Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

I PARTE: Guião para ser representado e filmado em suporte digital pelos alnos da ESRG

 

Liberdade: realidade ou ilusão?
Diálogos sobre o livre-arbítrio
 
Prof. Luís M. M. Duarte
Prof. Paulo Andrade Ruas
 
 
Diálogo 1
 
(A cena passa-se na biblioteca da escola.)
 
 
Joana: Olha o que acabei de encontrar: um livro de que o professor de Filosofia esteve ontem a falar.
Lívia: De quem é?
Joana: Chama-se Shantaram, e foi escrito por Gregory David Roberts. A forma como começa a história da sua vida aventurosa, escrita numa prisão australiana, não podia ser melhor.
Lívia: Deixa-me ver.
Joana: Escuta. “Levou-me muito tempo e precisei de atravessar grande parte do mundo para aprender o que sei sobre o amor e o destino e as escolhas que fazemos, mas a resposta a tudo isto atingiu-me no momento em que estava acorrentado a uma parede a ser torturado.” (Pausa.)
Joana: Queres que continue?
Pedro: Não é um bocadinho sinistro demais?
Lívia: Nem um bocadinho. Deixa-a continuar. Estou interessada em ouvir.
Joana: Escutem. (Pausa.) “Percebi, através dos gritos, que mesmo naquela impotência algemada e ensanguentada, eu ainda era livre: livre para odiar os homens ou para os perdoar. Não parece grande coisa, eu sei, mas no medo e na opressão do cárcere, quando estes sentimentos são tudo o que se tem, esta liberdade é um universo de possibilidades. E a escolha que se faz, entre odiar e perdoar, pode tornar-se a história de uma vida.”
Pedro: Continua.
Lívia: Espera. (Pega no livro e lê.) “… precisei de atravessar grande parte do mundo para aprender o que sei sobre … o destino e as escolhas que fazemos.” Gosto disto. “A escolha que se faz … pode tornar-se a história de uma vida.” Oh, sim. Gosto de todas as palavras que ele usa.
 
 
Diálogo 2
 
(A cena passa-se na cantina.)
 
 
António: Nunca acreditei no destino. Mas, se as pessoas que acreditam tiverem razão, então, por muito que nos custe aceitá-lo, Rute, não somos nós os autores da nossa vida.
Rute: Pois não. Se o destino existir, a história das nossas vidas não resulta das nossas escolhas.
Paulo: Concordo. Não se pode ser livre para seguir o caminho que quisermos e, ao mesmo tempo, esse caminho já estar traçado.
António: Acho que percebo muito bem o que queres dizer. Se o destino existir, tudo o que fazemos, tudo o que nos acontece, está pré-programado, e nada podemos fazer para o alterar.
Rute: Exacto. Nesse caso, não teríamos alternativa. Não seríamos nós a comandar a nossa vida. Mas ter alternativas é essencial para ser livre. Não há liberdade sem a possibilidade de escolher, nem se não formos nós próprios a controlar a maneira como nos orientamos na vida.
Paulo: O inverso também é verdade. Se formos realmente livres, o tipo de pessoa que seremos no futuro depende das escolhas que fazemos agora. Portanto, não pode estar pré-definido.
Rute: Tenho aqui um livro que fala disso. Comecei agora a lê-lo. O autor do livro não acredita no destino, tal como nós. Esteve preso e chegou a ser torturado. Contudo, ele pensava que era livre para perdoar ou odiar os que lhe tinham feito mal. Talvez ele tenha apenas aprendido que o destino não existe quando descobriu que tinha o poder de odiar ou perdoar.
António: Gosto da tua ideia. Deixa-me pensar melhor.
 
Diálogo 3
 
(A cena passa-se no ginásio.)
 
