácter eminentemente argumentativo e o facto de a argumentação filosófica raramente conduzir rapidamente a resultados consensuais. Este último aspecto produz por vezes resultados infelizes.
Se começarmos a falar filosoficamente com um amigo sobre Deus e ele acreditar que Deus existe, rapidamente ele começa a ficar desesperado: existem tantos argumentos contra a existência de Deus! E parecem todos tão poderosos! Mas, por outro lado, também existem muitos argumentos a favor de Deus! E parecem igualmente poderosos! Que fazer?
A tentação popular é dizer: "Não se pode saber se Deus existe ou não e a filosofia é inútil porque nunca se consegue decidir nada". Esta é uma reacção compreensível, mas errada. É claro que nem todas as pessoas têm vocação para a filosofia e portanto nem todas as pessoas apreciam a discussão pormenorizada, sistemática e consequente que constitui a tarefa dos filósofos. Mas daí a dizer que a filosofia nunca conseguirá concluir nada… bom, a reacção filosófica normal, mas talvez irritante, é perguntar: "Mas como é que sabes que a filosofia nunca vai conseguir concluir nada? Isso parece pelo menos tão difícil de provar como conseguir provar que Deus existe ou que Deus não existe!"
Já Platão tinha alertado para esta dificuldade: as pessoas têm certas opiniões sobre o mundo que as rodeia e a filosofia coloca essas opiniões em causa, o que é desconfortável. É natural que as pessoas resistam, um pouco assustadas, à discussão filosófica - é que esta é um pouco vertiginosa. A discussão filosófica exige um grande apego à verdade - um apego que tem de ser maior do que o apego pelo nosso próprio conforto espiritual, feito de verdades caseiras acriticamente aceites.
Também neste aspecto a filosofia se aproxima bastante da ciência. Pessoas como Newton e Galileu, pessoas como Einstein e Bohr, procuraram continuar a pensar quando todo o pensamento parecia inútil e quando nenhumas garantias de sucesso havia. No tempo de Newton havia várias teorias diferentes para explicar a queda dos corpos e a gravitação dos planetas e qualquer pessoa que começasse a estudar essas teorias contraditórias rapidamente ficaria com a sensação de que jamais seria possível sair daquele labirinto de razões a favor e contra cada uma das teorias. Só a persistência pode produzir resultados - na filosofia como na ciência.
É claro que hoje estamos habituados a pensar na ciência como algo que produz resultados. Mas a história da ciência esteve estagnada durante séculos. Por outro lado, o tipo de desenvolvimentos que se esperam da filosofia não é o mesmo tipo de desenvolvimentos que esperamos da ciência. Podemos ainda hoje não poder decidir cabalmente que Deus existe, nem que Deus não existe; mas sabemos hoje muito mais do que é necessário acontecer para que Deus exista e do que é necessário acontecer para que Deus não exista. Em qualquer caso, os resultados mais palpáveis da filosofia nunca terão o poder de convencer a multidão como a ciência; a multidão convence-se de que a ciência é uma coisa séria porque há automóveis e micro-ondas; mas se tivéssemos exactamente o mesmo conhecimento científico que temos hoje, mas sem quaisquer aplicações tecnológicas, quem estaria disposto a encarar a ciência com seriedade? Muitas pessoas teriam precisamente a mesma reacção que têm hoje em relação à filosofia: algo que não serve para nada.

Para que serve a filosofia?
A filosofia, diz-se por vezes, não serve para nada. Isto é por vezes apontado à nossa cabeça como se fosse o argumento final contra a filosofia. Por vezes, professores e manuais do ensino secundário, inquietos com esta questão, fazem o pior: jogos sofísticos de palavras para mostrar que a resposta "A filosofia não serve para nada" mostra que a filosofia serve para alguma coisa. Isto, claro, é um disparate de quem sendo licenciado em filosofia pouco mais aprendeu a fazer do que a comentar textos de filósofos que morreram há séculos, sem perceber bem o que está a ler e sem saber fazer aquilo que se espera que uma pessoa com formação em filosofia saiba fazer: argumentar claramente.
Há três princípios metodológicos que o professor Aires Almeida transmite aos seus alunos, e que são de uma importância crucial: ser claro, ser consequente e ser crítico. Quem apresenta o sofisma acima referido não está a ser consequente. Mas vejamos primeiro qual é o sofisma. Argumentam essas pessoas do seguinte modo: se a filosofia não serve para nada, é porque serve para alguma coisa, visto que duas negativas nos dão uma positiva. Este argumento é sofístico porque é apenas um jogo inconsequente de palavras. Se essas pessoas fossem consequentes, deveriam reagir do seguinte modo quando alguém diz que não está ninguém no cinema: "Ahah! Deve estar lá alguém!" Isto é uma tolice, claro. As línguas como o francês e o português usam duplas negativas no sentido de negativa simples; dizer que não está ninguém no cinema quer dizer que o cinema está vazio; dizer que a filosofia não serve para nada quer dizer que a filosofia para nada serve.
