Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Diálogos sobre teoria dos valores (2)

Diálogo 6

Juízos de valor e sentimentos: o subjectivismo
 
Pedro: Não temos de concordar com tudo o que os filósofos dizem. Mas numa coisa parece terem razão: na hipótese de os juízos de valor servirem apenas para exprimir sentimentos, não há verdades morais, estéticas, etc. Para haver verdades morais, os juízos de valor não podem ter só essa função.
Joana: Concordo.
Pedro: Pela minha parte, acho que ao dizer que o João é honesto estou a transmitir um sentimento de agrado mas também estou a dizer uma verdade. Estou a descrever o tipo de sentimento que tenho pelo João. Não é um sentimento qualquer. É um sentimento favorável ao João.
Joana: Achas então que, além de normativos, os juízos de valor são em parte descritivos. É isto?
 Pedro: Julgo que sim. Ao dizer que o João é honesto é como se estivesse a falar também de mim próprio, da minha experiência interior (dos meus sentimentos). Estou a descrever o que sinto.
Joana: Quando digo que o João é honesto não é como se estivesse apenas a dizer “Viva o João!” ou “Hurra pelo João!” como defendem os emotivistas. Estou a falar sobre mim próprio, estou a dizer algo do tipo “Gosto da atitude do João” ou, mais simplesmente, “Sinto agrado pelo João”. 
Pedro: Se bem me lembro, os filósofos que defendem essa ideia, são os subjectivistas. Estou a dizer bem?
Joana: Estás. Os subjectivistas pensam que os juízos de valor também podem ser verdadeiros ou falsos, como os juízos de facto.
Pedro: Neste aspecto não há, então, uma diferença?
Joana: Há sim. Lembra-te que os juízos de facto são objectivos. Não dependem do ponto de vista do observador. Se uma pessoa disser que aquela mesa é rectangular e outra disser que a mesa é quadrada, uma delas está obrigatoriamente errada. Uma mesa não pode ser ao mesmo tempo rectangular e quadrada. Isto é um dado objectivo. Estas pessoas não podem ter ambas razão.
Pedro: Certo.
Joana: Mas, se os subjectivistas tiverem razão, uma pessoa que diga “A eutanásia é injusta” está apenas a dizer algo como “Não gosto que a eutanásia seja aplicada”, ou seja, está apenas a descrever o que sente, que tem sentimentos negativos acerca da eutanásia. E se estiver a ser sincera, isso é verdade. Mas uma pessoa que diga “Permitir a eutanásia é uma questão de justiça” também estaria a falar apenas dos seus sentimentos. Neste caso, estaria a dizer que tem um sentimento positivo em relação à eutanásia. Como a primeira, se estiver a ser sincera, é verdade o que diz.
Pedro: Portanto, ambas podem estar a dizer a verdade. A verdade seria puramente subjectiva. Dependeria unicamente do modo como cada pessoa (ou talvez cada sociedade) vê ou sente as coisas.
Joana: Exacto.
Pedro: Em resumo: para os subjectivistas, há verdades morais mas cada um pode ter a sua, e nenhuma é melhor do que qualquer outra. Tudo depende do ponto de vista. A moral não tem de ser a mesma para todos. Pessoas diferentes ou sociedades diferentes podem ter morais diferentes. É isto?
Joana. Sim. Percebeste bem. Ninguém está objectivamente certo ou objectivamente errado em questões de valores.
Pedro: Resumindo. Para os subjectivistas, a diferença entre juízos de valor e juízos de facto não é a mesma que os emotivistas defendem. Os subjectivistas pensam que os juízos de valor são em parte descritivos e têm valor de verdade. Só que a sua verdade não é objectiva. Varia de acordo com o ponto de vista.
 
