Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Fé e razão: o problema da existêcia de Deus (I)

Paulo Andrade Ruas

 

1. Introdução

 

          O problema da existência de Deus tem uma longa história em Filosofia. As tentativas para justificar racionalmente a crença em Deus têm interessado os filósofos tanto quanto os espíritos religiosos. Algumas pessoas pensam que este assunto apenas diz respeito à fé, e que aqueles que têm fé não precisam de razões para acreditar em Deus. Todavia, não tem de ser assim.

          A tentativa para justificar a crença em Deus com base em razões (e não com base na autoridade das várias igrejas ou dos textos sagrados) tem sido levada a sério por muitos filósofos teístas. Para começarmos a compreender porquê, convém considerar o seguinte diálogo:

 

 

Luísa: Acredito em Deus porque a sua existência me permite dar sentido à vida e também porque é isso que está escrito na Bíblia.

João: Mas como sabes que podes confiar no que a Bíblia diz?

Luísa: A Bíblia contém a palavra de Deus. E Deus não mente. Logo, o que lá está escrito é verdadeiro.

João: Não digo que não tenhas razão. Mas parece-me que estás a andar em círculo.

Luísa: O que queres dizer?

João: Primeiro, justificas a tua crença em Deus com o facto de a Bíblia afirmar que Deus existe. Depois, justificas a tua crença nas palavras da Bíblia afirmando que a Bíblia contém a palavra de Deus.

Luísa: Não percebi.

João: Dizes que Deus existe porque é isso que está escrito na Bíblia e dizes que o que está escrito na Bíblia é verdadeiro porque Deus existe. Parece que andas às voltas sem sair do mesmo sítio.

 

 

          Muitos filósofos concordariam com o João. Dizer que Deus existe porque a Bíblia contém a palavra de Deus pressupõe que Deus exista, o que pode ser verdade, mas não diz por que razão pensar assim e não o inverso. Afinal, se Deus não existir, a Bíblia não serve de testemunho.

 

2. O argumento da primeira causa

 

          O teísmo adoptou como a sua principal verdade de fé a existência de um Deus bom, omnipotente e omnisciente.

          Mas será possível justificar apenas com base em razões esta crença? Na obra Suma Teológica, Tomás de Aquino propôs cinco argumentos a favor da existência de Deus. Deste conjunto de argumentos, iremos examinar apenas um deles: o argumento da primeira causa.

          Este argumento parte de um conjunto de observações que todos podemos fazer sobre o mundo. Em seguida, com base nos resultados dessas observações, procura concluir que Deus existe.

        A ideia é a seguinte. Os acontecimentos que têm lugar à nossa volta possuem, todos eles, causas: um fósforo acende por causa (entre outros factores) da presença de oxigénio na atmosfera; os planetas movimentam-se em torno do Sol por causa da gravidade; a erva cresce por causa da chuva; o António obtém uma boa nota a Matemática por causa de ter estudado; uma barra de metal dilata por causa de ter sido aquecida. A lista de exemplos parece não ter fim.

          Observações como estas indicam que tudo o que acontece é o resultado de uma causa anterior – ou seja, é um efeito ou consequência de um acontecimento passado. As causas e os efeitos formam longas sequências de acontecimentos que se prolongam até ao passado mais distante.

           Se tivéssemos à nossa disposição uma máquina do tempo que nos permitisse viajar até ao passado, poderíamos observar esta sequência de causas e efeitos começando pela nossa existência actual até à dos nossos avós e, destes, até aos primeiros seres humanos, mais ou menos há 120 mil anos atrás. Se quiséssemos prosseguir viagem recuando ainda mais no tempo, poderíamos depois observar o aparecimento da espécie humana ou, mais ou menos três mil milhões de anos antes, a origem da vida na Terra e, antes, a formação do planeta. Na verdade, indo suficientemente longe, poderíamos viajar até à origem do nosso universo (se é que o universo teve origem no tempo, em vez de existir desde sempre nesta ou noutra forma).

          Esta sequência origina uma interrogação: poderão as causas e os efeitos estender-se numa sequência infinita até ao passado ou há uma primeira causa? Dito de outra maneira: teria esta viagem no tempo um fim ou continuaríamos a recuar no tempo para sempre, sem parar? A resposta de Tomás de Aquino é que o universo não pode existir desde sempre e, portanto, que a nossa viagem imaginária através do passado não pode prolongar-se até ao infinito. 

          Em síntese, o argumento de Tomás de Aquino é o seguinte.

 

 

(1)  Tudo o que existe tem uma causa.

(2)  A série de causas e efeitos não se prolonga até ao infinito na direcção do passado.

 

 \ Há uma primeira causa de tudo o que existe e essa causa é Deus.