Mas será verdade que a filosofia não serve para nada? Claro que não. A filosofia, como a ciência, como a arte e como a religião, serve para alargar a nossa compreensão do mundo. Em particular, a filosofia oferece-nos uma compreensão da nossa estrutura conceptual mais básica, oferece-nos uma compreensão daqueles instrumentos que estamos habituados a usar para fazer ciência, para fazer religião e para fazer arte, assim como na nossa vida quotidiana. A filosofia é difícil porque se ocupa de problemas tão básicos que poucos instrumentos restam para nos ajudarem no nosso estudo. Os matemáticos fazem maravilhas com os números; mas são incapazes de determinar a natureza última dos próprios números - têm de se limitar a usá-los, apesar de não saberem bem o que são. Todos nós sabemos pensar em termos de deveres, no dia a dia; mas a filosofia procura saber qual é a natureza desse pensamento ético que nos acompanha sem nós darmos muitas vezes por isso.
Para compreendermos melhor as dificuldades da filosofia é conveniente pensar numa metáfora. Imagine-se que eu estou a fazer uma casa. Preciso de usar vários instrumentos, como a pá de pedreiro, e vários materiais, como o cimento. Mas quando quero fazer uma pá de pedreiro, ou quando quero fazer o cimento, terei de usar outros instrumentos mais básicos. E depois terei de ter instrumentos para fazer os instrumentos com que faço a pá de pedreiro ou o cimento. E por aí fora. Experimente ir para uma ilha deserta fazer uma casa, sem levar nada da civilização. Será extremamente difícil: não terá instrumentos à sua disposição para fazer nada, excepto as suas mãos e a sua inteligência.
Num certo sentido, é esta a dificuldade da filosofia: estamos a tentar estudar os próprios instrumentos que usamos habitualmente para pensar. Por esse motivo, falta-nos instrumentos, falta-nos apoio. Mas não estamos completamente desamparados; temos a argumentação para nos ajudar. São os argumentos que fazem a diferença. São os argumentos que nos permitem ir mais longe na compreensão da nossa estrutura cognitiva mais profunda, que nos permitem compreender melhor os conceitos que usamos no pensamento quotidiano, científico, artístico e religioso.
É agora claro que a filosofia serve para alguma coisa. Serve para compreendermos melhor a estrutura conceptual que usamos no dia-a-dia, na ciência, nas artes e na religião. Claro que a filosofia não serve para distrair o "povo", como o futebol ou a tourada. Mas também a matemática não serve para isso, nem a religião, nem a arte em geral. Para que serve "Os Maias" de Eça de Queirós? Para que serve a teoria da evolução de Darwin? Para que nos serve saber que só na nossa galáxia há tantas estrelas quantos os segundos que existem em 3 mil anos? Serve para sabermos mais sobre nós próprios e sobre o universo em que habitamos. Tal como a filosofia.

Filosofia, história da filosofia e história das ideias
A caracterização da filosofia que ofereci até agora parece decididamente pouco ter a ver com a filosofia tal como é ensinada nas escolas portuguesas. Mas isto é só porque Portugal foi afectado pelo mais rude golpe que a filosofia sofreu na sua história, e que quase a fez desaparecer: o hegelianismo, que acabou por degenerar no irracionalismo romântico e que, graças à contribuição do disparatado positivismo, teve como resultado último o abandono do projecto original da filosofia – a tal "morte da filosofia". Mas a filosofia, felizmente, está bem viva. Só o facto de em Portugal continuarmos a trabalhar debaixo dos preconceitos hegelianos e irracionalistas explica o estado actual da situação. Os licenciados em filosofia pouco mais sabem do que citar e parafrasear textos; não sabem pensar pela sua própria cabeça. Perante um argumento, reagem como uma pessoa comum e sem qualquer preparação. Desconhecem os problemas tradicionais da filosofia, assim como as teorias e argumentos que se discutem hoje mais do que nunca por esse mundo fora. Sendo este o estado de coisas, não admira que não se veja qual é a vantagem de se estudar filosofia, seja no secundário seja no superior.
Pior: a filosofia acaba hoje em dia em Portugal por servir, em certos sectores, como uma forma sofisticada de tentar inculcar ideologias obscurantistas anti-ciência e perigosamente perto dos mais negros devaneios irracionalistas. Esta situação não é exclusiva do nosso país. Acontece o mesmo em França, Espanha, Itália e Alemanha; acontece o mesmo em departamentos de literatura americanos e ingleses. E apesar da denúncia do livro de Sokal (Imposturas Intelectuais), a situação mantém-se: o logro de uma prática pseudo-académica continua, o uso ideológico da filosofia é um facto e hordas de estudantes são todos os anos lançados nas mãos de professores que nem sabem bem o mal que estão a fazer.
