Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

O que é a Filosofia?

 

 

Uma introdução aos temas e características da disciplina

 

 

         A palavra filosofia surgiu pela primeira vez na Grécia antiga. É difícil saber exactamente em que data isto aconteceu, mas há quem admita que o célebre matemático Pitágoras terá sido um dos primeiros a utilizar o termo filósofo para designar aqueles que se dedicavam à investigação e ao conhecimento. De facto, filosofia é uma palavra composta que resulta das palavras gregas philia (que significa amizade ou amor) e sophia (que significa conhecimento ou sabedoria). No seu sentido original, a filosofia é a actividade a que se dedicam os que amam ou procuram o conhecimento. Quando surgiram, os primeiros filósofos foram também os primeiros cientistas.
          Estes filósofos (ou cientistas) interessaram-se pelo estudo da natureza no seu conjunto, tendo contribuído para o desenvolvimento da matemática e da geometria. Interessaram-se por astronomia, pela predição de eclipses, e alguns tentaram calcular as dimensões do Sol e da Lua, bem como determinar a forma da Terra. Além disso, desenvolveram teorias acerca da natureza do universo considerado como um todo. Tales de Mileto, por exemplo, que viveu no século VI a.C., pensava que tudo era constituído por água; Anaxímenes, mais ou menos na mesma época, defendeu que o elemento básico a partir do qual todas as coisas provinham era, não a água, mas o ar. Para sustentar estas teorias, Tales de Mileto e Anaxímenes faziam apelo à observação dos fenómenos naturais, tentando explicá-los com base em causas igualmente naturais.
          Apesar de as suas teorias terem sido há muito postas em causa e ultrapassadas, o mérito destes filósofos (ou cientistas) é grande. As suas explicações foram um enorme avanço em relação às explicações do seu tempo, em que os acontecimentos da natureza eram entendidos como fruto da acção de seres ou forças sobrenaturais: os antigos deuses, etc. Para os primeiros filósofos, como Tales e Anaxímenes, pelo contrário, os fenómenos naturais – o universo no seu conjunto – deviam ser explicados com base apenas em causas naturais. A tarefa do filósofo consistia em descobrir essas causas através da observação cuidadas da natureza e do uso correcto da razão.
          A filosofia nasceu da procura de conhecimento em todos os domínios, uma procura baseada unicamente na razão. Os primeiros filósofos acreditavam que a nossa capacidade natural para raciocinar e corrigir os próprios erros é suficiente para aos poucos nos fazer chegar à verdade. A procura do conhecimento através da razão inclui todas as áreas: tudo o que for capaz de despertar a nossa curiosidade natural e o nosso desejo de compreender deve poder ser explicado racionalmente. A filosofia nasceu de um desejo de compreensão racional generalizado.
          Com o decorrer da história humana, a filosofia foi dando origem às diferentes ciências, tendo-se entretanto separado de disciplinas como a física, a astronomia, a química, a biologia, da matemática, etc.). Da procura do conhecimento em geral, a filosofia transformou-se numa disciplina particular, com temas e características específicas, embora em diálogo com outros saberes.
 
