Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Fé e razão: o problema da existência de Deus (III)

4.1 O argumento do mal

 

          Existem versões conhecidas do argumento do mal anteriores ao desenvolvimento das tradições teístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Uma dessas formulações deve-se a Epicuro, um filósofo grego cujo pensamento foi bastante influente. Na versão de Epicuro, o argumento mostra que a hipótese de um Deus bom conduz validamente a consequências absurdas; daí não poder ser verdadeira.

          O argumento é o seguinte:

 

 

(1)  Deus deseja abolir o mal e não pode fazê-lo, ou Deus pode abolir o mal mas não quer fazê-lo.

(2)  Se deseja abolir o mal mas não pode fazê-lo, então não tem esse poder.

(3)  Se pode abolir o mal mas não quer fazê-lo, então não é bom.

 

      \ Deus não é bom ou não tem todos os poderes.

 

 

          Epicuro pretende mostrar que a ideia de um Deus omnipotente e bom é incompatível com a existência do mal. Fica, portanto, a pergunta: se Deus deseja acabar com o mal e pode fazê-lo, por que razão não o faz?  

          As respostas tradicionais a esta pergunta – i. e., ao problema do mal – designam-se por teodiceias. Uma das mais famosas teodiceias da tradição filosófica ocidental deve-se a Leibniz. Segundo Leibniz, vivemos no melhor dos mundos possíveis; Deus não deseja o mal e poderia ter criado um mundo diferente. Mas qualquer alternativa que Deus pudesse ter considerado teria ainda piores resultados do que o mundo tal como é. Esta resposta tende a parecer hoje tão pouco convincente (depois do extermínio dos judeus pelos nazis, as guerras e os cataclismos que atravessaram todo o século XX, etc.) como pareceu aos seus contemporâneos. Voltaire, em especial, satirizou Leibniz impiedosamente numa obra de ficção – Candide – onde o terramoto de Lisboa de 1775 é utilizado para cobrir de ridículo a tese de Leibniz.

          O problema do mal foi desde muito cedo reconhecido pelas grandes tradições teístas e podemos encontrá-lo formulado já no Antigo Testamento. É natural que tal aconteça em virtude do desafio inescapável que coloca; os filósofos cristãos, naturalmente, não podiam evitá-lo.

          Numa versão simples, o argumento pode ser proposto com o objectivo de provar que Deus não existe:

 

 

(1)  Se Deus existe, o mal não existe.

(2)  O mal existe.

 

        \ Deus não existe.

 

 

          Tal como na versão anterior, este argumento é válido. Se ambas as premissas forem verdadeiras, a conclusão é verdadeira. Donde, se a conclusão for falsa, pelo menos uma das premissas tem de ser falsa. Mas qual? A segunda premissa parece inatacável: nem todo o optimismo de Leibniz seria suficiente para negar a existência de sofrimento gratuito (fome, doenças, guerra, cataclismos). Se há um problema com este argumento, ele tem de estar na primeira premissa.

          Esta premissa afirma que a existência de Deus é suficiente para que não exista mal no mundo. Será assim?

          Tudo indica que não. Sem determinarmos que características Deus possui, admitir a sua existência não garante que o mal não possa existir. É perfeitamente concebível um Deus criador sem preocupações morais. Não necessariamente um Deus mau, como no argumento de Epicuro, mas um Deus indiferente. Esta ambiguidade constitui a fraqueza do argumento.

          Interpretada no sentido indicado, a primeira premissa é falsa. Mas, se interpretarmos o argumento à maneira teísta, o que no máximo provaria é que ou Deus não é bom ou não é omnipotente ou não é omnisciente, mas de modo algum que Deus não existe. O argumento seria o seguinte:

 

 

(1)  Se Deus é bom, omnisciente e omnipotente, o mal não existe.

(2)  O mal existe.

 

        \ Deus não é bom ou não é omnisciente ou não é omnipotente.