Contra este estado de coisas só pode lutar-se de uma maneira: defendendo o direito inalienável de praticar, estudar e transmitir outra maneira de fazer filosofia - uma maneira socrática, crítica, argumentativa, que consista não na transmissão subterrânea de preconceitos irracionalistas e obscurantistas ou no comentário vago, ambíguo e palavroso do texto filosófico e na arte da exegese estéril, mas antes no exercício crítico da nossa razão, à semelhança do que fizeram os nossos antecessores - a cuja memória devemos pelo menos a homenagem de prosseguir o mesmo esforço de compreensão e discussão dos problemas, teorias e argumentos da filosofia.
Nas nossas escolas confunde-se filosofia com história da filosofia e esta última com história das ideias. Uma vez mais, esta confusão parece resultar da ideia de que a filosofia "morreu"; logo, só resta fazer a sua história. Isto é de tal forma subterrâneo que as pessoas não sabem distinguir filosofia de história da filosofia, havendo até quem afirme, com sabor a Hegel, que a filosofia consiste na sua história. É impressionante a quantidade de coisas que se inventam para fugir à filosofia; parece que a filosofia incomoda muita gente.
A filosofia ocupa-se de problemas, teorias e argumentos. A história da filosofia não se ocupa do estudo dos problemas, teorias e argumentos da filosofia, a não ser como meio e não como fim em si. Para um estudante de filosofia, a história da filosofia é um meio para compreender melhor o que determinado filósofo queria realmente dizer; para compreender melhor determinado problema, teoria ou argumento. Mas é apenas um meio. O fim é perguntar-se se o filósofo tem razão, depois de ter compreendido o que ele queria dizer. Haverá boas razões para pensar que sim? Ou melhores razões para pensar que não? Estudar filosofia é aprender a pensar pela sua própria cabeça nos grandes problemas e argumentos da filosofia, e ter uma atitude crítica em relação às grandes teorias que os filósofos inventaram para tentar resolver esses problemas.
Mas muitas pessoas confundem os fins da filosofia com os fins da história da filosofia e acabam o estudo da filosofia ainda antes de o terem começado. Isto é, nunca chegam a fazer a pergunta filosófica crucial: "Será que X tem razão?" Perdem um tempo inusitado em torno de questões exegéticas e históricas, em torno de questões hermenêuticas e interpretativas – e nunca chegam ao estudo filosófico propriamente dito.
A juntar a esta confusão, há o mito da contextualização. Julga-se que depois de se dizer que o filósofo X nasceu no ano tal filho da pessoa tal, e que no seu tempo se travava a guerra Y e que ele falava a língua H, se está melhor habilitado a compreender o filósofo. Isto só por si é altamente discutível; mas o pior é ficar-se por esta contextualização, sem que nunca se discuta realmente o que o filósofo defendeu. Depois da contextualização vem a paráfrase acrítica e a citação copiosa, em que as palavras do filósofo são usadas de um ponto de vista meramente formal - Hegel "tem a ver" com dialéctica e Platão com caverna, o Ser é muito importante e tem a ver com Heidegger. O discurso do estudante consiste em repetir o que leu, num exercício meramente formal de repetição de palavras que nem sabe o que querem dizer. Se Kant fala de juízos, falemos então também de juízos - mas o que é um juízo? Não se sabe. Hume fala de ideias, Kant de juízos e pronto. O erro é trocar as coisas, mas nem se sabe por que razão é tal coisa um erro - se é que o é.
Isto, claro, não é senão a sombra, na caverna de Platão, da verdadeira filosofia. Imagine-se que eu me punha a ler um livro de medicina do século XVI. Eu nada sei de medicina, além do que me ensinaram no ensino básico. Que posso eu fazer com tal texto? Não posso compreender quase nada porque não sei sequer medicina contemporânea, quanto mais a medicina do século XVI. Mas por muito pouco que eu compreenda o texto, por muita pouca preparação que eu tenha para compreender o texto, tenho sempre a possibilidade de fazer um exercício formal: é o chamado "comentário". Um comentário consiste em dizer mais ou menos pelas mesmas palavras, muitas das quais eu nem sei o que querem dizer, o que o texto diz. Não é um exercício crítico - não se discutem as ideias do autor, não se avaliam os seus argumentos, não se compreende o problema que o atormentou; limitamo-nos a dizer mais ou menos o mesmo. É um exercício puramente formal, como se estivéssemos no quarto chinês de Searle a receber instruções numa língua que desconhecemos - não sabemos o que X quer dizer, mas sabemos que X se usa com Y mas nunca com H.