 

 

          Numa versão menos sintética, o raciocínio de Tomás de Aquino pode ser apresentado da seguinte forma:

 

 

(1)  Tudo o que existe tem uma causa.

(2)  O universo existe.

(3)  Logo, o universo teve uma causa.

(4)  A sequência de causas e efeitos não é infinita.

(5)  Se a série de causas não for infinita, houve um primeiro acontecimento que deu origem a tudo o que existe.

 

       \  Houve uma primeira causa do universo (essa causa é Deus).

 

 

          À primeira vista, pelo menos, este raciocínio parece bastante atraente (até pela sua simplicidade).

                    

2.1 Dificuldades, limites e objecções

 

          A primeira dificuldade diz respeito á conclusão. Uma observação mais atenta permite verificar que mesmo no caso de ser verdadeira, o argumento não prova a existência de um Deus teísta.

          Admitir que tudo o existe tem uma causa não prova que essa causa seja omnisciente, omnipotente e sumamente boa. Tanto quanto sabemos, Deus poderia ser a primeira causa do universo e não ser omnipotente, omnisciente e bom. Podia, por exemplo, ser um Deus limitado e mau.

         Depois, é importante notar que uma causa é um acontecimento. Um acontecimento que, na interpretação teísta, resulta da acção de um Deus único. Mas nada na natureza de um acontecimento deste género implica a existência de um agente único. Podemos admitir, por exemplo, que a primeira causa foi o produto da acção conjugada de vários deuses trabalhando coordenadamente, exactamente como um gabinete de arquitectos planeia um edifício. O argumento não oferece razões para acreditarmos num Deus teísta nem justifica o monoteísmo. 

          Uma segunda dificuldade é a seguinte. Se a primeira premissa for verdadeira, Deus também teve uma causa. Portanto, Deus não pode ser a primeira causa de tudo o que existe. Se ele próprio tem uma causa, há algo que precede a sua existência. Mas se há algo que precede a existência de Deus, esse algo vem antes de Deus na série causal que originou o universo. Logo, ao invés do que o argumento procura provar, Deus não seria a primeira causa.

          Uma maneira de escapar a esta dificuldade seria pensar que Deus, sendo a causa de tudo, é ainda a causa de si mesmo. Mas para ser causa de si mesmo, Deus teria que se gerar a si próprio. Ora, para se gerar, teria já de existir. Mas se teria já de existir, não precisaria de se gerar.

          Outra dificuldade é a seguinte: do facto de todos os acontecimentos terem uma causa e de as causas precederem os efeitos, não se segue que exista uma primeira causa de tudo. A série de causas e de efeitos podia estender-se ao longo de um tempo sem fim, quer na direcção do futuro quer na direcção do passado. A possibilidade de tudo o que existe ter uma causa é compatível com o universo não ter princípio nem fim, um mundo que exista desde sempre. Os números inteiros, por exemplo, são infinitos em qualquer das direcções da linha numérica:

 

       ...         -3              -2              -1                0                1                2                3             ...

 

          Foi para evitar esta situação pouco agradável que Tomás de Aquino sustentou que na natureza as causas e os efeitos não se prolongam até ao infinito. Simplesmente, esta ideia não é óbvia.

          Porquê concluir que o universo teve obrigatoriamente um início no tempo em vez de existir desde sempre? A teoria do Big Bang não obriga a pensar que esse acontecimento foi o primeiro de todos. Nada nos impede de pensar que o nosso universo é apenas um numa sequência infinita de universos que nascem e morrem num ciclo sem fim nem princípio que existiu sempre.

          A resposta de Tomás de Aquino a este novo problema consiste no seguinte: (1) uma série causal que se estende infinitamente do presente até ao passado não possui um primeiro termo; (2) se uma cadeia causal não possui um primeiro elemento, nenhum acontecimento subsequente pode ter lugar. Donde, se estás hoje sentado a estudar filosofia, é porque houve um acontecimento que, no passado, foi a primeira causa do universo.

          Mas tudo indica que (2) é falso. Pode acontecer que estejas agora sentado a estudar filosofia e o universo existir desde sempre. Mas, se isto pode acontecer, não é verdade que exista obrigatoriamente uma primeira causa. O argumento de Tomás de Aquino parece inconclusivo.

 

Questões

 

 

1. Explique, pelas tuas próprias palavras, em que consiste o argumento da primeira causa.

 

2. Será que este argumento justifica a crença no monoteísmo? Porquê?

 

4. Será este argumento compatível com a existência de um Deus não teísta? Porquê?

 

5. Identifique as premissas sujeitas a objecções e explica as críticas que lhes podem ser feitas.

 

Continua. 1/3

publicado por Luís M. M. Duarte às 14:21
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