 
Raquel: Achas que podemos dominar os nossos sentimentos ao ponto de escolher perdoar quem nos torturou em vez de ficar a odiar a pessoa para sempre? Gostava de ter a certeza.
Ana: Sim. É possível. Odiar ou perdoar os nossos carcereiros pode dar origem a duas vidas muito diferentes. Alguém que consiga perdoar está mais perto de ultrapassar o que lhe aconteceu. Por muito mau que tenha sido, poderá viver com isso, em paz com a sua memória.
Luís: Sim. Em paz consigo próprio. Deve ser horrível viver cheio de ressentimentos e de mágoa.
Raquel: Eu não gostaria de passar a vida a lamentar o que me aconteceu no passado. Mas não sei se seremos livres para mudar os nossos sentimentos. Talvez o perdão seja ou o ódio (ou qualquer outro sentimento) seja algo que nos acontece e não algo que se escolha sentir.
Raquel: O autor do livro a que me estou a referir acredita que temos esse poder. Ele passou por uma experiência horrível. Mas diz que decidiu perdoar os que o tinham torturado.
Luís: Continuo a sentir algumas dúvidas. Pode ter apenas acontecido que um dos dois sentimentos contraditórios que o assaltaram foi mais forte que o outro e acabou por vencer a luta.
Ana: Que queres dizer?
Luís: Talvez dependa da nossa personalidade a forma como reagimos às coisas. E o que a nossa personalidade é não depende de nós. Depende das experiências que tivemos e de como fomos educados. Para algumas pessoas o perdão é mais forte que o ódio, noutras é o contrário.
Raquel: Talvez até dependa dos genes. Se todos estes factores não dependem de nós, será que perdoar ou odiar é mesmo uma questão de decisão, algo que podemos fazer livremente? 
Ana: Concordo que essa é uma questão difícil.
 
Diálogo 4
 
(A cena passa-se num ginásio.)
 
 
Maria: Sabes que algumas correntes religiosas acreditam na predestinação? Estamos a discutir o problema do livre arbítrio nas aulas de Filosofia e o tema da omnisciência de Deus acabou por surgir.
José: Que queres dizer?
Maria: Alguns filósofos acreditaram que Deus sabe desde sempre quem será e quem não será salvo. Se for assim, parece que nada podemos fazer para mudar o que nos irá acontecer.
José: Queres dizer que Deus tem nas mãos uma espécie de livro dividido em duas colunas onde está escrito o nome de todas as pessoas? A coluna da salvação e a coluna da perdição?
Maria: Mais ou menos.
José: É uma ideia muito estranha. Por que haveria alguém de acreditar nisso? Os actos não contam? Todas as pessoas que conheço que acreditam em Deus e na salvação, acham que as decisões que tomam e a forma como cada um orienta a sua vida vão ser tidas em conta.
Maria: Sem dúvida. Mas a ideia não é tão estranha como parece. Afinal, há filósofos que pensaram que Deus saber o futuro é bastante lógico considerando acreditarem num Deus omnisciente.
José: Eu não sei se acredito na salvação. Mas, para o que estamos a discutir, pouco importa, não é?
Maria: Por vezes, as pessoas acreditam em coisas contraditórias sem terem realmente consciência disso. E talvez não seja coerente acreditar num Deus omnisciente e na liberdade humana.
 
 
Diálogo 5
 
(A cena passa-se num corredor.)
 
 
Lurdes: Um ser omnisciente sabe tudo, ou seja, que possui um conhecimento perfeito e completo.
Tiago: É o caso de Deus, se Deus existir. Sabe tudo acerca do passado, do presente e também do futuro.
Lurdes: Exacto.
Tiago: Vamos admitir que sim. Onde está, então, o problema? Por que razão, no caso de Deus ser omnisciente, não teríamos toda a liberdade para mudar o curso das nossas vidas?
Lurdes: Repara. Se Deus sabe tudo acerca do que irá acontecer no futuro, também sabe o que tu farás amanhã. Sabe, por exemplo, se amanhã irás ao teatro ou ao cinema; não te parece?
Tiago: Ainda não estou a ver onde queres chegar. Mas, até aqui, o que dizes parece ser lógico.
Lurdes: Concordo.
Tiago: Mas por que é que se Deus já sabe se eu irei ao cinema ou ao teatro eu não sou livre?
Lurdes: Pensa um pouco. Vamos admitir que Deus já sabe que irás ao cinema. Se Deus sabe isto, não te resta alternativa excepto ir ao cinema. Se tu não fosses ao cinema, Deus estaria enganado. Mas Deus não pode estar enganado. Se estivesse enganado não saberia tudo.
Tiago: Já percebi. Se Deus sabe hoje o que eu farei amanhã, então eu não sou livre para fazer outra coisa. Porque, se eu fosse livre de fazer outra coisa, Deus estaria enganado, o que é incoerente com a ideia de omnisciência. Nunca tinha pensado nisso, mas agora parece-me lógico.
Maria: Sim, é lógico. Mas para dizer a verdade, não sei se gosto da ideia. Preciso de pensar melhor.
 
 
Diálogo 6
 
(A cena passa-se na biblioteca.)
 