O quarto chinês é uma ideia filosófica apresentada pelo filósofo contemporâneo John Searle para argumentar contra a ideia de que uma máquina pode pensar. Segundo ele, tudo o que uma máquina pode fazer é manipular símbolos. É como se eu estivesse fechado num quarto, sem janelas e de uma ranhura me aparecesse de vez em quando um pedacinho de papel com uns riscos; eu não sei o que esses riscos querem dizer; nem parecem uma verdadeira linguagem articulada. Mas tenho um livro enorme dentro do quarto onde cada um desses rabiscos está anotado, seguido de uma instrução precisa em português, como "Carrega no botão 3". E eu carrego no botão 3. Mas não percebi realmente o pedacinho de papel que me chegou. Acontece que o pedacinho de papel estava escrito em chinês e que o livro que eu tenho é um dicionário. Mas apesar de, para todos os efeitos, eu ser capaz de reagir às ordens dadas em chinês, eu não compreendia realmente essas ordens: limitava-me a reagir como um autómato. O mesmo acontece com as pessoas que, sem uma preparação filosófica prévia, se põem a ler os textos dos grandes filósofos: aprendem a reagir verbalmente, e copiosamente, sem perceberem realmente do que estão a falar.
Curiosamente, a história da filosofia e a história das ideias são fracos candidatos à investigação se acharmos que a filosofia não pode avançar por abundarem os argumentos contraditórios. Isto porque as pretensas conexões históricas que interessam à história da filosofia e à história das ideias são tão discutíveis como os problemas filosóficos tradicionais. Uma vez mais, claro, a história da filosofia e a história das ideias surgem como formas de fugir à filosofia.
Isto não significa que a história da filosofia não tenha a sua dignidade própria e o seu uso filosófico. Claro que tem. É preciso é não confundir as coisas. E, sobretudo, é preciso não pensar ingenuamente que podemos fazer história da filosofia sem saber primeiro filosofia – isso é tão absurdo como pretender fazer história da economia sem saber economia. Este simples facto devia ser suficiente para as pessoas perceberem que quem quer aprender filosofia não pode começar pela história da filosofia, pois para estudar história da filosofia já é necessário saber filosofia.
Em qualquer caso, é muito estranho que se encarem os textos dos filósofos como se tivessem sido manuais escritos para estudantes – coisa que manifestamente não foram. O resultado de ler os textos dos grandes filósofos sem antes ter aprendido filosofia é o comentário acrítico e palavroso e a incapacidade para reflectir pela sua própria cabeça sobre o mais simples dos problemas filosóficos. O resultado último é o facto de as pessoas com esta formação terem, perante a profusão de argumentos e teorias contraditórias da filosofia, a mesma reacção que uma pessoa comum: "É claro que não se pode definir a arte!" Isto é de uma ingenuidade que se compreende numa pessoa sem formação filosófica, mas não num professor de filosofia. Um professor de filosofia sabe muito bem que é tão difícil mostrar que não é possível definir a arte como é difícil tentar defini-la.

Conclusão
A filosofia é uma actividade crítica, que consiste na tentativa de compreensão sistemática dos nossos conceitos mais básicos. Conceitos como os seguintes: bem, arte, justiça, beleza, verdade, validade, igualdade, identidade, liberdade, existência, etc., etc. A filosofia não é a sua história. A filosofia interpela-nos a enfrentar os mesmos problemas que os grandes filósofos do passado enfrentaram; interpela-nos a pensar pela nossa própria cabeça. Um estudante sério de filosofia aprende a pensar pela sua própria cabeça, aprende a defender as suas opiniões com argumentos sólidos - não aprende a repetir de forma palavrosa o que disse Kant ou Hegel ou Aristóteles.
A atitude que reduz a filosofia a um jogo de palavras inconsequente, obscuro, palavroso e acrítico é uma traição ao projecto original da filosofia; é má filosofia. Acho que essa traição tem todo o direito de existir; mas acho que não tem o direito de procurar calar o projecto original da filosofia. Isso seria tão absurdo como ter os maus músicos a calar, nos conservatórios, os músicos de qualidade. Devemos ser tolerantes. Mas devemos dizer – cordialmente - que a pseudofilosofia não é a única alternativa que existe. Há outras formas de fazer filosofia; formas mais criativas, mais consequentes, mais claras e, sobretudo, mais críticas e menos palavrosas. A escolha deve ser livre e deve haver igualdade de oportunidades para todos.
Desidério Murcho
 
publicado por Luís M. M. Duarte às 13:20
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Luís M. M. Duarte (Coordenação)

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