2. Os temas e problemas da filosofia (exemplos)
 
          A procura do conhecimento é uma consequência da curiosidade humana. E esta, por sua vez, leva-nos a fazer perguntas ou a levantar problemas para os quais as soluções ou respostas não são evidentes. Muitas das perguntas que os filósofos fazem, e às quais tentam responder, despertam a nossa atenção desde muito cedo, por vezes muito antes de termos sequer ouvido falar da filosofia.
          Um exemplo é o problema da existência de Deus. A maior parte de nós foi educada para acreditar em Deus. Este é um facto que podemos observar não apenas na nossa cultura mas em quase todas as culturas e sociedades humanas. A prova disso encontra-se na existência das várias religiões: o cristianismo, o judaísmo, o islamismo, o hinduísmo, etc. Contudo, nem todas as religiões com maior número de praticantes acreditam na existência de Deus: o budismo é o exemplo mais conhecido. Mas isto levanta um problema filosófico. Se para o cristianismo, o islamismo, etc., parece claro que Deus existe, os budistas, pelo contrário, acreditam que Deus não existe.
          A questão é: quem tem razão? Que razões poderemos ter para pensar que Deus existe? Se os budistas estão enganados, será que podemos prová-lo? Haverá boas razões para pensar que sim?
          Repara que esta é uma pergunta tipicamente filosófica: queremos descobrir a resposta pelo uso da razão, tal como Tales e os outros primeiros filósofos e cientistas decidiram fazer há vários séculos. E isto, claro, levanta outro problema: não será a existência de Deus apenas uma questão de fé? Talvez a fé seja importante, e até essencial, quando se trata de questões religiosas. Mas, note que os budistas também têm a sua fé própria, e que essa fé está em contradição com a da maior parte dos cristãos, muçulmanos, etc. pensam. Nem todos podem ter razão.
          Esta situação coloca um desafio filosófico importante. Será que existem boas razões para pensar que a fé em Deus faz mais sentido que o inverso? Será que quem acredita em Deus está mais próximo da verdade do que quem não acredita? Seja qual for a resposta, o problema é saber porquê. Será que a razão humana nos pode fazer chegar a alguma conclusão a respeito destas questões?
          O problema da existência de Deus mereceu a atenção de importantes filósofos como Epicuro, São Tomás de Aquino, Santo Anselmo, David Hume e muitos outros, entre crentes e descrentes. Devido à sua ligação com a religião, este problema é tratado no campo da filosofia da religião. Saber se haverá vida depois da morte e que relações existem entre fé e razão são mais dois exemplos de problemas tradicionalmente estudados pela filosofia da religião ao longo do tempo.
           Mas, além da filosofia da religião, existem vários outros campos ou disciplinas filosóficas, cada um com os seus problemas próprios. O exemplo apresentado a seguir vem da ética, ou filosofia moral.
         A observação das diferentes sociedades humanas mostra que nem todas estão de acordo acerca do que é uma acção boa ou , certa ou errada. A mesma acção pode ser considerada moralmente certa numa sociedade e moralmente errada noutra. Um exemplo significativo é o seguinte.
          Tirar a vida a um recém-nascido seja por que motivo for é considerado na nossa e em outras sociedades um crime, e tem o nome de infanticídio. Mas, na sociedade esquimó, era permitido fazê-lo como forma de evitar que a população crescesse para lá de um certo limite; os antigos romanos e os espartanos (sociedade grega antiga) também aceitavam o infanticídio em alguns casos. Um problema parecido ao problema da existência de Deus pode colocar-se: quem tem razão?
          Seremos nós, que consideramos o infanticídio em tudo contrário à moral ou os esquimós, romanos e espartanos da Antiguidade? Será que o bem e o mal são apenas uma questão de opinião, ou o infanticídio é realmente um mal, sendo que nós estamos certos e os esquimós errados? Será que diferentes sociedades podem ter diferentes opiniões morais, não estando nenhuma mais certa do que a outra, ou, pelo contrários, os valores morais aplicam-se a todos da mesma forma?
          Repara que os esquimós acreditam que eles têm razão. Pensam que, em certos casos, o infanticídio não tem nada de mal, que não é um acto moralmente errado. Mas já houve um tempo em que as pessoas acreditavam, com toda a sinceridade, que o Sol girava em torno da Terra. Essas pessoas estavam erradas. O facto de terem acreditado que o Sol girava em torno da Terra não fazia com que isso fosse verdade. Assim, os esquimós também podem acreditar que o infanticídio é aceitável e estarem enganados. Mas, se estiverem enganados, então talvez o bem e o mal não sejam uma questão de opinião, talvez sejam afinal o mesmo para todos, só que algumas sociedades ainda não perceberam isso: estão erradas mas não têm consciência de o estarem.
          Este problema pode ser formulado da seguinte maneira: serão os valores morais (o bem e o mal, etc.) aplicáveis a todos os seres humanos, ou a moral depende do ponto de vista de cada sociedade?
          Outro problema associado a este é o seguinte. A observação mostra-nos que na mesma sociedade, certas acções são consideradas moralmente permissíveis por algumas pessoas e moralmente erradas por outras. O aborto é um exemplo de questão moral sobre a qual há muita discordância.
         Mais uma vez surge um problema filosófico: quem tem razão? Ambos os partidos acham que têm razão, mas não podem estar ambos certos. Afinal, o aborto é moralmente permissível ou não é. Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Ou será que tudo depende do ponto de vista de cada um? Será que tudo depende da maneira de cada um ver o aborto e não do aborto em si mesmo?
          Ainda no campo da ética, podemos perguntar: será que apenas os seres humanos têm direitos, ou os outros animais também os têm? Será que fazer sofrer os animais implica violar os seus direitos? Porquê?
          O campo da filosofia política também tem feito os filósofos interrogarem-se ao longo do tempo. Exemplos dessa preocupação são os seguintes. Em que consiste uma sociedade justa? Como deve a riqueza estar distribuída? Devemos preferir uma sociedade mais ou menos igualitária? Quando é que o Estado tem o direito, e não apenas o poder, de mandar em nós? Será que apenas nos Estados democráticos, onde os cidadãos são livres, o Estado tem o direito de exercer o poder? Estes são apenas alguns exemplos de uma outra área da filosofia chamada filosofia política.
          Para terminar esta apresentação, apenas mais alguns breves exemplos, relacionados com a estética. Muitas vezes as pessoas discordam sobre as coisas que acham bonitas. Será, então, que a beleza está nas coisas ou apenas nos olhos do observador? Esta diferença é importante. Se a beleza estiver nas próprias coisas, eu posso não achar uma música bonita e ela ser bonita; acontece que não sou capaz de ver a beleza onde ela realmente está. Mas, se a beleza não estiver nas próprias coisas, se só estiver no olhar de cada um, uma música, um quadro, etc. ser bela ou belo ou não depende do ponto de vista de cada pessoa e não da própria música ou do próprio quadro. Além disso, sabemos que a música, o cinema, etc. são formas de arte. Mas o que é a arte? Será que um objecto tem de ter certas características especiais para poder ser visto como arte ou qualquer coisa, seja o que for, pode ser arte? E que características especiais serão essas?
          Um último exemplo. A maior parte das pessoas que acreditam em Deus acredita que são livres. E acreditam que Deus é omnisciente, ou seja, que Deus possui conhecimento de tudo. Concordarão estas crenças uma com a outra? Fará sentido acreditar nas duas ao mesmo tempo?  
          O problema é o seguinte. Se Deus tem conhecimento de tudo, então também sabe o que eu farei amanhã. E se sabe o que eu farei amanhã, sabe que eu irei amanhã ao cinema. Mas se Deus não pode estar enganado, ir ao cinema amanhã é algo que eu não posso evitar. Ora, se não posso deixar de ir ao cinema amanhã (é isso que Deus sabe que farei) não posso escolher não ir ao cinema. Mas, neste caso, fará sentido dizer que tenho toda a liberdade de ir ou não ir ao cinema?
 
