Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

O que são acções?

 

1. Supõe que te levantas de noite e vais à cozinha beber água. Ao regressar ao quarto, escorregas e cais. Dos dois acontecimentos que acabamos de descrever, apenas um é uma acção: ir à cozinha beber água é algo que tu fazes e não algo que te acontece. Esta distinção – entre o que um agente faz e aquilo que lhe acontece – traça a fronteira entre uma acção e um mero acontecimento.
   As acções são um género especial de acontecimentos: os acontecimentos que são provocados pelo agente e que envolvem algum tipo de movimento corporal. A diferença entre aquilo que o agente faz (ir à cozinha beber água) e aquilo que o atinge involuntariamente (a queda) está em o primeiro ser intencional, enquanto o segundo é involuntário – o agente não caiu por querer. 
  As acções são acontecimentos intencionais. Mas podemos ainda perguntar o que são intenções.
  Muitos filósofos pensam que as intenções têm de estar relacionadas com a motivação do agente para agir. Se pensarmos no acto de beber água, compreendemos que tem como motivação a sede e o desejo de lhe por fim. Daí que as intenções pareçam estar relacionadas com os nossos desejos, os desejos que nos fazem preferir uma acção a outra (beber água e não outra coisa). Ninguém diria que tens a intenção de beber água se não tivesses o desejo de beber água.
  Isto permite-nos concluir, em termos gerais, que se um agente tem a intenção de praticar a acção A, então o agente deseja praticar A: o desejo de fazer A é uma condição necessária para alguém ter a intenção de fazer A. Mas conhecer os desejos de um agente não permite explicar completamente a sua acção. Se o desejo é satisfazer a sede, o mesmo resultado pode ser obtido bebendo sumo de fruta em vez de água. Resta saber qual é o factor que, em conjunto com o desejo de satisfazer a sebe, determinou a opção de beber água em vez de sumo de fruta.
  Talvez tenhas ido à cozinha beber água, e não sumo de fruta, por ser essa a melhor forma de entre as opções ao teu dispor realizares o teu desejo. Por isso, as intenções estão relacionadas não apenas com os desejos do agente mas também com algumas das suas crenças (ou convicções): se não acreditasses que a melhor forma de satisfazer a sede é beber água, em vez de sumo de fruta, talvez optasses por beber sumo de fruta. Isto sugere que se um agente tem a intenção de fazer A, tem a convicção de que fazer A é a sua melhor opção. Acreditar que fazer A é o melhor para o nosso objectivo é também necessário para se falar na intenção de fazer A. 
 
2. Em conjunto, as crenças e desejos dos agentes dar-nos-iam as razões que permitem explicar o seu comportamento. Sabendo, por exemplo, que o Pedro quer ser admitido num curso de arquitectura, é fácil explicar por que ocupa grande parte do seu tempo a estudar. O desejo de ingressar em arquitectura, em conjunto com a crença de que estudar regularmente é a melhor maneira de o conseguir, explicam a sua acção – dão-nos a conhecer a razão por que age assim.
  Estes exemplos mostram que estamos motivados a agir de uma certa forma porque as nossas acções estão orientadas para um objectivo. Todas as nossas acções, das mais simples às mais complexas, dirigem-se a um fim e esse fim indica o que motiva o agente a agir. Isto tanto acontece no caso de acções tão simples como beber água como no caso de acções com uma estrutura motivacional mais complexa: a decisão sobre o curso que queremos fazer, por exemplo. Estas acções complexas envolvem um processo de deliberação e de escolha baseado em razões.
  Mas o processo de deliberação não está presente em todas as acções, apenas nas mais complexas: aquelas que exigem uma avaliação de cada uma das alternativas que temos ao dispor.
    A avaliação destina-se a que os resultados da acção sejam os melhores possíveis tendo em conta os desejos do agente. Quero que a escolha de seguir arquitectura tenha como consequência o melhor resultado para mim próprio, considerando a natureza dos meus desejos (ter uma profissão criativa). Neste caso, conseguir o melhor resultado possível significa avaliar os diferentes cursos de acção ao meu dispor e as consequências que daí possam resultar.
    Assim, podemos concluir que as acções possuem, em geral, uma estrutura que inclui o seguinte:
1.      AGENTE (aquele que faz acontecer a acção);
2.      INTENÇÃO (as crença e desejos do agente, a sua motivação);
3.      OBJECTIVO (onde se quer chegar com a acção);
4.      REALIZAÇÃO (a actividade muscular que concretiza a acção).
         Finalmente, no caso das acções que impliquem a avaliação consciente das várias opções ao dispor do agente:
5.      DELIBERAÇÃO (avaliação das alternativos existentes e das suas consequências).
 

Questões de Revisão

     

 
1. As acções são tipos especiais de acontecimentos. Justifica esta tese.
 
2. Explica por que razão as intenções que levam um agente a praticar uma acção têm de estar relacionadas com a sua motivação?
 
3. Explica por que razão o comportamento intencional se deixa interpretar em termos dos desejos e crenças dos agentes.
 
4. A análise das acções em termos de crenças e desejos pressupõem a racionalidade dos agentes. Porquê?
 

 Paulo Andrade Ruas, Escola Secundária de Ribeira Grande
 
publicado por Luís M. M. Duarte às 13:56
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