Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Diálogos sobre teoria dos valores (1)

Diálogo 1

O que são valores
 
Pedro: Diz aqui que os valores são critérios de acção. Não sei se percebo muito bem o que isto quer dizer.
Joana: Humm… Pelo que está aí escrito, não parece muito difícil…
Pedro: Então explica.
Joana: Tenho a certeza que concordas com isto: os valores reflectem aquilo que achamos que é importante e significativo na nossa vida. Damos importância à honestidade, à democracia, à liberdade, à beleza, por exemplo. Todas estas coisas têm valor para nós. Queremos que elas façam parte da nossa vida.
Pedro: Concordo.
Joana: Então concordas que uma pessoa que dê importância à honestidade oriente a sua vida de forma honesta. Os valores são critérios de acção porque servem para guiar as nossas acções e decisões. Se um político acreditar realmente no valor da democracia, não fará nada para a limitar – por exemplo, aprovando leis que a ponham em causa. Os valores dirigem as nossas acções.
Pedro: Queres dizer que mesmo sem termos consciência disso, os valores dizem-nos como devemos agir? Por exemplo, que não devemos permitir a aprovação de leis que diminuam a democracia se acreditamos no seu valor, ou que não devemos mentir se acreditamos no valor da honestidade, etc.?
Joana: Sim. É isso. Um critério é uma espécie de regra que seguimos para fazer determinada coisa. Os professores, quando classificam um trabalho, têm critérios. Não o fazem ao acaso, só porque lhes apetece. As classificações são atribuídas de acordo com certas normas ou regras fixadas antes.
Pedro: Julgo que percebi. De facto, não era assim tão difícil. O problema não está nas ideias, que são simples.
Joana: Tens razão. Por vezes, a dificuldade vem de não estarmos habituados a certas termos usados para as exprimir. Mas, depois de os termos compreendido, tudo se torna claro. Não te parece?
 
Diálogo 2
Fazer ou formular um juízo
 
Pedro: Também diz aqui que há uma diferença entre juízos de facto e de valor. Gostava de perceber isto. O problema é que, como dizias há pouco, algumas palavras são difíceis. Temos de as perceber primeiro.
Joana: Por exemplo?
Pedro: O que é um juízo? Consegues dizer-me?
Joana: Suponho que sim. Formar um juízo sobre um assunto é a mesma coisa que formar uma opinião. E formular um juízo significa dar uma opinião. Dizer que, no meu juízo, Picasso foi um grande pintor, significa que, na minha opinião, Picasso foi um grande pintor. Como vês, não é difícil.
Pedro: Se é só isso, por que não usar a palavra “opinião” em vez de “juízo”? Era mais simples e poupava-se trabalho.
Joana: Pois é. Mas cada disciplina tem o seu próprio vocabulário técnico. Acontece o mesmo na física e noutras ciências. Opinião e juízo não são exactamente sinónimos. Mas para a nossa discussão não precisamos de mais.
Pedro: Muito bem. Avancemos.
 
