Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

II, A Racionalidade prática (continuação)

3- A concepção aristotélica da racionalidade prática

 

• A racionalidade prática e irredutível a racionalidade científica.

• E uma capacidade prática (saber decidir, saber agir, saber aplicar princípios a situações concretas)

• Enraíza-se nos valores, crenças e práticas de uma comunidade (depende do contexto).

• O seu exercício pressupõe uma educação apropriada, através da qual são inculcadas as virtudes de que ela depende.

• Aperfeiçoa-se com a experiência.

• A sabedoria prática não e codificável num conjunto de regras.

 

Aristóteles: a noção de virtude

Arête: virtude, valor, excelência.

Uma virtude moral e uma disposição para controlar certas emoções e para agir correctamente em certas situações.

Adquirimos as virtudes praticando-as.

A virtude dá-nos os princípios fundamentais da acção.

 

Três níveis da virtude:

- disposição natural

- treino

- reflexão (virtude exercida com pensamento)

 

“As virtudes não são geradas em nos por natureza nem em violação da natureza; a natureza dá-nos a capacidade de recebe-las, e esta capacidade atinge a maturidade pelo hábito” (Aristóteles, Ética a Nicomaco)

 

A prudência ou sabedoria prática (phronesis)

A definição de prudência: “o homem prudente e aquele que e capaz de deliberar bem sobre aquilo que e bom e vantajoso para ele, não num domínio específico, […] mas o que e vantajoso como um meio para a vida boa em geral.”

A importância da prudência enquanto capacidade de agir e decidir: não basta ter bons princípios ou boas intenções; e preciso decidir correctamente, saber agir (cf. jurisprudência).

A sabedoria prática não e ciência. A ciência tem como objecto o que e universal e invariável, ao passo que a prudência tem como objecto o que e particular, contingente e variável.

 

3.1- A ética das virtudes

A questão central não e “que tipo de acções devo fazer?”, mas sim “que tipo de pessoa devo ser?”

A ética das virtudes chama a atenção para aspectos da vida moral negligenciados pelas outras tradições:

- motivos da acção

- educação moral e formação do carácter

- capacidade de julgamento

- concepções de felicidade

- emoções

 

A ética das virtudes

Esta centrada no agente e não na acção;

Esta mais preocupada com o ser do que com o fazer; a questão central não e “que tipo de acções devo fazer?”, mas sim “que tipo de pessoa devo ser?”

Rejeita a ideia de que a ética possa ser codificada num sistema de regras ou princípios.

 

Vs. Concepções impessoais da ética

 

“Apesar da oposição entre kantianos e consequencialistas, é fácil para alguém que lê alguma das obras de qualquer uma das escolas formar uma imagem de um agente ético essencialmente sem rosto que esta equipado pela teoria para fazer escolhas morais que não tem uma conexão psicológica com o passado ou futuro do agente.” (Kupperman)

 

Philippa Foot

As virtudes são qualidades geralmente benéficas, de que um ser humano necessita, quer para o seu bem, quer para o bem alheio; qualidades que dependem da vontade.

Mas a intenção não e suficiente; a virtude requer não apenas a boa intenção, mas os meios para a sua concretização.

A virtude tem um carácter correctivo; corrige uma tentação ou uma “deficiência da motivação”.

Vs. Kant: o filantropo que age por inclinação natural (virtude) tem mais valor do que aquele que age por dever.

 

Alasdair MacIntyre

Uma vida com sentido pressupõe projectos de vida que não sejam meramente individuais, mas se integrem numa tradição moral, que permite uma narrativa da vida individual e que depende padrões de excelência em certas práticas.

Uma virtude e uma qualidade humana adquirida cujo exercício nos permite atingir bens internos a uma prática.

 

 

3.2- Gadamer

Concebe a racionalidade prática a partir da noção aristotélica de prudência (phronesis) e a noção humanista de formação

 

A ideia humanista de formação

“Torna-te aquilo que és” (Pindaro)

“Sou homem; nada do que e humano me e estranho” (Terêncio)

 

Humanitas, paideia e philantropia

“Aqueles que deram vida a língua latina e a falaram com propriedade não quiseram que o significado de humanidade [humanitas] fosse aquele que e vulgarmente considerado e a que os gregos chamam philantropia, ou seja, uma espécie de benevolência indulgente para com todos os seres humanos sem excepção; mas consideraram a humanidade como algo de semelhante aquilo a que os gregos chamam paideia e a que nos chamamos educação e iniciação nas artes liberais. […] De facto, o estudo de tal ciência e os ensinamentos que dai derivam, oferecidos apenas ao homem entre todos os seres animados, chamam-se, por esta razão, humanitas.” (Aulo Gelio, Noites Áticas, XII, 17)

 

Cícero

“Alem disso, para continuar a mesma comparação, tal como um campo, por mais fértil que seja, não pode ser produtivo sem cultivo [cultura], assim também a alma não pode ser produtiva sem cultura.

[…] Ora, a filosofia e a cultura da alma; ela extrai os vícios pelas raízes e prepara as almas para a recepção das sementes.” (Cícero, Tusculanas, II. iv. 13)

 

Traços fundamentais da noção de Bildung no neo-humanismo alemão

É um processo de transformação interior e de aperfeiçoamento humano.

É um processo livre ou autónomo, não subordinado a fins exteriores ou a objectivos práticos.

E o desenvolvimento harmonioso do homem no plano moral, intelectual e estético.

Envolve o conhecimento da arte, da literatura e da filosofia.

Requer a multiplicação de experiências e à abertura ao que e estranho, diferente.