 

 

            Mas, apesar de ter agora um alcance menor, esta versão do argumento do mal é já preocupante. Se a primeira premissa for verdadeira, pelas razões acima, a conclusão tem de ser verdadeira.

           Mas, nesse caso, a concepção teísta de Deus é falsa.

         

4.1 Uma resposta ao argumento do mal

 

          Uma maneira de escapar à conclusão do argumento é defender que um Deus teísta não é suficiente para excluir a existência do mal. A ideia é que um Deus sumamente bom, omnipotente e omnisciente pode permitir em certas circunstâncias a existência do mal, por exemplo, se isso for necessário para alcançar um bem maior. Seria o caso do livre arbítrio: para os teístas, a humanidade foi criada à imagem e semelhança de Deus com o propósito de ganhar a vida eterna. Mas este propósito supõe a existência de livre arbítrio tanto quanto a graça de Deus.

          Deus não deseja o mal tal como podia ter criado um mundo onde o mal não existisse; mas, num mundo onde a possibilidade de praticar o mal estivesse excluída, não haveria lugar para a liberdade humana. Como a responsabilidade moral aos agentes e, portanto, o valor moral das acções, depende de terem sido livremente praticadas, sem liberdade não há responsabilidade.

          Embora Deus, sendo omnisciente, saiba que dar liberdade aos seres humanos conduz à existência de mal no mundo, tal pode ser permitido por as acções terem valor moral ser um bem superior. Um mundo sem livre arbítrio seria um mundo sem valor moral, próprio de autómatos.

 

4.2 Duas dificuldades

         

          Uma dificuldade que esta defesa do teísmo por via do livre arbítrio enfrenta é o facto de ser limitada.

          Mesmo que o mal moral seja compatível com um Deus bom e omnipotente, esta não é a única forma de mal que há no mundo. Ainda que os homens escolhessem fazer sempre o bem, o mal natural não desapareceria. A quantidade de dor desnecessária diminuiria mas não seria eliminada. As doenças, a fome provocada por condições climáticas adversas (secas, etc.), e os cataclismos (furacões, terramotos, cheias, etc.) seriam suficientes para a vida humana se revelar particularmente difícil. Ora, todos estes acontecimentos escapam ao livre arbítrio.

          Assim, Deus poderia ter permitido o mal moral e, ao mesmo tempo que garantia à vida humana valor moral, poderia ter criado um mundo onde não existissem doenças, fome, etc. Numa palavra, onde o mal natural estivesse ausente. Não é sequer claro que este género de mal implique um bem superior. Que bem trará a fome, a peste, o cancro ou um terramoto?  

          Por outro lado, o teísmo afirma que Deus intervém no curso do mundo. Ora, se Deus tem o poder de mudar o curso do mundo (os milagres seriam um exemplo), a existência de livre arbítrio, por si só, não implica haver mal moral. De cada vez que uma pessoa fizesse uma escolha errada (por exemplo, Hitler e o extermínio dos judeus), Deus podia impedir que fosse posta em prática. Deus não poderia evitar uma má escolha mas podia impedir as suas consequências.  

         

Questões

 

 

1. Releia com atenção o argumento proposto por Epicuro e explique pelas suas palavras o problema do mal.

 

2. Será que o argumento do mal provaria, caso as suas premissas fossem verdadeiras, a não existência de Deus? Porquê?

 

3. Que papel pode desempenhar o livre arbítrio na tentativa para conciliar a existência do mal com a concepção teísta de Deus?

 

4. Explique as objecções que se podem colocar à tentativa para responder ao problema do mal através do livre arbítrio humano.

