Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

CVJ (Crenças Verdadeiras Justificadas)

Será a crença verdadeira justificada conhecimento?

Edmund Gettier[1]

 

 

Nos últimos anos foram feitas várias tentativas de estabelecer as condições necessárias e suficientes para que alguém conheça uma dada proposição.

As tentativas foram com frequência de modo a poderem ser afirmadas numa forma semelhante à seguinte[2]:

 

a) S conhece que P se e só se:

§         P é verdadeira (i);

§         S acredita em P (ii);

§         S está justificado em acreditar em P (iii).

 

Por exemplo, Chisholm[3] sustentou que o seguinte fornece as condições necessárias e suficientes para que haja conhecimento:

 

b) S conhece que P se e só se:

§         S aceita P (i);

§         S tem indícios adequados para P (ii);

§         P é verdadeira (iii).

 

Ayer[4] afirmou as condições necessárias e suficientes para o conhecimento como se segue:

 

c) S conhece que P se e só se:

 

§         P é verdadeira;

§         S está certo de que P, é verdadeira;

§         S tem o direito a estar seguro de que P é verdadeira.

 

Irei[5] defender que a) é falso devido ao facto de as condições que estabelece não constituírem uma condição suficiente para a verdade da proposição que S conhece P. O mesmo argumento mostrara que b) e c) falham se "tem indícios adequados para" for em todos os sítios substituído por "está justificado em acreditar que".

Começarei por chamar a atenção para dois aspectos.

 

1. Em primeiro lugar, que naquele sentido de "justificado" em que S está justificado em acreditar que P é uma condição necessária para S conhecer que P, é possível a uma pessoa estar justificada em acreditar numa proposição que é de facto falsa.

 

2. Em segundo lugar, que para qualquer proposição P, se S está justificado em acreditar em P, e P implica Q, e S deduz Q de P e aceita Q como resultado dessa dedução, então S está justificado em acreditar que Q. Tendo estes dois aspectos em mente, apresentarei agora dois casos em que as condições estabelecidas em a) são verdadeiras para uma proposição, embora seja ao mesmo tempo falso que a pessoa em questão conheça essa proposição.

 

CASO I

 

(Smith trabalha num escritório. Ele sabe que alguém será promovido em breve. O patrão, que é uma pessoa em quem se pode confiar, diz a Smith que Jones será promovido. Smith acabou de contar as moedas no bolso de Jones, encontrando aí 10 moedas. Smith tem então boas informações para acreditar na seguinte proposição:

a) Jones será promovido e Jones tem 10 moedas no bolso.

Smith deduz, então, deste enunciado o seguinte:

b) O homem que será promovido tem 10 moedas no bolso.

Suponha-se agora que Jones não receberá a promoção, embora Smith não o saiba. Em vez disso, será o próprio Smith a ser promovido. E suponha-se que Smith também tem dez moedas dentro do bolso. Smith acredita em b, e b é verdadeira. Gettier afirma também que Smith acredita justificadamente em b, dado que a deduziu de a. Apesar de a ser falsa, Smith tem excelentes razões para pensar que é verdadeira. Gettier conclui que Smith tem uma crença verdadeira justificada em b, mas que Smith não sabe que b é verdadeira.)

 

Suponhamos que Smith e Jones concorreram a um determinado emprego e que têm fortes indícios a favor da proposição conjuntiva seguinte:

 

d) Jones é que irá conseguir o emprego e Jones tem dez moedas no bolso.

 

Os indícios de Smith para d) podem ser que o presidente da companhia lhe assegurou que Jones seria o seleccionado e que ele, Smith, contou as moedas no bolso de Jones há dez minutos.

A proposição d) implica:

 

e) O homem que irá conseguir o emprego tem dez moedas no seu bolso.

 

Suponhamos que Smith percebe a implicação de d) para e) e aceita e) com base em d), para a qual ele tem fortes indícios. Neste caso, Smith está claramente justificado em acreditar que e) é verdadeira.

Mas imaginemos, além disso, que, sem que Smith saiba, ele próprio e não Jones conseguirá o emprego.