3. Síntese dos problemas filosóficos e das disciplinas filosóficas acima indicadas
 
          Para teres uma ideia mais clara do que foi dito antes, observa com atenção o seguinte quadro síntese.
 

 
Disciplinas filosóficas
 
 
Problemas ou questões filosóficas
 
Filosofia da religião
 
 
- Será que Deus existe?
 
- Será a omnisciência de Deus conciliável com a liberdade humana?
 
- Haverá vida para além da morte?
 
 
Ética ou filosofia moral
 
 
- Há verdades morais aplicáveis a todos os seres humanos ou os valores morais variam com a opinião de cada sociedade ou de cada pessoa?
 
- O aborto é moralmente permissível?
 
- Os animais têm direitos?
 
 
Filosofia política
 
 
- Em que consiste uma sociedade justa?
 
 
- A justiça social é conciliável com grandes desigualdades económicas?
 
- Em que se baseia o direito de exercer o poder político?
 
 
Estética
 
 
- A beleza é objectiva (está nas próprias coisas, nos objectos) ou é subjectiva (está em cada pessoa ou sujeito)?
 
- O que é a arte?
 

 
          As disciplinas filosóficas não são apenas as quatro referidas acima. Nem os problemas de cada uma delas apenas estes. No entanto, estes exemplos são suficientes para uma primeira abordagem da filosofia.
 
