Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

Argumentação e Filosofia

"A definição de retórica é conhecida: é a arte de bem falar, de mostrar eloquência diante de um público para ganhar a sua causa. Isto vai da persuasão à vontade de agradar: tudo depende (...) da causa, do que motiva alguém a dirigir-se a outrem. O carácter argumentativo está presente desde o início: justificamos uma tese com argumentos, mas o adversário faz o mesmo: neste caso, a retórica não se distingue em nada da argumentação. (...). Para os antigos, a retórica englobava tanto a arte de bem falar - ou eloquência - como o estudo do discurso ou as técnicas de persuasão até mesmo de manipulação. "

Michel Meyer, Questões de Retórica: Linguagem, Razão e Sedução. Lisboa. Ed.70.1997

 

Argumentação e Filosofia

Filosofia, Retórica e Democracia

 

A Polis grega

 

A Grécia antiga possuía um regime político em que o governo e a administração pública se encontravam nas mãos dos cidadãos. No entanto, o conceito de cidadão não era tão vasto como hoje em dia, sendo que apenas um décimo da população era considerado cidadão. Para se obter o estatuto de cidadão não se podia ser mulher, escravo ou meteco, e tinha que se obedecer a um conjunto de regras.

Nessa sociedade fazer parte da vida política era uma espécie de obrigação para qualquer cidadão. Todos os cidadãos reuniam-se em assembleia popular para decidirem por eles mesmos os assuntos públicos. A retórica era assim um instrumento fundamental na democracia negra, na medida em que permitia aos cidadãos apresentarem, esclarecer e resolver os problemas.

A democracia grega apresenta-se como uma base para as democracias actuais, embora com algumas diferenças significativas. Podemos assim estabelecer as igualdades e diferenças destas duas democracias.

Ao contrário do que acontece actualmente:

- A democracia grega era uma democracia directa;

- Os escravos eram a base da economia e eram deixados à margem da vida político, evitando-se assim antagonismos de classes;

- Não existia qualquer diferença entre governantes e governados;

- A vida pessoal dos cidadãos e a sua vida política estavam estritamente ligadas.

Tal como hoje em dia:

- A argumentação racional, logos, era a chave da autoridade, sendo que quem exercia o poder político necessitava sempre apresentar razões aceitáveis;

- Existia uma relação intrínseca entre cidadania e participação,

- Havia a submissão à lei e não a uma pessoa;

- Dava-se grande importância à educação cívica e solidariedade.

 

A disputa entre filósofos e retores

 

Ao longo da história, a convivência entre retores e filósofos nem sempre foi fácil, lutando ambos pela prioridade na formação dos cidadãos gregos.

A retórica foi descoberta pelos gregos como forma democrática de resolver os problemas da cidade.

 

A via da filosofia

 

Parménides e Platão tinham uma abordagem ontológica da retórica (ontos=ser). Consideravam que a única via para a verdade era o ser.

Parménides segue a via abstracta da reflexão pura. Investe e confia no poder que a razão tem de, por si só, especular e atingir a verdade das coisas.

Indiferente à política, desvalorizava as opiniões humanas e ignorava a importância de se chegar a consensos e o poder convincente da palavra.

 

A via da retórica

Górgias e Demócrito, sofistas, tinham uma abordagem antropológica da retórica (antrophos=homem). Consideravam que a única via para a verdade era a investigação pela argumentação interpessoal.

Nesta altura a retórica é vista como uma prática ajustada às necessidades do tempo.

Os sofistas apareceram no final do séc. V a.C., numa época em que a vida democrática reclamava a participação dos cidadãos que se mostrassem aptos a fazê-lo. Vinham de vários pontos da Grécia ou até do estrangeiro, apresentando tendência para relativizar os hábitos e instituições atenienses e para pôr em causa a autoridade das tradições enraizadas.

Os sofistas são pois um conjunto de livres-pensadores que se propõem a ensinar a arte da política e as qualidades que os homens devem possuir para serem bons cidadãos. Andam de cidade em cidade proporcionando aos jovens que desejam alargar os seus horizontes intelectuais uma aprendizagem eficiente, habilitando-os para o ingresso na vida política. Voltavam-se para a formação prática dos homens, tentando torná-los bons cidadãos e políticos eficientes, ensinando temas relativos à moral, política, economia, retórica e filosofia.