 

 

3/3

 

 

publicado por Luís M. M. Duarte às 14:10
link do post | comentar | favorito
|
8 comentários:
De defenderportugal a 29 de Novembro de 2008 às 18:08
Nunca pensei que Filosofia fosse tão interessante. Tinha ideia que era uma disciplina chata. No meu curso comercial nunca tive esta disciplina. Muito interessante no modo como é exposto um assunto controverso e impossível de saber quem tem razão. Embora me incline mais para a não existência, porque nunca vi, nem conheço ninguém que tivesse visto Deus. Parabéns pelo bolg.
De Luís M. M. Duarte a 2 de Dezembro de 2008 às 18:10
Quanto às provas da (in) existência de Deus, como aliás face a todas realidades metafísicas, tanto se pode apresentar argumentos a favor como contra, porquanto a realidade que as envolve não é mensurável, faltando-lhes, numa linguagem kantiana, o elemento material/empírico, a posteriori, ficando, assim, reduzido ao elemento formal/racional. A este propósito, Kant distingue a Metafísica quer da Física, quer da Matemática, dado que estas últimas formulam juízos sintéticos a priori; enquanto aquela apenas formula juízos analíticos a priori. Por esse motivo, conclui, a Metafísica incorre no risco de cair frequentemente em paralogismos e antinomias da razão pura.
Da nossa parte, risco ou não, o certo é que a grande virtude da Metafísica em geral e das temáticas relacionadas com o plano meramente lógico-argumentativo e racional, em particular, reside precisamente nesse aspecto: transcender a facticidade e tirania do espaço e do tempo e, com ela, dos constrangimentos fenoménicos epocais e circunstanciais, ao mesmo tempo que instiga e promove a criatividade e a imaginação entificativas, desenvolvendo o pensamento e a urdidura argumentativa e racional.
Seja, por isso, bem-vindo, ajudando-nos a alimentar este espaço e bem-haja pelas palavras de incentivo.


De j.c. a 12 de Dezembro de 2008 às 03:55
Realmente no meu tempo a Filosofia não era assim.
Tenho a certeza que discutir assuntos desta forma com os alunos os motiva grandemente para a aprendizagem.

Os meus parabéns por esta iniciativa.
De Luís M. M. Duarte a 6 de Janeiro de 2009 às 17:16
Seja bem-vindo. Todas as intervenções são importantes para a manutenção deste espaço. Bem haja pelas palavras de incentivo.
De Sónia a 28 de Agosto de 2009 às 18:19
Boa Tarde,
Ao longo destes tempos a filosofia têm-se mostrado crucial na educação dos jovens portugueses, incutindo valores éticos e/ou morais para que assim, no futuro e no seu crescimento cultural, possam tornar-se pessoas mais responsáveis.
Por tal felicito ao Senhor Doutor Luís Duarte pelos excelentes artigos que dispõe no seu blog. Actualmente a minha profissão é ligada ao ensino secundário, mais concretamente à disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação. No entanto a área das ciências sociais e humanas sempre me demonstrou interesse e por tal, pessoalmente, considero importante, para uma melhor compreensão da filosofia, que também seja exposto neste seu blog um pouco de história.
Por exemplo considero importante a história dos anos 60, época de continuação da realização de projectos culturais e ideológicos alternativos lançados na década de 50, como por exemplo o surgimento do feminismo . Sinto-me lisonjeada por ter nascido nesta época brilhante.
Continuação de um bom trabalho,
com amizade,
Sónia Corvelo.