E imaginemos também que, sem que Smith saiba, ele próprio tem dez moedas no seu bolso. A proposição e) é então verdadeira, embora a proposição d), de que Smith inferiu e), seja falsa. No nosso exemplo, então, tudo o que se segue é verdade:

 

§         e) é verdadeira (i);

§         Smith acredita que (e) é verdadeira (ii);

§         Smith está justificado em acreditar que e) é verdadeira. Mas é igualmente claro que Smith não sabe que e) é verdadeira; porque e) é verdadeira em virtude do número de moedas no bolso de Smith, ao passo que Smith não sabe quantas moedas estão no seu bolso e baseia a sua crença em e) na contagem das moedas no bolso de Jones, que ele acredita falsamente ser quem conseguirá o emprego (iii).

 

 

CASO II

(Um sujeito deduz validamente uma proposição verdadeira a partir de uma proposição que está muito bem apoiada por informações, embora esta seja falsa, apesar de o sujeito não o saber. Quero agora descrever um tipo de contra-exemplo à teoria CVJ na qual o sujeito raciocina não dedutivamente.)

 

Suponhamos que Smith tem fortes indícios a favor da proposição seguinte:

 

f) O Jones possui um Ford.

 

Os indícios de Smith podem ser que, tanto quanto Smith se lembra, Jones sempre possuiu um carro, e sempre um Ford, e que Jones ofereceu um passeio a Smith enquanto guiava um Ford. Imaginemos agora que Smith tem outro amigo, Brown, cujo paradeiro Smith ignora completamente. Smith selecciona três nomes de lugares completamente ao acaso e constrói as três proposições seguintes:

 

g) Ou Jones possui um Ford ou Brown está em Boston.

 

h) Ou Jones possui um Ford ou Brown está em Barcelona.

 

i) Ou Jones possui um Ford ou Brown está em Brest-Litovsk.

 

Cada uma destas proposições é implicada por f).

Imaginemos que Smith compreende a implicação de cada uma destas proposições que construiu a partir de f) e prossegue para aceitar g), h) e i) com base em f).

Smith inferiu correctamente g), h) e i) duma proposição para a qual tem fortes indícios [f)]. Smith está, portanto, completamente justificado em acreditar em cada uma destas três proposições. Como é óbvio, Smith não tem a menor ideia de onde se encontra Brown.

Mas imaginemos agora que duas mais condições são incluídas.

Primeiro, Jones não possui um Ford, mas neste momento conduz um carro alugado.

E, em segundo lugar, pela mais absoluta coincidência e, sem que Smith tenha disso a menor ideia, o lugar mencionado na proposição h) é realmente o lugar onde Brown está. Se estas duas condições são incluídas então Smith não sabe que h) é verdadeira, apesar de que:

 

§         h) É verdadeira (i);

§         Smith acredita que h) é verdadeira (ii);

§         Smith está justificado em acreditar que h) é verdadeira (iii).

§          

Estes dois exemplos mostram que a definição a) não estabelece uma condição suficiente para que alguém conheça uma dada proposição.

Os mesmos casos, com as mudanças adequadas, serão suficientes para mostrar que nem a definição b) nem a definição c) o fazem igualmente.



[1] Em 1963, o filósofo Edmund Gettier publicou dois contra-exemplos para a teoria CVJ. O que é um contra-exemplo? Tal como a redução ao absurdo, são duas técnicas argumentativas de refutação de uma determinada tese. No primeiro caso, contra-exemplo, trata-se de dar exemplos que contradizem o que diz uma teoria geral. Um contra-exemplo contra uma generalização mostra que a generalização é falsa. A teoria CVJ diz que todos os casos de crença verdadeira justificada são casos de conhecimento. Gettier pensa que estes dois (contra) exemplos mostram que um indivíduo pode ter uma crença verdadeira justificada mas não ter conhecimento. Se Gettier tiver razão, então as três condições indicadas pela teoria CVJ são necessários, mas não são suficientes.

[2] Platão parece estar a pensar numa definição desse tipo no Teeteto, 201, e talvez a aceitar uma definição dessas no Ménon, 98.

[3] CHISHOLM, Roderick M., Perceiving: A Philosophical Study (Ithaca, Nova Iorque: Cornell University Press, 1957), p. 16.

[4] AYER, A. J., The Problem of Knowledge (London: Macmillan, 1956), p. 34.

[5] GÉTTIER, Edmund L., in Analysis 23 (1963, pp.121-123).

 

publicado por Luís M. M. Duarte às 15:47
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