Diálogo 3
Juízos de facto e juízos de valor
 
Pedro: Os valores são critérios que usamos para orientar a nossa vida. Esta ideia já ficou clara o suficiente. Mas agora estou eu a pensar…
Joana: Diz lá.
Pedro: Os valores não servem apenas para isso. Também estamos a usá-los quando avaliamos os outros e as suas acções.
Joana: Exacto.
Pedro: Se eu disser que um quadro é bonito, estou a avaliá-lo esteticamente, e o mesmo se passa se disser que um deputado é honesto: também estou a avaliá-lo, só que desta vez no plano moral.
Joana: Acho que tens toda a razão. Os juízos de valor servem precisamente para exprimirmos as nossas avaliações.
Pedro: Isso significa que há outros juízos? Nem todos os juízos são juízos de valor?
Joana: É isso mesmo.
Pedro: Dar uma opinião é o mesmo que dizer o que penso, não é? Estou a dizer como é que avalio as coisas.
Joana: Nem sempre. Ao formares uma opinião sobre a forma da Terra estás a limitar-te aos factos. Ao dizeres que a Terra é redonda estás apenas a constatar como as coisas são. Não há avaliação.
Pedro: Humm… E se disser que o 25 de Abril trouxe a democracia a Portugal? Parece-te um juízo de facto?
Joana: Sem dúvida. Não estás a avaliar esse facto, não disseste se isso ter acontecido foi uma coisa boa ou má. Estás apenas a descrever algo que aconteceu. Limitas-te a constatar o que se passou.
Pedro: Estou a ver. O que distingue os dois tipos de juízos é que os juízos de valor servem para fazer avaliações com base em valores. Se eu disser que o João é honesto, por exemplo, estou a avaliar o seu comportamento com base na honestidade. Estou a dizer que o João é uma pessoa como deve ser.
Joana: Concordo.
Pedro: Por sua vez, os juízos de facto servem para descrever a realidade tal como ela é. Não avaliam nada.
Joana: Exacto. Os juízos de facto limitam-se a dizer como as coisas são, sem fazerem qualquer avaliação. Dizer que a pena de morte é aplicada na China ou nos Estados Unidos, serve apenas para constatar factos.
Pedro: Só estarias a fazer uma avaliação se acrescentasses que a pena de morte é injusta, por exemplo. Os juízos de valor dizem como, de acordo com os nossos valores, as coisas deviam ser. Se pensas que a pena de morte é injusta é porque achas que ela não devia existir! Nada mais óbvio.
Joana: Deixa-me pegar outra vez no exemplo só para resumir. Um juízo de facto como “A pena de morte é aplicada na China” é apenas descritivo: limita-se a dizer como é que as coisas são na China.
Pedro: Certo. 
Joana: Mas um juízo de valor como “A pena de morte é injusta” não é apenas descritivo: faz uma avaliação. Diz-nos como as coisas deviam ser. Diz-nos que a pena de morte não deveria existir. Ora, ao dizermos como as coisas deviam ser, estamos a usar um critério de valor para fazer a nossa avaliação. Neste caso, o critério é a justiça. Quando há avaliação têm de existir critérios.
Pedro: Já tínhamos visto isso.
Joana: Isso quer dizer que os juízos de valor, ao permitirem-nos fazer avaliações, reflectem-se certos critérios ou normas. As normas com base nas quais avaliamos. Critérios estéticos (como a beleza, por exemplo), morais (como a honestidade, a justiça, etc.) e outros. Os juízos de valor são, portanto, normativos.
Pedro: Estou a perceber.
Joana: Resumindo. Os juízos de facto dizem apenas como as coisas se passam: são descritivos. Os juízos de valor, pelo contrário, fazem uma avaliação: dizem como as coisas deviam ser; são normativos.
Pedro: Boa! Estamos de acordo!
 
Diálogo 4
Juízos de facto, valores de verdade e objectividade
 
Joana: Concordámos que os juízos de facto dizem como as coisas se passam na realidade. Mas ao fazer uma descrição podemos enganar-nos.
Pedro: Claro que podemos. Onde queres chegar com isso?
Joana: Um juízo de facto pode ser verdadeiro ou falso. Ainda hoje há pessoas que pensam que a Terra é plana.
Pedro: Exacto. São dois os valores de verdade: o verdadeiro e o falso.
Joana: Estava a pensar que há uma certa relação entre um juízo ser descritivo e ser verdadeiro ou falso. Na realidade, acho que apenas um juízo descritivo pode ter valor de verdade. Se não for descritivo, não pode.
Pedro: Explica-te melhor.
Joana: O que é descrever? Descrever é indicar as características que algum objecto, pessoa ou situação supostamente têm.
Pedro: Certo.
Joana: Ou seja: ao descrever, estamos a afirmar que as coisas são de uma certa maneira, que têm certas características.
Pedro: Já percebi. Só estou a dizer uma verdade ou uma falsidade se estiver a afirmar alguma coisa. Ou a descrever.
Joana: Portanto, os juízos de facto têm valor de verdade porque são descritivos.
Pedro: Concordo.
Joana: Agora repara. A verdade ou falsidade de um juízo de facto não dependem da opinião ou ponto de vista de quem o faz.
Pedro: Dá um exemplo.
Joana: É verdade que a Terra gira em volta do Sol. E isso já era assim quando as pessoas pensavam o contrário. Este juízo ser verdadeiro não depende da opinião que alguém possa ter. Quem pensar o contrário está errado e ponto final – mesmo que não lhe pareça. Não achas que é assim?
Pedro: Claro. Como poderia pensar o contrário?
Joana: Um juízo é objectivo quando se refere à realidade tal como ela é, e não ao modo como o sujeito a interpreta ou vê. Eu posso pensar que o Sol gira em torno da Terra mas não é isso que objectivamente se passa.
Pedro: Quando falamos em verdade objectiva referimo-nos às características que os objectos de facto têm, e não às características que nos parece que têm. Às vezes, esta diferença passa despercebida.
Joana: Podemos, então, dizer que os juízos de facto são objectivos porque a sua verdade ou falsidade depende de como a realidade é e não da perspectiva ou opinião do observador. Que achas?
Pedro: Concordo.
Joana: Julgo, então, que chegámos ao fim da nossa análise sobre os juízos de facto: vimos que são totalmente descritivos, que têm valor de verdade, e a sua verdade ou falsidade depende de como a realidade é e não da opinião ou ponto de vista de cada pessoa: são, portanto, objectivos.
Pedro: Óptimo. Parece-me que chegámos ao fim.
 