4. O que distingue a filosofia das ciências
 
          A filosofia e as diferentes ciências têm uma origem comum: o amor pelo conhecimento, ou seja, o desejo de compreender o mundo e de nos compreendermos a nós próprios, em todos os aspectos. Mas, ao longo do tempo, as diversas ciências foram-se separando umas das outras para ganharem autonomia. Isto aconteceu porque cada uma delas se distingue das restantes num aspecto importante: cada ciência tem o seu próprio objecto de estudo, os seus próprios temas de investigação e, até, os seus métodos de trabalho. Assim, a matemática estuda os números, a geometria as figuras no espaço, a física o comportamento da matéria (o movimento, a electricidade, etc.), a biologia o modo como a vida evolui nas suas diferentes formas ou espécies, etc.
          Mas, apesar de estas ciências serem diferentes umas das outras porque estudam coisas diferentes, há um aspecto que têm em comum. A física, a química, a biologia, etc. estudam factos e tentam explicar esses factos. A Lua gira em redor da Terra. É um facto. Mas como se explica este facto. Por que razão a Lua não cai em direcção à Terra ou se afasta dela através do espaço? A resposta, já se sabe, é a gravidade. Mas as leis da gravidade, a que o movimento dos planetas obedece, entre muitas outras coisas, tiveram de ser descobertas e comprovadas pela experiência. Sem a experiência não poderíamos saber que leis da natureza existem e de que modo actuam.
          As várias ciências (com excepção da matemática) estudam factos e usam a experiência para saber se as explicações que para eles propomos são verdadeiras. Os seus problemas são empíricos. Esta palavra significa que a experiência é necessária para lhes responder. Exemplos de problemas empíricos são:
 
1.      Quantos satélites naturais tem o planeta Júpiter?
2.      Por que se movem os continentes?
3.      O que provocou a extinção dos dinossauros?
4.      Será que existe atmosfera em Marte?   
5.      A que velocidades se propagam o som e a luz?
6.      Por que razão ouvimos primeiro os relâmpagos e só depois os trovões?
 
          Todos estes problemas têm hoje respostas científicas. Mas, sem a experiência, não seria possível conhecê-las. Será que todos os problemas que desafiam a razão humana são deste tipo? Necessitarão todos eles de experiência para poderem ser investigados e respondidos? A resposta é: não.
          Pensa numa equação tão simples como esta: 2x + 4 = 0. Teremos que fazer experiências para descobrir o valor de x ou basta usar o raciocínio? A resposta é: basta o raciocínio. Para chegar ao valor desejado, precisamos apenas de fazer os cálculos (de cabeça ou usando uma folha e um lápis). Isto mostra que há coisas que podemos ficar a saber usando apenas a nossa capacidade de cálculo racional, isto é, a razão.
          Neste aspecto, os problemas filosóficos são semelhantes aos da matemática: podem ser investigados usando apenas a razão, sem haver necessidade de recorrer à experiência. Para distinguir os problemas que podem ser investigados usando apenas a razão dos problemas empíricos, que exigem a experiência, chamamos aos primeiros problemas a priori. Assim, os problemas da filosofia são a priori enquanto os das ciências, à excepção da matemática, são empíricos.
          Os problemas da filosofia que encontrámos atrás são não podem ser respondidos com a experiência.
         Não podemos usar a experiência para saber se Deus existe ou não, se a alma é imortal ou não. A experiência também não nos ajuda a descobrir se o aborto é moralmente aceitável ou não. Para isso precisamos de descobrir as razões em que nos possamos basear para defender uma ou outra destas ideias, isto é, as razões que nos poderão fazer concluir que uma das duas possibilidades tem mais hipóteses de ser verdadeira do que a outra. O método da filosofia é o debate de ideias.
          Em síntese, podemos distinguir a filosofia das ciências de duas maneiras: as ciências estudam factos e recorrem à experiência para os explicar; a filosofia debate ideias e recorre apenas à razão.
 

 
Filosofia
 
 
Ciências empíricas
 
Debate de ideias
 
 
Estudo de factos
 
É a priori, usando apenas a razão
 
 
Necessitam de usar a experiência

 
 Paulo Andrade Ruas, Escola Secundária da Ribeira Grande
 

      

publicado por Luís M. M. Duarte às 18:02
link do post | comentar | favorito
|

Luís M. M. Duarte (Coordenação)

pesquisar

 

Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

posts recentes

Os "Sexalescentes" do Séc...

O fenómeno atual multimod...

A REDEFINIÇÃO (DA NOÇÃO) ...

V Comemoração do Dia Mund...

V Comemoração do Dia Mund...

O que é a Filosofia? - Um...

IV Comemoração do Dia Mun...

Comemoração do 25 de Abri...

Os Valores

II, A Racionalidade práti...

arquivos

Abril 2017

Maio 2015

Abril 2012

Novembro 2011

Novembro 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

links

blogs SAPO

subscrever feeds