Os sofistas põem de lado a procura da verdade em si mesma para insistirem na arte de expor, argumentar e convencer. A verdade torna-se assim subjectiva e relativa a cada um. A insistência neste subjectivismo e relativismo fomenta a liberdade intelectual que leva as pessoas a questionar os conceitos e valores do passado e, simultaneamente, a estabelecer novos tipos de crenças e ideais. A retórica apresenta-se assim como um poderosa técnica de persuasão.

No entanto, este reduzir o carácter absoluto e universal da verdade a meras opiniões relativas, faz com que os sofistas comecem a ser expulsos do grupo dos filósofos. Apesar de tudo, hoje em dia considera-se que o mérito dos sofistas reside na sua reflexão centrada no homem, formação cultural do homem, vocação pedagógica, radicalidade argumentativa, desenvolvimentos da eloquência e questionamento da tradição.

 

A retórica, serva da filosofia

 

Com Platão a retórica sujeita-se ao papel de escrava da filosofia. Este vê na retórica uma forma de manipular as técnicas argumentativas, postas ao serviço de interesses particulares, desrespeitando a verdade.

Platão opõe-se o verdadeiro conhecimento, procurado pelo filósofo, ao pseudo-saber da retórica sofista, que através do recurso à lisonja da palavra, negligencia a verdade.

Apesar de tudo, Platão serve-se da dialéctica, atribuindo-lhe efeitos persuasivos para banir a contradição dos interlocutores, e da retórica, utilizando como método de comunicação e explicação da verdade. A retórica platónica está assim ao serviço da verdade e não das opiniões humanas, como a retórica sofista.

 

A retórica ao lado de outros saberes

 

A retórica não é tida só como a arte de bem falar, mas também como a teoria dessa mesma arte. Aristóteles classifica os saberes em t rês grupos, de acordo com a sua finalidade:

- Ciências Teoréticas, saber explicar (actual conhecimento científico): a Metafísica, Teologia, Física, Geometria e Astronomia

- Ciências Práticas, saber agir (actuais campos da acção humana): a Ética, Economia e Política

- Ciências Poiéticas, saber fazer (ligados à produção e técnica): a Poiética, Dialéctica, Retórica, Medicina, Música, Ginástica, Estatuária

O conhecimento e explicação do mundo, e a acção ou prática humana têm métodos e meios de prova específicos. Nas ciências teoréticas utiliza-se a intuição para a dedução lógica de afirmações, e nas ciências práticas usa-se a retórica. Sendo assim, o campo da acção não se pode reger por verdades científicas demonstráveis, recorrendo-se a raciocínios dialécticos e discursos retóricos para se comprovarem as opiniões.

 

Retórica e oratória

 

Após a morte de Platão e Aristóteles dá-se na Grécia uma decadência política e social que se reflecte na filosofia. Esta abandona os grandes problemas teóricos e passa a centrar-se na reflexão sobre os problemas relativos ao bem-estar e felicidade das pessoas.

Com a decadência política e social dos gregos e a sua anexação ao Império Romano, a retórica passa a ser cultivada como oratória, a arte de bem orar e discursar, sendo utilizada pela sua organização formal e recursos estilísticos que embelezam o discurso.

Esta orientação da retórica confere-lhe um sentido negativo, na medida em que o discurso retórico prima pela beleza e forma em detrimento da riqueza do conteúdo.

Na idade moderna, com o privilégio do modelo demonstrativo lógico matemático, há o desprezo pelo que é tratado a nível das opiniões humanas.

 

Retórica e Democracia na actualidade

 

Uma vez que na democracia todos os homens devem tomar parte activa na resolução dos problemas postos pela vida em comum, a argumentação é tida como o processo mais favorável à descoberta de soluções. A retórica torna-se num modelo de resolução das questões prioritárias e a argumentação apresenta os seguintes aspectos formativo. Repudia o dogmatismo, opõe-se à aceitação de verdades únicas, promove o exercício do diálogo, valoriza a racionalidade intersubjectiva e instiga ao dever da participação.

 

Persuasão e Manipulação ou os dois usos da retórica

 

A retórica pode ser utilizada devida ou indevidamente, sendo considerados o bom e o mau uso da retórica.

O bom uso da retórica consiste em permitir ao auditório decidir por ele mesmo de um modo consciente e crítico. Está relacionado com a persuasão.

O mau uso da retórica é quando o auditório não é deixado a decidir livremente, mas sim em função dos interesses do orador. Está relacionado com a manipulação.

