Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

I- Argumentos: o que são? Que objectivos têm? Como se discutem?

 

1. O que são?
 
          Podemos caracterizar um argumento – ou raciocínio – de duas maneiras: quanto aos seus objectivos e quanto aos seus elementos. No primeiro caso interessa-nos saber por que razão, ou com que finalidade, há argumentos; no segundo, queremos conhecer as suas partes componentes.
          Para esclarecer o primeiro aspecto (os objectivos que nos levam a argumentar), vejamos o seguinte diálogo.
 

 
Maria: O teu clube de ginástica tem uma direcção competente. Estou bastante satisfeita com o que vi.
Joana: Por que dizes isso? Estiveste no clube uma manhã, nada mais.
Maria: É muito simples. Não há clubes bem organizados sem uma direcção competente. O teu está bastante bem organizado. Portanto…
Joana: Penso que tens razão: o Clube Olímpico tem uma direcção competente. Estamos de acordo.
 

 
          Que se passou? Primeiro, uma afirmação que Maria considerava verdadeira. Depois, as razões em que se baseou para concluir que estava a dizer a verdade. Se as reunirmos, temos um argumento.
 

 
(1)    Todos os clubes bem organizados têm direcções competentes.
(2)    O Clube Olímpico está bem organizado.
 
\ O Clube Olímpico tem uma direcção competente.
 

 
          As afirmações (1) e (2) são as razões em que Maria se baseou para concluir que o clube da Joana tem uma direcção competente. As afirmações (1) e (2) têm como objectivo justificar a conclusão a que chegou. O objectivo do argumento é, portanto, o de justificar racionalmente uma afirmação. E justificar racionalmente uma afirmação implica dar razões para pensar que a afirmação é verdadeira.
          As razões que um argumento apresenta chamam-se premissas. A afirmação que o argumento quer justificar chama-se conclusão. Assim, um argumento é constituído por um conjunto de afirmações relacionadas entre si de tal modo que umas são premissas e outra a conclusão. Um argumento pode ter várias premissas (podemos ter várias razões para afirmar uma conclusão) mas apenas uma conclusão. Cada argumento tem em vista justificar uma única afirmação.
 
2. Que objectivos têm e como se discutem?
 
          Vejamos o seguinte exemplo.
 

 
Ana: O aborto levanta um difícil problema moral que, por vezes, me deixa insegura. Mas, a minha impressão é que abortar é errado.
Pedro: Porquê? Que razões te fizeram chegar a essa conclusão?
Ana: Por um lado, parece-me que o feto tem o direito à vida. Por outro lado, violar um direito é sempre errado. Ora, o aborto viola o direito à vida do feto. Portanto, a lógica obriga-me a concluir que abortar é errado.
Pedro: Se as tuas razões forem todas verdadeiras, é claro que abortar é errado. Onde está o problema?
Ana: O problema é que o direito à vida do feto não reúne o consenso. Sabemos, por exemplo, que as pessoas têm direitos, entre eles o direito à vida. Mas o feto não é uma pessoa. Não têm, como as pessoas, consciência, projectos que queiram realizar, objectivos, sentimentos e emoções. 
 

 
          Este exemplo permite-nos explorar um pouco mais algumas das ideias que já estavam presentes no anterior.
          O seu objectivo é justificar a afirmação que o aborto é errado. Para o fazer, a Ana propõe três razões ou premissas. Em consequência, o argumento poderá ser apresentado da seguinte maneira:
 

 
(1)    O feto tem o direito à vida.
(2)    Violar um direito é sempre errado.
(3)    Abortar viola o direito à vida do feto.
 
       \   Abortar é errado.
 