Diálogo 5
Juízos de valor e sentimentos: o emotivismo
 
Joana: Vimos que os juízos de valor são normativos. Que ao dizer que o João é honesto quero dizer que ele é uma pessoa como deve ser. Estou a avaliá-lo com base em critérios ou normas morais.
Pedro: E então?
Joana: Parece-me que, associado a este aspecto, há ainda outro.
Pedro: Qual?
Joana: Ao dizer que o João é honesto estou a exprimir o meu sentimento de agrado por o João ser uma pessoa como deve ser.
Pedro: Estou de acordo. A tua avaliação reflecte agrado. Se pensasses o contrário, reflectiria desagrado.
Joana: Alguns filósofos pensaram que a função dos juízos de valor consiste apenas em exprimir os nossos sentimentos de agrado ou de desagrado a respeito de determinadas situações ou acções.
Pedro: Não estou a ver onde queres chegar.
Joana: Quero dizer o que disse: os juízos de valor não serviriam para mais nada excepto para darmos a conhecer aos outros as nossas atitudes e sentimentos. Para as manifestarmos, por assim dizer, publicamente. Ao dizer que o João é honesto não estaria a afirmar algo; estaria apenas a exprimir um sentimento.
João: Qual é a diferença?
Joana: Expressar uma emoção ou sentimento é muito diferente de fazer uma afirmação. Ao vestir-me de luto estou apenas a expressar tristeza e dor; não estou a afirmar seja o que for; não é a mesma coisa que sentar-me e descrever dor que sinto a alguém escrevendo-lhe uma carta, por exemplo.
Pedro: Expressar dor através do luto e descrever a dor que há por detrás do luto são coisas muito diferentes. É o mesmo tipo de diferença que há entre saltar de contentamento e gritar “Hurra!” quando a nossa equipa marca um golo e descrever a alegria que sentimos quando o golo foi marcado.
Joana: Descrever uma dor ou uma alegria implica afirmar como é essa dor ou alegria. Posso fazê-lo bem ou mal. De forma correcta ou incorrecta. Ou seja, a minha afirmação pode ser verdadeira ou falsa.
Pedro: Estou a perceber onde queres chegar. Se dizer que o João é honesto servir apenas para expressar o meu sentimento de agrado pelo João, este juízo de valor é como dar um salto de contentamento ou dizer “Viva o João!” por ele ser uma pessoa como deve ser. Mas, então, não estou a afirmar nada.
Joana: Sim. O que estarias a dizer não seria verdadeiro nem falso. Logo, os juízos de valor não são verdadeiros nem falsos.
Pedro: Sim. Mas isso é estranho. Porque se eu disser que o João é honesto, parece que estou a dizer uma verdade.
Joana: Sim. Se interpretarmos os juízos de valor deste modo teremos de concluir que não existem verdades ou falsidades morais. Chamam-se emotivistas os filósofos que defenderam esta ideia.
Pedro: Estou a ver onde queres chegar. Para um emotivista, a diferença entre juízos de valor e juízos de facto é muito radical. Os juízos de valor, além de não serem descritivos, também não têm valor de verdade.
Joana: Exacto. Compreendeste bem.
 
Continua.
 
Paulo Ruas, Escola Secundária de Ribeira Grande
publicado por Luís M. M. Duarte às 13:40
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