Diálogo 6
Juízos de valor e objectividade
 
Joana: Não sei se consigo levar a ideia a sério. A mim parece-me que se eu disser que o aborto é moralmente aceitável e outra pessoa disser que o aborto é errado, um de nós tem de estar certo e o outro errado.
Pedro: Queres dizer que podes sentir agrado por uma coisa e estares enganado quanto ao seu real valor?
Joana: Talvez sim. Quero dizer que acredito na existência de verdades morais como acredito que a Terra é redonda. Que isso não pode depender, em caso algum, apenas do ponto de vista de cada pessoa ou cultura.
Pedro: Humm …. Mas, nesse caso, se podemos sentir agrado pela eutanásia, por exemplo, e estarmos enganados quanto à avaliação que fazemos dela, os valores não dependem apenas dos sentimentos. Terão de depender de outra coisa. É isso que dizem os realistas em matéria de valores.   
Joana: Sim, os realistas, ou objectivistas, são aqueles filósofos que acham que, bem analisadas as coisas, a diferença entre juízos de facto e juízos de valor não é tão grande como os outros filósofos (emotivistas e subjectivistas) pensam. Afinal, ambos são descritivos (os juízos de valor apenas em parte, na outra parte são também normativos), ambos têm valor de verdade, e em ambos os casos esse valor de verdade não depende da opinião ou ponto de vista de cada um, pessoa ou cultura.
Pedro: Não concordas? Porquê?
Joana: Não é fácil responder a isso com segurança.
Pedro: Tenta.
Joana: O problema é o seguinte. As pessoas que acreditam em verdades morais objectivas acham que certas práticas são tão odiosas e repugnantes que apenas os preconceitos de certas sociedades permitem que não repare se nisso. Mas, se formos além do que a maioria das pessoas nessas sociedades pensam, se usarmos a nossa própria razão e o nosso sentido crítico, vemos que essas práticas estão erradas. Não estão erradas apenas para mim. Estão erradas objectivamente. Ou seja, estão erradas mesmo que uma maioria de pessoas tenha a opinião contrária.
Pedro: Dá exemplos.
Joana: A excisão, por exemplo. A mutilação do clítoris que certos povos africanos têm o hábito de fazer às raparigas. Eu penso que é profundamente errado fazer isso, pensem essas pessoas o que pensarem.
Pedro: Pelos nossos padrões culturais, sem dúvida. Esse acto repugna profundamente a minha sensibilidade. Mas não acho que apenas o preconceito impeça esses povos de verem o que a mim parece razoável. A minha ideia do que é racional ou razoável nesta situação depende da forma como a minha sensibilidade foi educada. A razão está ao serviço dos meus sentimentos, isto é, reflecte o modo como os nossos valores e práticas culturais moldaram a nossa forma de sentir.
Joana: Eu gostaria que a excisão deixasse se existir. Todas essas práticas só criam sofrimento inútil.
Pedro: Também eu. E é isso que irá acontecer, mais cedo ou mais tarde. Os padrões ocidentais estão a ser adoptados em todas as partes do mundo em consequência da globalização, que começou há dois séculos. É de esperar que a sensibilidade desses povos vá mudando. Já está, aliás, a mudar.
Joana: Gosto do teu optimismo. Mas, segundo dizes, não é a razão que comanda o processo de mudança.
Pedro: Pois não. É o desenvolvimento histórico das relações e práticas sociais, o modo como os homens produzem as suas condições de vida, ou seja, a globalização. Os nossos padrões e valores tenderão a ser adoptados por todos os povos que substituírem o seu modo de vida pelo nosso.
Joana: Não estou convencida.
Pedro: Seja como for, podemos talvez concluir que, segundo os realistas morais, não há uma grande diferença entre juízos de valor e juízos morais, excepto que os últimos são em parte normativos. No resto, ambos são descritivos, ambos possuem valor de verdade e ambos são objectivos.
Joana: É isso. Tens toda a razão.
 
Paulo Ruas, Escola Secundária de Ribeira Grande
 
 
 
 
publicado por Luís M. M. Duarte às 13:43
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