 
          Um aspecto que salta à vista quando lemos o argumento com atenção é que a conclusão é uma consequência das premissas. Se aceitarmos as premissas, parece incoerente não aceitar a conclusão. Tudo indica, portanto, que se as premissas forem todas verdadeiras o mesmo tem de acontecer à conclusão.
          É isto que Ana quer dizer quando afirma que a lógica a obriga a concluir que o aborto é errado. De facto, se raciocinarmos unicamente com base nestas três premissas, é isso que é lógico concluir.
          No entanto, Ana parece insegura. Ela está insegura porque o seu argumento só prova que o aborto é errado se todas as suas premissas forem indiscutivelmente verdadeiras. Ora, a Ana sabe que há quem pense, por exemplo, que o feto não possui o direito à vida. Se isto for verdade, a premissa (1) é falsa e a premissa (3) também. A Ana sabe que o valor do argumento depende disto. 
          Este exemplo permite-nos tirar uma lição sobre como discutir argumentos. Uma pessoa que discorde da Ana, por exemplo, teria de fazer o quê? Como haveria de responder ao seu argumento?
          Muito simplesmente, mostrando através de um outro argumento que uma das premissas em que a Ana se baseou é falsa. Como a lógica nos obriga a pensar que se as premissas forem verdadeiras, a conclusão também é verdadeira, isto significa que a conclusão só pode ser falsa se uma pelo menos das premissas for falsa. É o medo de uma das premissas ser falsa que deixa a Ana insegura.
          Vejamos outro caso.
 

 
Manuel: Olá, Luísa! Comprei dois bilhetes para a tourada esta noite. Espero que estejas de acordo.
Luísa: Nem pensar! As touradas são moralmente erradas.
Manuel: Não vejo porquê.
Luísa: Bem, estou a basear-me no facto de as touradas fazerem sofrer inutilmente os animais.
Manuel: E depois?
Luísa: Ora essa! Fazer sofrer os animais inutilmente é moralmente errado.
Manuel: Ora, ora. São apenas animais.
Luísa: Não achas que causar sofrimento aos animais é errado? Pensas que apenas os seres humanos têm direitos?
Manuel: Claro que os animais não têm direitos. Os animais não têm deveres. Ora, quem não têm deveres não tem direitos.
Luísa (com um sorriso): Que estranho argumento. Não é simplesmente verdade que quem não tem deveres não tem direitos. Um bebé não tem deveres nem pode compreender o que isso é. Mas tem vários direitos. O Estado pode retirá-lo à família se a família, por exemplo, o maltratar.
 

 
          Este longo diálogo ilustra o que foi dito anteriormente acerca da maneira de discutir um argumento.
          Lendo o diálogo com atenção, podemos dividi-lo em três partes distintas. Em primeiro lugar, o argumento da Luísa para justificar a afirmação de que as touradas são moralmente erradas. Em segundo lugar, o argumento do Manuel destinado a justificar que os animais não têm direitos e, portanto, que é errado pensar, como faz a Luísa, que fazer sofrer os animais é moralmente errado. Por fim, uma terceira parte onde a Luísa mostra que o argumento do Manuel contra os direitos dos animais se baseia numa premissa falsa e, portanto, que a sua tentativa para pôr em causa os direitos dos animais falhou. Vejamos cada uma destas partes em separado.
          O argumento inicial da Luísa consiste nisto:
 

 
(1)    As touradas fazem sofrer os animais inutilmente.
(2)    Fazer sofrer os animais inutilmente é moralmente errado.
 
       \  As touradas são moralmente erradas.
 

 
          Uma vez mais, se as razões apresentadas pela Luísa forem verdadeiras, a lógica faz-nos pensar que o mesmo se passa com a conclusão. Mas o Manuel discorda da premissa (2): ele acha que a premissa (2) só é verdadeira se os animais tiverem direitos. E pensa que não é isso que acontece.
          Para justificar esta tese, Manuel propõe o seguinte argumento:
 

 
(1)   Os animais não têm deveres.
(2)   Quem não tem deveres não tem direitos.
 
        \   Os animais não têm direitos.
 

 
          A resposta da Luísa consiste em mostrar que a premissa (2) do argumento do Manuel é falsa. Por isso, ela chama a atenção para o facto de os bebés, por exemplo, terem direitos mas não terem deveres. Se isto acontece com os bebés por que não haveria de acontecer também com os animais. Afinal, um touro é tão incapaz de compreender o que significa um dever como um bebé.
          Mas, se a premissa (2) for falsa, o argumento do Manuel perde a sua força. Não prova o que queria provar:
         
          · Não prova que os animais não têm direitos.
          · Não contribui para provar que a Luísa não tinha razão ao defender que as touradas são moralmente erradas.
 