De Luís M. M. Duarte a 11 de Setembro de 2009 às 12:17
Cara colega,

Agradeço as suas amáveis palavras, as quais reforçam a nossa intenção de manter "viva" a Filosofia e, com ela, o pensamento.
Solicito que continue a participar neste fórum que é de todos nós.
Bem-haja.
De Laura Borges a 2 de Fevereiro de 2009 às 19:05
Daqui é a Laura (aluna do prof.Sá Couto), dei uma espreitadela ao blog e achei-o muito interessante! Gostei particularmente deste artigo porque Deus foi algo que sempre esteve dentro da minha cabeça... Por um lado não gosto de acreditar naquilo que não tenho a certeza, por outro não sei como explicar a existência do "Princípio de tudo"... Lembro-me que em pequenina pedia à minha mãe se me podia baptizar pela Igreja Católica porque aquele "Deus" de que toda as pessoas falavam parecia-me incrível, e tudo o que era incrível para mim era fascinante. Mas a minha mãe disse para esperar mais algum tempo até ter alguma noção do que realmente é ter fé, e acho que fez bem, porque hoje em dia se tivesse alguma religião não era o cristianismo mas sim o budismo, a religião que mais me atrai. Tal como os budistas acreditam na reencarnação, às vezes gosto de pensar que quando morrer vou reencarnar em algo mais belo ou mais imperfeito dependendo das minhas acções; primeiro porque torna a morte mais bela (visto que no fundo não se "morre") e depois porque me faz ser uma pessoa melhor ao longo da minha vida.
Mas a verdade é que muitas vezes o Homem vê em Deus "uma forma de fugir à realidade". O que quero dizer com isto é que o Homem ao procurar explicações para os fenónemos que observa e não as encontrar acaba por concluir que foram obras de Deus. Para além disso houve imensas guerras devido à religião e imensa gente morreu por coisas que nem sequer sabiam se existiam... No entanto, respeito todas as religiões!
Mas pronto, também nunca passei por uma situação limite, daí nunca ter aquela necessidade de acreditar em algo, quando já não poderia fazer nada.
Acerca de Deus gosto das teorias de Epicuro e de Descartes, ambas são bastante racionais.
É chato às vezes pensar que vou morrer sem nunca saber se Deus existe ou não... Mas como já sabemos, a procura da verdade é muito subjectiva e demora um bom bocado!
De anonimo a 11 de Dezembro de 2010 às 20:58
em toda a minha vontade por minha anulação existencial, em um argumento(duvida) se diz se Deus existe o mal nao existe ou O mal exise mais Deus não existe, bom acredito eu que se ELE quisesse mesmo acabar com o mal de uma vez o faria, POREM em que nós seres humanos aprenderiamos com isso, imaginem o mundo perfeito, sem maldade sem crimes guerras estrupos, enfim, na realidade por mais cruel que seja, as pessoas no final das contas acabam aprendendo com seus erros ou não, o que mais me intriga na Biblia é a passagem em que Deus da o livre arbitrio para fazermos o que quisermos, ora éssa se ele nos controlasse, que aprendizado teriamos, seriamos como fantoches, acredito que ele se alegre com nóssas descobertas por aprendermos cada vez mais e mais. Voltando com a frase O mal existe mais Deus não existe, se sómente o mal existisse acho que o mundo estaria bem pior do que está agóra, as pessoas seriam bem mais frias e simplesmente as emoções mais afetuosas não existiriam, acho que a um certo equilibrio, apesar de que nos ultimos anos as pessoas tem se tornado, cada vez mais independentes umas das outras, e cada vez mais frias umas com as outras, não sei éssa é minha opinião, não sou nenhum entendido em nada, acho besteira algumas pessoas acharem que são mais sabias do que as outras e simplesmente não ouvirem opiniões diferentes pelo simples fato de que são muito espertas para ouvir um lado diferente, sinto como se minha existencia não tenha sentido algum, apesar disso, acredito em Deus, mais isso não é algo que tenham implantado em minha mente ao decorrer da minha vida, e sim algo em que acredito.

Comentar post

Luís M. M. Duarte (Coordenação)

pesquisar

 

Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

posts recentes

Os "Sexalescentes" do Séc...

O fenómeno atual multimod...

A REDEFINIÇÃO (DA NOÇÃO) ...

V Comemoração do Dia Mund...

V Comemoração do Dia Mund...

O que é a Filosofia? - Um...

IV Comemoração do Dia Mun...

Comemoração do 25 de Abri...

Os Valores

II, A Racionalidade práti...

arquivos

Abril 2017

Maio 2015

Abril 2012

Novembro 2011

Novembro 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

links

blogs SAPO

subscrever feeds