Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

II - Argumentos (Cont.)

4. Validade
 
          Uma importante característica que os exemplos de argumentos atrás apresentados têm é serem válidos
          Mas em que consiste a validade de um argumento? Consiste simplesmente no facto de a verdade da conclusão ser uma consequência lógica da verdade das premissas. Dito de outro modo:
 
· Um argumento é válido quando é impossível a conclusão ser falsa se as premissas forem todas verdadeiras.
 
          Um exemplo muito simples de argumento válido é o seguinte:
 

 
(1)   Todos os homens são mortais.
(2)   Sócrates é homem.
    
       \ Sócrates é mortal.
 

 
          Para percebermos por que é que a conclusão não pode ser falsa se as premissas forem verdadeiras basta reparar no seguinte. A primeira premissa diz que o conjunto dos homens faz parte do conjunto dos mortais. E a segunda diz que o indivíduo Sócrates faz parte do conjunto dos homens. Se isto for verdade, então, tem de ser também verdade que Sócrates faz parte do conjunto dos mortais. Como dizíamos: a conclusão não pode ser falsa se as premissas forem verdadeiras.
          A validade é uma característica muito importante dos argumentos. Mas nem todos os argumentos são válidos.
          Repara no seguinte exemplo:          
 

 
(1)   Alguns políticos são corruptos.
(2)   Cavaco Silva é político.
    
       \  Cavaco Silva é corrupto.
 

 
          Este argumento é inválido. Mesmo que as premissas sejam ambas verdadeiras, não nos autorizam a concluir que Cavaco Silva seja corrupto. Porquê? Bem, porque a primeira premissa diz que alguns políticos são corruptos mas não diz se Cavaco Silva pertence ao grupo dos que são corruptos ou ao grupo dos que não são corruptos. Ambas as hipóteses estão, portanto, em aberto; tanto quanto sabemos, qualquer delas pode ser falsa. Nada indica que seja uma e não a outra a verdadeira.
          Por que é a validade importante? É importante porque argumentamos para justificar a verdade da conclusão. Para isso, apresentamos premissas verdadeiras. Num argumento válido, se as premissas forem todas verdadeiras, a conclusão tem obrigatoriamente de ser verdadeira também.
          Logo, a verdade das premissas dá-nos a prova de que a conclusão é verdadeira. Dá-nos a garantia de que a conclusão não pode ser falsa. Mas se um argumento for inválido, essa prova não existe.
          Um argumento inválido não prova coisa alguma. Porquê? Se o argumento for inválido, as premissas, mesmo que sejam verdadeiras, não garantem que a conclusão o seja: a conclusão pode ser falsa. Mas, se a conclusão pode ser falsa, as premissas não provaram que a conclusão é verdadeira. O argumento falhou o seu objectivo. Não dá razões para pensar que a conclusão seja verdadeira.
          No entanto, um argumento pode ser válido e não ter premissas verdadeiras. A definição de validade diz o que acontece SE as premissas forem verdadeiras, não diz que têm de o ser obrigatoriamente.
          Repara no exemplo seguinte:
 

 
(1)   Todos os portugueses são honestos.
(2)   O advogado Vale e Azevedo é português.
    
        \  O advogado Vale e Azevedo é honesto.
 

 
          Como todos suspeitamos, este argumento tem uma premissa e a conclusão falsas. Mas, se as premissas fossem ambas verdadeiras, a conclusão também seria verdadeira. E isto é que conta para haver validade. Não podemos estar sempre certos de que as nossas razões são verdadeiras. Mas, se os nossos argumentos forem válidos, podemos estar certos de que se as premissas forem verdadeiras, a conclusão é verdadeira. A verdade das premissas garante (ou prova) a conclusão.
         
5. Validade e verdade
 
          A validade é uma característica dos argumentos; a verdade é uma característica das afirmações. Apenas um argumento pode ser válido ou inválido, e apenas uma afirmação pode ser verdadeira ou falsa.
          Comecemos pelo conceito de verdade. Dizemos, por exemplo, que a frase “Cavaco Silva é português” é verdadeira, e que a frase “Cavaco Silva é inglês” é falsa. Porquê? Porque o que a primeira frase afirma corresponde à realidade, enquanto o que a segunda frase afirma não corresponde.
          Assim, o conceito de verdade refere-se à relação entre uma afirmação e a realidade. Se a frase é verdadeira, existe uma relação de correspondência entre a afirmação e a realidade; se esta relação de correspondência não existir, a frase é falsa. Ora, não é nada disto que se passa com a validade.
          Podemos não saber a que realidade se refere um argumento e, mesmo assim, sermos capazes de, reflectindo um pouco, descobrir que o argumento é válido. Vejamos um exemplo, a começar pelas premissas:
 

 
(1)   Todos os guris são mufás.
(2)   Zip é um guri.
 
      

 
          Não sabemos o que significam as palavras “guri”, “mufá” e “zip”. Não sabemos, portanto, a que realidades se referem. No entanto, não temos dificuldade em descobrir que a conclusão do argumento é:
 

 
          \  Zip é um mufá.
 

 
          Esta conclusão é uma consequência lógica das premissas. Por outro lado, se reflectirmos um pouco mais, percebemos que se as premissas forem verdadeiras, a conclusão tem de ser verdadeira. Portanto, apesar de ignorarmos a que realidade se refere o argumento, sabemos que é válido.
          Porquê? Porque compreendemos que se as premissas forem verdadeiras a conclusão não pode ser falsa. Mas, então, a validade refere-se apenas à relação entre premissas e conclusão num argumento, e não à relação do argumento com a realidade. A verdade das premissas implica – ou tem como consequência – a verdade da conclusão. Se as premissas são realmente verdadeiras ou não é algo que não sabemos. Podem ser e podem não ser. De facto, não se sabe o que significam.      
         