 
Fernando: No Diálogo sobre o Livre Arbítrio, Santo Agostinho discute o problema da eventual contradição entre liberdade e omnisciência de Deus. Está aqui o livro e posso ler uma passagem.
Marco: Lê alguma coisa que seja esclarecedora.
Fernando (abre o livro e lê): “Se Deus conhece qual será amanhã a orientação da tua vontade e a de todos os homens, tanto dos que existem como daqueles que virão a existir, e se prevê as vontades futuras, por maioria de razão prevê o que haverá de fazer aos justos e aos ímpios.” Cá está. Se Deus é omnisciente, sabe desde o princípio do tempo quem será recompensado e quem será punido. Se Deus existir, Deus já sabe o que te vai acontecer, Marco.
Marco: Isso não é o mesmo que afirmar que eu não poderei fazer algo diferente do que Deus já sabe? Se for assim, o que resta da minha liberdade? Parece-me que há aí um problema.
Fernando: À primeira vista, sim. Deixa-me ler-te mais. Se não te importas, vou saltando as partes que não interessam para simplificar. “Embora Deus conheça de antemão as nossas vontades futuras, daí não decorre que queiramos alguma coisa sem ser voluntariamente. Portanto, se Deus conhece de antemão a tua felicidade futura, não é por isso que somos obrigados a pensar que virás a ser feliz sem o quereres, o que é completamente absurdo.” Parece-me que temos aqui o início de uma resposta para o problema.
Marco: Sim. Parece-me que sim. O que Agostinho está a dizer é que, apesar de Deus já saber quais serão as minhas decisões, não é Ele quem me obriga ou faz decidir nesse sentido.
Fernando: Exacto. Acho que tens toda a razão.
Marco: Então, não há realmente contradição entre liberdade e omnisciência. Ambas podem ser verdade.
Fernando: Deixa-me ler um pouco mais. “Assim como tu, com a tua memória, não obrigas a que tenham ocorrido os acontecimentos que pertencem ao passado, também Deus, com a sua presciência, não obriga a que sucedam os acontecimentos futuros.”
Marco: Boa resposta. Acho que vou ler essa parte do livro mais tarde, com calma.
 
 
Diálogo 7
 
(A cena passa-se no laboratório.)
 
 
Mafalda: A ciência é um dos aspectos que mais me impressionam na cultura humana. A forma como as ciências nos permitiram ganhar domínio sobre a natureza não tem paralelo. 
Dora: Concordo. Hoje estamos tão habituados aos benefícios técnicos que a ciência nos oferece que não notamos quanto há de extraordinário no conhecimento das leis matemáticas que regem o mundo.
Piera: Partilho o vosso entusiasmo pelo trabalho dos cientistas. Mas há aspectos que me parecem estranhos na ciência.
Raquel: Que queres dizer? 
Piera: A ideia de liberdade, por exemplo. Acreditamos que os somos livres, e que isso nos dá o poder de controlar a nossa vida. Acreditamos que somos responsáveis por ela. Mas, num mundo regido por leis matemáticas, ainda haverá lugar para a liberdade humana?
Ana: Não sei se percebi. Estás a falar do determinismo?
Piera: Sim.
Dora: O determinismo levanta um problema interessante, sem dúvida.
 
 
Diálogo 8
 
(Noutra parte do laboratório, com outros alunos.)
 
 
Carlos A pergunta é: será que num universo subordinado a leis deterministas poderão existir acções livres?
Susana: Explica-te um pouco melhor.
Carlos Comecemos pelo princípio. Repara no lápis que estou a segurar entre os dedos. Se abrir os dedos, o que acontece?
Susana: O lápis cai.
Manuel: É óbvio. Mais alguma coisa?
Carlos A questão é: será provável que o lápis caia caso abra os dedos ou é inevitável que isso aconteça?
Susana: É inevitável. Se a queda fosse provável, o lápis poderia não cair. Poderia cair a maior parte das vezes e também ficar suspenso de vez em quando. Ora, isto não faz qualquer sentido.
Joaquim: Acho que acabas de responder à tua própria pergunta. Não te parece?
Susana: Foi sem intenção.
Carlos O determinismo diz que tudo o que acontece na natureza é a consequência inevitável, e não apenas provável, de causas anteriores. Nada do que acontece podia ser diferente do que é.
Joaquim: Einstein era determinista?
Carlos Tal como Newton.
Susana: Já sabemos o que é o determinismo. Mas ainda não sabemos por que é que a ciência exclui a liberdade.
 
 
Diálogo 9
 
(No bar dos alunos.)
 