 

Persuasão

 

Persuadir consiste em convencer alguém a aceitar ou a decidir-se por algo sem que isso implique a diminuição das suas aptidões cognitivas ou comportamentais. O objectivo da persuasão é apenas provocar a adesão, apelando a factores racionais e emocionais.

Na persuasão pressupõe-se que quem é persuadido conhece o objecto sobre o qual incide a argumentação, está a par de todas as soluções possíveis sobre as quais é chamado a optar e está consciente das consequências positivas e negativas decorrentes de cada uma das escolhas.

A aceitação de uma doutrina passa, por vezes, não só por aquilo que consideramos verdadeiro mas também pelo que é do nosso agrado. Para isso, o orador serve-se do logos, ethos e pathos. Apoia-se na força dos seus argumentos, logos, na credibilidade da sua pessoa ethos, e nos sentimentos que desperta ao auditório pathos.

O fenómeno da persuasão dá-se por 6 etapas, que no seu conjunto formam um todo indivisível:

Recepção e compreensão da mensagem:

1. Exposição à mensagem: é necessário que a pessoa tenha contacto com a mensagem, que pode ser apresentada numa conferência, revista, televisão…

2. Atenção à mensagem: a atenção é selectiva. Não basta ser exposto à mensagem para que ele capte a nossa atenção.

3. Compreensão da mensagem: cada pessoa extrai e constrói significações da mensagem que lhe são próprias.

4. Aceitação ou rejeição: a pessoa elabora um juízo em termos de acordo ou desacordo com as propostas e, eventualmente, pode mudar de atitude.

Aceitação da mensagem:

5. Persistência da mudança: Se a mensagem provocar uma nova atitude esta deve permanecer, para que se verifique se se efectuou realmente a persuasão.

6. Acção: a nova atitude concretiza-se através de novos comportamentos baseados na nova opinião.

 

Manipulação

 

Manipular é o uso indevido da argumentação com o intuito de levar os interlocutores a aderir involuntariamente às propostas do orador. Na manipulação existe uma intenção deliberada de desvalorizar os factores racionais, apelando a uma adesão emocional. O próprio discurso é baseado em falácias, onde é patente a intenção de confundir o auditório.

Do ponto de vista filosófico, manipular corresponde ao uso abusivo da retórica, onde o orador, munido de ideia que não apresenta a discussão, concentra os seus esforços no desenvolvimento de técnicas adequadas à sua imposição. Faz dos seus pontos de vista autênticos dogmas.

A relação entre o orador e o auditório não é de igualdade mas sim de domínio.

Para melhor perceber a manipulação há que definir correctamente os conceitos de erro, mentira e engano:

- Erro: o erro é factual. Errar é dizer uma falsidade sem se ter consciência disso, é estar-se convencido de que a nossa afirmação é verdadeira. Deve-se ao desconhecimento ou incapacidade, mas não nunca a má-fé. Não constitui assim manipulação.

- Mentira: a mentira é psicológica. Mentir consiste em dizer uma falsidade com intenção de tal. Implica má-fé e é uma tentativa de manipulação.

- Engano: o engano é psicológico e factual. Enganar pressupõe mentir e que essa mentira seja aceite pelo auditório, ou seja, ele adere à falsidade apresentada. O engano já pressupõe manipulação.

 

Sedução e o discurso publicitário

 

A sedução, fenómeno psicológico inerente à adesão dos discursos publicitário e político, não apela à razão mas sim ao sentimento. A sedução é operada pelo valor simbólico dos objectos e, devido a essa acção simbólica, o sujeito investe emocionalmente neles acabando por agir por desejo. A decisão de uma pessoa seduzida não é fruto de uma deliberação mas sim de uma decisão irracional. Podemos assim concluir que a sedução consiste no desvio da decisão da esfera crítica da razão para as áreas acríticas da afectividade.

Na publicidade, raramente se insiste nas qualidades reais de um produto, sendo mais comum sobrecarregá-lo de virtudes imaginárias que seduzem as pessoas e as induzem a consumir. Sendo assim, a publicidade tem uma influência persuasiva que procura provocar uma reacção afectiva no auditório, preferencialmente positiva. Essa reacção afectiva é manifestada através do prazer, identificação, aceitação e agrado, ou desprazer, irritação, recusa e desagrado.