6. Argumentos dedutivos e indutivos
 
          Os argumentos válidos têm uma característica decisiva: a verdade das premissas garante a verdade da conclusão. Estes argumentos são dedutivos. Mas não são há apenas raciocínios dedutivos.
          Eis um exemplo:
 

 
(1)   Todos os corvos que observei até hoje são pretos
 
      \ Todos os corvos são pretos.
 

 
          A isto chama-se aprender com a experiência. Se, até hoje, apenas vimos corvos pretos, não seria razoável concluir que alguns corvos não são pretos. Do mesmo modo, seria irracional concluir que amanhã o Sol não irá erguer-se no horizonte porque, até hoje, foi o contrário que sempre aconteceu. Contudo, este raciocínio não é válido. A verdade da premissa não garante a verdade da conclusão.    
           Afinal, podem existir corvos de outra cor num local qualquer distante do planeta que até hoje se manteve inexplorado. As cores das penas das aves podem variar dentro da mesma da espécie, em função do meio ambiente. Ora, o facto de isto ser possível mostra que este argumento pode ter a premissa verdadeira e a conclusão falsa. O argumento é dedutivamente inválido.
          Tal como actualmente se justifica pensar que todos os corvos são pretos, também no século XIX se justificava pensar que todos os cisnes são brancos. Na verdade, os europeus não sabiam da existência de cisnes pretos até serem descobertos na Austrália. Mas, dado que apenas tinham visto cisnes brancos, não seria razoável pensarem que todos eram brancos? É claro que sim.
          O problema é que se a conclusão a respeito de cisnes se revelou falsa, porquê supor que tal não possa acontecer com a conclusão acerca de corvos? O mais que se pode dizer é que ambos os raciocínios são falíveis: as premissas podem ser verdadeiras, mas a conclusão falsa; partir de premissas verdadeiras não é suficiente para garantir a verdade da conclusão. Daí que o raciocínio seja arriscado – ou seja, falível. A este género de raciocínios arriscados chamamos indutivos.
          Nos raciocínios indutivos, embora se possa chegar a uma conclusão falsa com base em premissas verdadeiras, o que importa é limitar ao máximo a probabilidade de isso acontecer: sabemos que corremos o risco de nos enganarmos mas queremos que esse risco seja o menor possível.
          Exemplo. Queres comprar laranjas e encontras na mercearia dois caixotes de laranjas à venda por metade do preço habitual. Para tentares perceber se as laranjas são boas, tiras duas ao acaso do caixote A e duas ao acaso do caixote B. As duas laranjas do caixote B estão pobres: que conclusão tirar? Todas as outras laranjas do caixote B podem estar boas e haver cinco ou mais laranjas podres no caixote A. Não sabes. É um risco. Mas parece mais provável que o caixote A tenha mais laranjas boas do que o caixote B. Portanto, o que é razoável é arriscar no caixote A.
          Não podes deixar de correr riscos. Mas agiste de modo a tentar evitar que o risco fosse muito grande. Ou seja, que a probabilidade de descobrires que estavas enganado é a menor possível.
          Os argumentos que, no máximo, poderão tornar provável uma conclusão, mas de forma alguma garanti-la, são argumentos de risco: ainda que a verdade das premissas nos dê boas razões para acreditar na conclusão, podemos estar enganados. É o que se passa quando temos de aprender com a experiência. A experiência diz-nos que podemos confiar no nosso amigo Manuel. Mas isso até hoje. Infelizmente, podemos vir a descobrir amanhã que ele foi capaz de nos enganar.        
          Os argumentos indutivos não são válidos da mesma forma que os dedutivos. Mas podem ser bons argumentos. Quando o risco não pode ser eliminado, o problema é encontrar razões que atribuam à conclusão um alto o grau de probabilidade. Se as premissas de um argumento indutivo tornarem provável a verdade da conclusão, as razões apresentadas são indutivamente fortes. Se a verdade das premissas torna pouco provável a conclusão, as razões propostas são indutivamente fracas.
          Imagina que um detective está a seguir a pista de um assassino. Enquanto recolhe dados, um dos suspeitos confessa o crime. A confissão parece concordar com os elementos de que o detective dispõe. Perante isto, parece razoável que o detective fizesse um raciocínio do tipo seguinte:
 

 
(1)   O suspeito A confessou o crime.
(2)   Os factos conhecidos até a data da confissão são coerentes com a hipótese de A ter cometido o crime.
 
     \ O suspeito A cometeu o crime.
 

 
          Embora seja bastante provável que A tenha cometido o crime, a conclusão do raciocínio pode ser falsa. Afinal, existem pessoas que confessam crimes que não cometeram. Contudo, à luz da informação disponível, o raciocínio é indutivamente forte. O número de pessoas que confessa crimes que não cometeram é muito inferior ao número de pessoas que diz a verdade ao confessar. É como ter um saco com dez bolas brancas e cinquenta bolas azuis. Ao tirar uma ao acaso, é mais provável sair uma bola azul do que uma branca. É este tipo de raciocínio que o detective fez.  
          Admite, no entanto, que dias depois surge uma testemunha de confiança que afirma que o suspeito A estava, no momento do crime, a almoçar num restaurante a vários quilómetros do local onde o crime foi cometido. Esta testemunha vem enfraquecer bastante o raciocínio anterior. Isto acontece por causa do carácter «aberto» dos raciocínios indutivos: a todo o momento é possível descobrir factos que obriguem a rever a conclusão a que se tinha chegado antes.
          Um argumento indutivamente forte pode à luz de novos dados tornar-se indutivamente fraco, e vice-versa.
 Paulo Andrade Ruas, Escola Secundária da Ribeira Grande
publicado por Luís M. M. Duarte às 16:30
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