 
Sofia: Repara: nós, seres humanos, somos seres naturais. Por isso, estamos sujeitos às leis da natureza. Nós, e tudo aquilo que fazemos.
Vanessa: Queres dizer que as nossas acções são determinadas por causas anteriores segundo leis físicas, psicológicas, etc. É isso? Leis que não controlamos nem podemos modificar?
Sofia: Sim, parece-me que é exactamente isso que está em causa.
Vanessa: Sem dúvida. Se tudo o que acontece na natureza tem uma causa, como as nossas acções são algo que fazemos acontecer, também têm causas que mergulham no passado.
Sofia: Ora bem. Se as relações entre causas e efeitos forem como o determinismo afirma, tudo o que fazemos é a consequência inevitável de algo que aconteceu antes. Mas, se as nossas acções são inevitáveis, não poderíamos ter agido de maneira diferente. Não tínhamos alternativa.
Vanessa: Eis uma conclusão difícil de aceitar. Mas, se não há alternativa, não agimos livremente.
Sofia: Exacto.                 
Vanessa: O que queres dizer é que se as leis da natureza forem deterministas, a ciência obriga-nos a rever a imagem que temos de nós próprios. Numa natureza determinista parece não haver lugar para acções livres.
Sofia: Exacto. A ideia de que somos os autores nossa vida pode ser falsa. Mas, nesse caso, também não somos responsáveis. Seja o que for que façamos, não podemos ser responsabilizados.
 
 
Diálogo 10
 
(De novo no laboratório.)
 
 
Ana: Haverá realmente incompatibilidade entre liberdade e determinismo? Afinal, quando agimos parece-nos que o fazemos livremente. Será que poderíamos estar enganados a este respeito?
Luísa: A experiência que temos quando agimos é que dispomos de alternativas. Eu escolho a sobremesa entre as várias possibilidades que o restaurante me oferece. Se escolho tarte de maçã, não posso deixar de pensar que também podia ter escolhido bolo de chocolate.
Ana: Mas vistas as coisas com os olhos de Newton e de Einstein, terminar a refeição com tarte de maçã era inevitável. Na verdade, isso estava previsto desde o início do universo, milhões de anos atrás.
Luísa: Toda a nossa vida seria a consequência inevitável dos nossos genes e do meio em que fomos educados. Se o determinismo tiver razão, somos o fruto involuntário das nossas circunstâncias e genes. Não somos nós que agimos; são os nossos genes e meio ambiente que agem através de nós.
Ana: Não gosto de pensar assim. Isso retira-nos protagonismo. É como se a nossa vida não nos pertencesse.
Luísa: Nem eu. A nossa vida seria apenas algo que nos acontece, como tropeçar ou apanhar chuva, e não algo que nós fazemos acontecer. Não seríamos nós a estar ao comando.
Ana: Gostamos de pensar que somos os senhores do nosso destino. Mas talvez a liberdade seja apenas uma ilusão.
Luísa: O determinismo pode ser falso. Os cientistas também se enganam.
 
 
Diálogo 11
 
(Na biblioteca.)
 
 
 
Vera: À primeira vista, se o determinismo for verdadeiro, não somos livres. Mas, se não somos realmente livres, não faz sentido responsabilizar as pessoas pelos seus actos, por muito horríveis que sejam.
Júlia: Hitler e todos os responsáveis nazis, por exemplo. Pensa em todo o sofrimento causado aos judeus nos campos de concentração e de extermínio! Ou o lançamento da bomba atómica sobre a população inocente de Hiroxima. Todos estes actos ficariam sem responsáveis.
Vera: Acho que tens razão. Mas se tudo o que fazemos é inevitável, simplesmente não somos responsáveis. Imagina a seguinte situação. Uma pessoa está num cais deserto a ver outra debater-se na água. Se a pessoa que está no cais não souber nadar, nada há que possa fazer para salvar a outra. Como não pode evitar o pior, também não pode ser responsabilizada.
Júlia: Claro. Mas se soubesse nadar, se pudesse ter evitado o afogamento, então sim, faria todo o sentido responsabilizá-la. Mas esse é o problema. O que o determinismo implica é que Hitler não poderia ter agido de outro modo. Assim, parece não fazer sentido acusá-lo.
Vera: Sabias que estão a preparar uma peça sobre este assunto para ser representada na escola?
Júlia: Não. Tens a certeza?
Vera: Sim. O tema está a ser discutido nas aulas de filosofia. Quem sabe se não nos deixam assistir aos ensaios.
Júlia: Boa ideia. Vamos tentar.
publicado por Luís M. M. Duarte às 13:39
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Luís M. M. Duarte (Coordenação)

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