          Sendo assim, a posição de Manuel em todo o debate sai bastante fragilizada. Mesmo que a Luísa não tenha razão, os argumentos do Manuel não conseguiram mostrar ser esse o caso e, portanto, o debate pende para o lado da Luísa. Se existirem razões para a criticar, terão de ser outras.
 
3. Premissas e conclusão
 
          Nos casos precedentes, foi de certo modo fácil identificar cada um dos argumentos e apresentá-los de forma transparente. Mas, por vezes, há dificuldades em fazê-lo, sobretudo se os seus autores não tiverem a preocupação de se fazerem entender com toda a clareza ou não souberem como.    
          Para identificar um argumento precisamos de identificar cada uma das suas premissas e a conclusão. Não devemos confundir o que é uma premissa com a conclusão ou a conclusão com uma das premissas. Para evitar estas confusões, há expressões do Português que servem de ajuda.
 

Indicadores de premissas
Indicadores de conclusão
 
          porque
          dado que
          como foi dito
          visto que
          devido a
          a razão é que
          admitindo que
 
 
          por isso
          por conseguinte
          logo
          portanto
          daí que
          segue-se que
          consequentemente
 

 
           Se examinares de novo os diálogos anteriores, verificas que algumas destas expressões surgem repetidamente. Quando alguém faz uma afirmação e, a seguir, usa a palavra “porque” para depois continuar, em geral, prepara-se para dar razões. Está, portanto, a apresentar as premissas do seu argumento. Quando alguém usa a palavra “portanto”, em geral, isso significa que vai tirar a conclusão do seu raciocínio. Se estivermos atentos a estas e outras palavras com o mesmo significado, a probabilidade de confundirmos uma premissa com a conclusão (ou o inverso) é baixa.  
          Vejamos três exemplos.
 
          Caso um
 

 
Nenhum estudante aplicado tem maus resultados. No entanto, alguns estudantes têm maus resultados. Portanto, alguns estudantes não são aplicados.
 

 
          Este exemplo parece não suscitar a dúvidas. A palavra “portanto” indica claramente qual a conclusão.
          O argumento é o seguinte:
 

 
(1)   Nenhum estudante aplicado tem maus resultados.
(2)   Alguns estudantes têm maus resultados.
 
        \ Alguns estudantes não são aplicados.
 

 
          Caso dois
 

 
A vida tem um sentido que já foi definido por Deus ou tem o sentido que cada pessoa quiser dar-lhe. Porque se Deus existir, a vida tem um sentido que já está definido por Deus; mas, se Deus não existir, a vida tem o sentido que cada pessoa decidir dar-lhe.
 

 
          Este exemplo apresenta uma diferença importante em relação ao anterior. Desta vez, a conclusão é apresentada antes das premissas. Podemos estar certos disso dada a ocorrência da palavra “porque”. Primeiro faz-se uma afirmação, depois são dadas as razões que justificam essa afirmação.
         O argumento é este:
 

 
(1)   Se Deus existir, a vida tem um sentido que já está definido por Deus.
(2)   Se Deus não existir, a vida tem o sentido que cada pessoa decidir dar-lhe.
 
        \ A vida tem um sentido definido por Deus ou o sentido que cada pessoa quiser dar-lhe.
 

       
          Caso três
 

 
Se os seres humanos são livres, são responsáveis pelos seus actos. Portanto, se são livres, faz sentido serem censurados se agirem mal. Porque, se são responsáveis, faz sentido censurá-los quando agem mal.
 

 
          Neste caso, a conclusão não vem no princípio nem no fim: surge a meio do argumento. A palavra “portanto” vem antes da conclusão e sucede à primeira premissa; a palavra “porque” indica a segunda. Se não tivéssemos atenção, poderíamos facilmente confundir a conclusão do argumento com uma das premissas. Mas, neste caso, não teríamos realmente compreendido o argumento.
          Vejamos qual é:
         

 
(1)   Se os seres humanos são livres, têm de ser responsabilizados pelos seus actos.
(2)   Se os seres humanos são responsáveis pelos seus actos, faz sentido censurá-los caso ajam mal.
 
        \ Se os seres humanos são livres, faz sentido censurá-los quando agem mal.
 

         
 
Paulo Andrade Ruas, Escola Secundária da Ribeira Grande
publicado por Luís M. M. Duarte às 16:29
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