 

Erasmo

“As árvores, e bem possível, nascem árvores, mesmo aquelas que não dão nenhum fruto […]; os cavalos nascem cavalos, mesmo quando são inutilizáveis; mas os homens, acredita em mim, não nascem homens, mas tornam-se homens por um esforço de formação.” (Erasmo, Da necessidade de dar desde cedo uma educação liberal as crianças)

 

O projecto filosófico de Gadamer

A busca de uma concepção de racionalidade própria para a acção humana.

A reabilitação do preconceito: os preconceitos são condições de possibilidade da experiência; não podem ser eliminados, mas apenas corrigidos.

A compreensão como “fusão de horizontes”

 

A experiência da compreensão do outro

“A verdadeira experiência e sempre negativa”; “em rigor, não se pode fazer duas vezes a mesma experiência”; “toda a experiência digna deste nome contraria uma expectativa.”

A experiência da compreensão do outro consiste numa refutação dos nossos preconceitos.

 

A formação (Bildung) segundo Gadamer

Correcção interminável de preconceitos.

Multiplicação ilimitada de fusões de horizontes.

Multiplicação ilimitada de experiências hermenêuticas

Não há um modelo para a formacao humana.

 

Formação = Prudência (phronesis)

Formas de racionalidade prática irredutíveis a racionalidade cientifica.

Não podem ser codificadas num sistema de princípios universais.

O homem prudente ou a pessoa formada caracteriza-se por ser fiável nos seus juízos práticos.

Esta fiabilidade e adquirida mediante uma educação apropriada e a acumulação de experiências.

 

Formação ≠ prudência (phronesis)

A Bildung (formação) envolve uma abertura a outros horizontes culturais.

A Bildung e um processo de autodeterminação; não consiste na reprodução de padrões comportamentais fixados pela comunidade.

 

 

 

publicado por Luís M. M. Duarte às 14:53
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Laura F. a 17 de Novembro de 2009 às 20:02
Hoje, por uma qualquer razão, talvez inconsciente, lembrei-me deste blog. Lembrei-me de quando foi criado, em que situação e das críticas pouco saudáveis que alguns comentários geraram. Lembrei-me que foi através deste blog que conheci nomes célebres como E. Kant ou Desidério Murcho. Lembrei-me que o blog estimulou o meu raciocínio e a minha capacidade crítica ficou mais apurada. No entanto, não valorizo só o blog, mas também a bagagem que ele me trouxe. Aterlado a ele, veio um professor e uma decisão. Veio uma decisão de vida. E por tudo isto, deliciei-me a percorrer os posts mais antigos, a ver os comentários dos novos alunos que vão passando pelas mãos de quem me fez apaixonar pelo saber. Bem-hajam. Todos. Entretanto, dei por mim a reparar que já se passaram dois anos... Dois anos! Foi em 2007, altura crítica para todos.

Porém, acabei de reler o cabeçalho, onde se coloca uma descrição do blog. E, nesse local, diz que este é um espaço reservado à partilha de temas de cariz filosófico. O que me fez lembrar uma outra coisa. Algo que tenho vindo a ler e que me pôs a pensar. No início do ano(2007!), o professor Luís Duarte mandou-nos escrever um texto sobre nós. O objectivo, segundo o prof era só querer saber quem nós éramos e de que forma tínhamos chegado "às suas mãos". Continuo a apoiar a ideia, acho-a excelente. Mas tenho uma sugestão. Se as pessoas em geral gostam de falar sobre si e se, em geral, não gostam de Filos+sofia, então por que não perguntar, nesse texto, qual é o seu problema filosófico? Todos nós temos algum, com o qual lidamos desde muito novos, sem nos termos apercebido de que é filosófico. Seja no domíno ético, estético ou noutros. Por exemplo, o meu é matafísico. O problema das religiões. Porquê tanta disparidade? Mas há outros que podem perguntar: "porque é que o mundo é tão feio?" ou ainda "Porque é que somos todos tão desiguais?". Sugiro essa pergunta aos alunos. Porque a Filosofia é o que nós queremos fazer dela. Podemos canalizar todas as matérias, desde que queiramos, para o nosso problema. É uma maneira de satisfazermos o nosso ego e de satisfazer o professor. E mais ainda! De aprender alguma coisa. Porque já não há sábios (acredita-se que sim, desde Galileu Galilei) que dominem "todas" as áreas do saber. Portanto, e para que fiquemos um bocadinho mais elucidados, tentemos perceber um bocadinho do Mundo que nos rodeia, enverdando por uma parte que nos interessa :^)

Espero que esta pequenina dissertação toque na mente de alguém, de uma só pessoa que seja. Porque o mundo não percisa de "treinadores de bancada". Precisa sim, de alguém, que saiba treinar a sério. Para que esta geração não seja uma geração perdida, como muito se diz.

Conselhos? Leiam Gilles Deleuze, a minha mais recente descoberta ;)

Comentar post

Luís M. M. Duarte (Coordenação)

pesquisar

 

Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
29
30

posts recentes

Os "Sexalescentes" do Séc...

O fenómeno atual multimod...

A REDEFINIÇÃO (DA NOÇÃO) ...

V Comemoração do Dia Mund...

V Comemoração do Dia Mund...

O que é a Filosofia? - Um...

IV Comemoração do Dia Mun...

Comemoração do 25 de Abri...

Os Valores

II, A Racionalidade práti...

arquivos

Abril 2017

Maio 2015

Abril 2012

Novembro 2011

Novembro 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

links

blogs SAPO

subscrever feeds