Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

O que é agir moralmente? (1)

O egoísmo ético: principais características e limitações

 
 
 
 
1. Introdução
 
         As intenções desempenham um papel central na compreensão da acção humana: por um lado, permitem identificar os objectivos que os agentes pretendem atingir através do seu comportamento; por outro lado, dão-nos a conhecer as motivações que os levam a agir desse modo. Se souber que a intenção da Joana ao visitar a Luísa era passarem a tarde a escrever um trabalho de Português, fico também a saber com que objectivo ela a visitou e o motivo do seu comportamento. Conhecer as intenções dos agentes permite explicar por que razão agem de determinada forma.
          Não admira, portanto, que as intenções sejam consideradas importantes para a avaliação moral das acções. A maneira de distinguir uma acção com valor moral (por exemplo: ajudar quem necessita) de uma acção que não possui valor moral implica saber com que intenção a acção foi praticada (por exemplo: se uma pessoa ajudar alguém apenas com a intenção de ser recompensada, a sua acção não parece ter valor moral, uma vez que foi motivada por razões puramente egoístas).
          O filósofo grego Aristóteles notou que a procura da felicidade é algo que está presente em todos os seres humanos, e agir de acordo com os nossos desejos e crenças (convicções) é uma forma de tentar obter felicidade. Mas podemos perguntar: a felicidade de quem? A do próprio agente ou a de todos os que a sua acção possa afectar? A procura da felicidade deve ser motivada por uma procura puramente egoísta ou devemos ter em conta os interesses e o bem-estar dos outros?
          Vários filósofos defenderam que uma acção apenas motivada pela defesa do interesse próprio não tem valor moral. Um exemplo permite esclarecer este ponto. Imagina que uma colega necessita da tua ajuda para dominar a matéria do próximo teste de Português e que estás disposta a ajudá-la. Supõe que decides abdicar do que tinhas planeado fazer para estudarem em conjunto. Significará isto que a tua acção só pode merecer elogios? Muitas pessoas diriam que para sabermos se a tua atitude tem realmente valor moral é necessário conhecer a intenção com que a praticaste. Sucede que podes ter decidido não fazer o que tinhas planeado por veres na situação da tua colega uma oportunidade de cair nas suas boas graças e, assim, conseguires que ela te convidasse para a festa que vai dar em sua casa em breve. Mas a tua intenção pode ter sido ajudar por ajudar, mesmo à custa de um pequeno sacrifício pessoal. 
          Afinal, se as nossas intenções reflectem as razões por que agimos, parece evidente que no primeiro caso apenas agiste por interesse próprio: a ajuda à colega foi apenas um meio para satisfazeres o teu desejo de seres convidada para a festa. A tua motivação foi egoísta. No segundo caso, pelo contrário, a razão que te levou a agir nada tinha de pessoal: não era do teu interesse a colega ter um bom resultado no teste – era do interesse dela. Apenas te limitaste a fazer o que achaste que era o teu dever: não por isso te trazer um benefício mas por ser essa a atitude correcta.
 
2. O egoísmo ético de Hobbes
 
          Nem todos os filósofos admitiram que o valor moral de uma acção depende de a sua motivação não ser egoísta. Thomas Hobbes, por exemplo, defendeu que nossa única obrigação moral consiste em agir apenas por interesse próprio. Hobbes era um defensor do egoísmo. No entanto, não defendeu que somos naturalmente egoístas. Ele estava a defender que mesmo sendo possível agir de forma não egoísta, NÃO DEVEMOS FAZÊ-LO. Daí que, segundo Hobbes, a regra básica do comportamento moral deve ser cada pessoa agir apenas segundo os seus próprios interesses.
          Esta concepção tem o nome de egoísmo ético. Mas que significa exactamente que para um egoísta ético, o dever do agente consiste apenas em praticar as acções que contribuam para o seu bem-estar? A concepção de Hobbes não é descritiva: não nos diz como as pessoas são. Hobbes não diz que somos por natureza egoístas. Trata-se de uma teoria normativa, que diz como as pessoas devem ser. Hobbes defende que devemos ser egoístas e que devemos agir de modo egoísta, incluindo se as nossas inclinações naturais forem altruístas (o altruísmo é o contrário do egoísmo.)
 
