Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Fé e razão: o problema da existência de Deus (II)

3. O argumento do desígnio

 

          O argumento do desígnio foi considerado na Suma Teológica por Tomás de Aquino e ganhou grande popularidade numa versão proposta por William Paley nos finais do século XVIII.

          Ao contrário do argumento da primeira causa, o argumento do desígnio (desígnio significa propósito) é um argumento por analogia, i. e., baseado numa comparação entre a as máquinas criadas pelos seres humanos e a boa adaptação dos organismos vivos ao meio em que vivem.

          A sua ideia básica é muito simples: tal como as peças de um relógio trabalham em conjunto ordenadamente porque foram fabricadas e ligadas entre si por um projectista inteligente (o relojoeiro) com o objectivo do relógio contar o tempo, também a adaptação das asas ao voo, das guelras à respiração subaquática, da forte dentição dos leões ao seu tipo de alimentação, etc., parecem indicar que estas estruturas foram concebidas com um propósito ou desígnio que só pode ser explicado admitindo a existência de um projectista universal: Deus.

          Tal como a inteligência humana explica o planeamento e construção de uma máquina tão complexa como um relógio, só a inteligência de Deus explicaria algo como a perfeita adaptação dos organismos vivos ao meio, de tal modo que cada uma das suas partes (asas, guelras, dentes, olhos, etc.) parece ter sido concebida com a intenção de desempenhar uma função pré-definida.

          Em síntese, o argumento de William Paley seria o seguinte:

 

 

(1)  Os seres vivos estão tão bem adaptados para sobreviverem no meio em que vivem como as peças de um relógio estão adaptadas para em conjunto permitirem que o relógio dê horas.

(2)  Os relógios são fruto do planeamento de um criador inteligente (o relojoeiro).

 

        \ Os seres vivos são fruto do plano inteligente de um criador universal (Deus).

 

 

          Os argumentos deste tipo baseiam-se numa comparação. Mas, para que a comparação tenha eficácia, é necessário que a semelhança seja significativa. Se as semelhanças entre o que estamos a comparar forem relevantes, a probabilidade de a conclusão ser verdadeira é elevada.

          Pelo contrário, se as semelhanças forem pequenas, a força do argumento diminui consideravelmente (portanto, a probabilidade de a conclusão ser verdadeira cai de forma proporcional).

         

3.1 Dificuldades, limites e objecções

 

          Um primeiro aspecto a assinalar a respeito deste argumento é a amplitude da sua conclusão.

         Trata-se de afirmar a existência de um Deus inteligente e único. No entanto, tal como um relógio ou outro produto humano (uma ponte, uma estrada, um edifício, etc.) pode ser concebido por diferentes projectistas, por que não poderiam os organismos (e o universo no seu conjunto) ser concebidos por uma sociedade de projectistas divinos a trabalharem em conjunto? Tal como o argumento da primeira causa, o argumento do desígnio não é suficiente para justificar o monoteísmo (mesmo que conseguisse justificar um projecto universal). Por maioria de razão, não consegue justificar a crença num Deus omnisciente, omnipotente e bom. 

          O principal problema com o argumento do desígnio provém, no entanto, da ideia de que a adaptação dos seres vivos ao meio em que vivem não pode ser explicada por causas naturais. Se pudesse ser explicada por causas naturais, não faria sentido concluir, com base na adaptação apenas, que ela é um sinal de um plano inteligente de Deus e, portanto, que Deus existe.

          Ora, não é isto que acontece actualmente. Algum tempo depois do livro de Paley ser publicado, Charles Darwin, o fundador da biologia moderna e da teoria da evolução das espécies, mostrou como é possível explicar a adaptação dos seres vivos ao meio sem pressupor um desígnio inteligente e, ainda menos, a existência de uma causa não natural para tais factos.

          Até à teoria de Darwin era geralmente aceite que as espécies tinham surgido de uma vez só vez, por um acto divino de criação e, portanto, que não evoluíam. Em 1831, contudo, Darwin foi convidado para fazer uma longa viagem de cinco anos às costas da América do Sul. Ao visitar as ilhas Galápagos, Darwin apercebeu-se que as características de algumas espécies de aves – em especial, os tentilhões – variavam consideravelmente de ilha para ilha consoante o tipo de alimento que podiam encontrar em cada uma, em particular a forma do bico.     

          Estas observações conduziram Darwin a colocar a hipótese de as espécies serem o produto de uma longa evolução durante a qual os animais que possuíssem características melhor adaptadas a um determinado meio deixavam mais descendência. Por exemplo, os tentilhões que tivessem um bico melhor adaptado para se alimentarem de sementes numa ilha onde o alimento disponível fosse apenas este, teriam uma vantagem considerável em relação a outros membros da espécie que, vivendo no mesmo meio, não tivessem essa característica. Mesmo que os primeiros fossem a princípio minoritários, devido à sua melhor adaptação ter-se-iam reproduzido em muito maior quantidade que os segundos e, portanto, transmitido o seu tipo específico de bico às gerações seguintes, de tal modo que ao fim de alguns séculos, esta característica passaria a estar presente na totalidade dos tentilhões da ilha.

          A teoria de Darwin não apenas procurou mostrar que a complexidade das estruturas biológicas pode ser explicada sem o recurso a qualquer tipo de desígnio inteligente, como, revelou as fraquezas da comparação de William Paley. No entanto, o sucesso da teoria de Darwin não prova que não existe desígnio inteligente no universo ou um projectista com poderes criadores. É possível defender que Darwin se limitou a descobrir o mecanismo que Deus usou para criar as diferentes espécies. Acontece, no entanto, que esta resposta é problemática.

          O teísmo está comprometido não apenas com a existência de um projectista universal mas, sobretudo, com a ideia de que Deus é sumamente bom. O mecanismo da evolução envolve uma imensa quantidade de sofrimento para todos os indivíduos que têm de lutar pela sobrevivência num ambiente hostil, cheio de ameaças e predadores. Por que haveria um Deus bom e omnipotente criar um mundo onde cada indivíduo, para sobreviver, tem de causar morte e sofrimento a uma vasta quantidade de outros indivíduos – os animais carnívoros, por exemplo? Não seria preferível criar um mundo onde a ameaça da morte e da destruição não estivesse sempre presente? Muitos filósofos pensam que o mecanismo da evolução, pelo qual os seres mais fracos são sacrificados é dificilmente compatível com um Deus bom.

          Este problema, no entanto, é já uma antecipação do nosso último argumento que iremos examinar.

 

Questões

 

 

1. Explica pelas tuas próprias palavras o argumento do desígnio.

 

2. Qual o principal pressuposto subjacente ao argumento?

 

3. Que papel desempenha a teoria da evolução das espécies na avaliação do argumento?

 

4. Será que a teoria da Darwin destrói por completo a tese de um projectista inteligente subjacente ao universo? Porquê?

 

 

Continua. 2/3

 

publicado por Luís M. M. Duarte às 14:20
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