A aceitação de uma mensagem e a posterior aquisição de um produto varia de indivíduo para indivíduo e é motivada por diversos factores, que podemos considerar como parte de um filtro condicionador:

- Idade

- Nível intelectual

- Recordações

- Desejos

- Relação pessoal com a marca

- Estatuto social

- Modelos de conduta

- Ambiente familiar

- Grupo profissional

- Grupo de amigos

 

Princípios éticos da retórica

 

A participação correcta na actividade argumentativa pressupõe que se age de boa fé. Para isso deve respeitar-se certos princípios que foram sendo enunciados por diversos filósofos ao longo da história:

- Princípio da cooperação: todos os participantes devem comprometer-se a respeitar os objectivos ou finalidades comuns do diálogo, evitando intervenções que se afastem dessa direcção.

- Princípio da quantidade: todos devem contribuir com informações necessárias ao andamento do diálogo, não omitindo possíveis informações úteis mas evitando a apresentação de informações excessivas.

- Princípio da qualidade: as informações apresentadas devem ser fundamentadas e os participantes devem ser sinceros quanto aos argumentos que apresentam.

- Princípio da precisão: nenhum interveniente pode distorcer as afirmações feitas pelos outros, deformando-lhes o sentido.

- Princípio da coerência: os participantes devem manter-se fiéis aos pontos de vista que apresentam, rejeitando qualquer tipo de informações contraditórias.

- Princípio do modo: os intervenientes devem expor claramente os seus pontos de vista, evitando discursos ambíguos, longos e desordenados que confundam o que se pretende dizer.

- Princípio da livre expressão: os participantes não podem impedir a opinião ou o questionamento de pontos de vista expressos por qualquer outro interveniente da discussão.

- Princípio da prova: todos os intervenientes são obrigados a fundamentar as afirmações que fazem se isso assim lhes for exigido.

 

Argumentação, verdade e ser

 

Podemos considerar que o ser é tudo aquilo que é real, tudo o que possui realidade, tudo o que existe. A realidade de um objecto em que tocamos é diferente da realidade de uma sensação ou de uma memória. Assim, para estabelecer o que é real, distinguimos o mundo que nos é exterior do nosso mundo interior. A realidade conjuga o mundo físico e o mundo psicológico:

- Mundo físico é constituído por tudo aquilo que nos é exterior. Pode ser um indivíduo, uma situação, um objecto, um facto etc.

- Mundo psicológico está relacionado com o nosso interior, com a nossa consciência. Pode ser uma percepção, uma imagem, uma intenção, um sonho, etc.

Realidade é assim o que as coisas são e o que elas nos querem dizer.

 

Linguagem e realidade

 

A linguagem está estritamente relacionada com a realidade. À medida que vamos definindo as coisas, que as vamos classificando, a realidade torna-se-nos acessível. O caos (mundo exterior indistinto) transforma-se gradualmente numa realidade organizada através do discurso, o cosmos. Podemos assim concluir que a linguagem natural das palavras permite não só expressar a realidade como também criá-la. Ao longo dos tempos, diversos filósofos foram manifestando as suas teses sobre a relação entre a linguagem e a realidade.

Aqui vamos distinguir o Isomorfismo e Positivismo, defendidos pelos filósofos do Círculo de Viena, e o Pragmatismo:

- Isomorfismo: Dois sistemas são isomórficos quando têm a mesma estrutura. Os defensores desta teoria, entre os quais se encontra Russell, reconhecem uma correspondência entre o mundo real e o da linguagem, na medida em que o conhecimento da realidade se faz através das palavras.

Defendem que é possível conhecer por contacto e por descrição, onde a descoberta da estrutura da linguagem equivale à descoberta da estrutura da realidade. Defendem também o atomismo lógico, segundo o qual uma proposição é a unidade lógica do conhecimento.

- Positivismo: O significado de uma proposição é o seu método de verificação. Os positivistas, nomeadamente Carnap, distinguem enunciados com sentido (proposições científicas possíveis de t ratar através da lógica formal) de enunciados sem sentido (proposições metafísicas), não englobando assim na realidade a interacção linguística entre as pessoas. O critério que distingue as proposições é a possibilidade da sua comprovação e Carnap defendia a unidade das ciências debaixo do vocabulário da física.

- Pragmatismo: Perelman considerava que o auditório é que dava sentido ao discurso e Wittgenstein defendia que a interpretação das expressões linguísticas reside na sua utilização contextualizada. A análise apenas dos enunciados científicos conduz a erros e falsos problemas, pelo que a filosofia deve combater o seu carácter generalizador e incidir mais na linguagem, avaliando também as sensações, intenções e tendo em conta a vida social.

 

publicado por Luís M. M. Duarte às 12:18
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