3. Egoísmo, sociedade e moral
 
          Será que se todos vivêssemos a pensar apenas em nós próprios, a vida em sociedade seria possível? À primeira vista, viver em sociedade significa colaborar com os outros – ter os seus interesses em consideração e não apenas os nossos. Poderia a teoria de Hobbes ser posta em prática?
          A ideia de Hobbes parece incompatível com a vida em sociedade, que implica respeitar os interesses dos outros, e não apenas os nossos. O egoísmo ético, contudo, parece não deixar lugar a outras considerações além do interesse pessoal. Mas não é assim. Embora cada agente deva actuar exclusivamente em função dos seus interesses pessoais, é do interesse de cada um cooperar com os outros, sobretudo quando essa cooperação contribui para melhorar as condições de vida do próprio agente. O que levaria os indivíduos a cooperarem entre si e a viverem em sociedade seria o facto de necessitarem dos outros para alcançar os seus próprios fins egoístas. Estou interessado em ver a minha propriedade respeitada; logo, é do meu maior interesse respeitar a propriedade dos outros: se não o fizesse, a probabilidade de os outros respeitarem a minha tornar-se-ia nula. A cooperação social é apenas um meio para o egoísmo individual.
          Este exemplo mostra que o egoísmo pode ser a base da vida social; poderá ser também a base da moral?
          Será que a teoria de Hobbes é uma teoria ética? Talvez não. Qualquer teoria ética tem como objectivo central responder à questão Como devemos viver? É por isso que a ética procura determinar que princípios ou regras devemos seguir de forma a orientarmos a nossa vida e acções. Se quisermos ser justos e ter uma vida eticamente correcta, não podemos agir de qualquer maneira.
          Um dos princípios ou regras que tem sido proposto como resposta para a pergunta Como devemos viver? é o seguinte: “Faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti”. Este é um princípio muito geral de acção, que pode ser usado para orientar todas as nossas acções. Mas não é a única resposta possível à nossa pergunta. A proposta de Hobbes, como vimos, parece muito diferente. O seu princípio ou regra favorita de acção seria: “Age apenas em nome do teu interesse pessoal”.
          Será que esta é uma regra moral? Talvez Hobbes tenha razão e o egoísmo possa servir de base para a vida em sociedade; mas parece não ter razão ao defender que o egoísmo é a base da moral. Resta saber porquê.
 
4. Egoísmo ético e moral
 
          Dizer que a moral não se pode basear no egoísmo significa que a regra “Age apenas em nome do teu interesse pessoal” não é, nem poderia ser, uma regra moral. Tentemos agora perceber porquê.
          As regras morais têm uma importante característica: são universais, ou seja, são válidas para todos.
          Eis um exemplo. Quando aceito que tenho a obrigação moral de dizer a verdade, estou a desejar que todos os outros a respeitem. A obrigação de dizer a verdade não é apenas minha ou de certas pessoas: ela só existe para mim se existir também para todos os outros. Ao seguir uma determinada regra moral, estamos a pressupor que ela é válida também para os outros e que é desejável que todos a respeitem. Não sou apenas eu quem tem o dever moral de não cometer assassínio: qualquer pessoa – excepto em situações específicas: a guerra, etc. – tem esse dever.
           Ora, a razão que nos pode levar a pensar que a teoria de Hobbes não é uma teoria ética decorre de a regra que ele propõe não ser universalizável. Se um egoísta tentar transformar a regra de Hobbes numa norma que todos tenham a obrigação de seguir, acabará por cair numa contradição.
          O egoísmo não pode ser a base da moral porque não é do interesse do egoísta que todos sejam como ele. O egoísta deseja que os outros façam o que serve os interesses dele, que não ignorem o que lhe convém, que o respeitem e, se necessário, que aceitem sacrificar-se pelo que a ele interessa. O ideal, para o egoísta, é viver num mundo de pessoas altruístas que possa usar em seu benefício.
          Se o egoísta desejasse que os outros fossem como ele – ou seja: que seguissem a regra Age apenas em nome dos teus interesses – estaria a ir contra o que mais lhe convém: estaria, portanto, a contradizer-se. Ora, a última coisa que o egoísta deseja é fazer algo que o possa prejudicar. Propor o egoísmo como regra moral – ou seja: como sendo válida para todos – só poderia prejudicá-lo.
          A regra egoísta, quando elevada à categoria de princípio universal, vira-se contra o seu proponente. Nenhuma pessoa que não seja egoísta estará interessada em viver de acordo com o egoísmo e fazer dele uma moral. Mas, por outro lado, o egoísta ético pode querer agir unicamente em função do que mais lhe convém mas não poderá querer que os outros façam o mesmo sem pôr em causa os seus próprios interesses. Não pode, portanto, querer que a sua regra de vida venha a ter uma aplicação universal. O egoísmo como base hipotética da moral fracassou.
          Mas compreender a raiz do fracasso do egoísmo ético pode ter consequências muito interessantes. Este fracasso sugere, em primeiro lugar, que agir com uma intenção ética nos confronta com a necessidade de ultrapassarmos a mera consideração dos interesses pessoais, para nos colocarmos numa posição capaz de ter em conta os interesses dos outros, ou, pelo menos, os interesses de todos os que as nossas acções possam afectar. É este aspecto que veremos a seguir.
 Paulo Andrade Ruas
 
publicado por Luís M. M. Duarte às 14:40
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