Quarta-feira, 3 de Março de 2010

Os Valores

Os valores definem-se como sendo entidades virtuais; não existem na realidade, não são propriedade dos objectos, são atribuídos às coisas por um sujeito. Valor implica sempre uma relação de um sujeito com um objecto, ao qual este atribui um determinado valor.

Também se apresentam como entidades ideais que representam a perfeição e o seu oposto. Na perseguição de valores, o Homem vai-se aperfeiçoando.

As características fundamentais dos valores são a hierarquia e a polaridade.

Primeiro, os valores apresentam-se sempre numa escala que vai do menos para o mais. A esta ordenação qualitativa dos valores dá-se o nome de hierarquização e varia de pessoa para pessoa; cada um tem a sua escala de valores que vai influenciar as suas escolhas.

Por outro lado, os valores aparecem sempre com uma dupla face: positiva e negativa. A um pólo positivo (por exemplo: bonito) opõe-se sempre um pólo negativo (no exemplo: feio).

Existem juízos de facto e juízos de valor. Pelos juízos de facto entendemos os que são descritivos ou de existência. Descrevem e informam acerca da realidade concreta sem emitir preferências e apreciações. Podem ser facilmente considerados verdadeiros ou falsos, conforme se adequam ou não à realidade, e podem ser objecto de verificação empírica. Isto é, em relação ao juízo: "A árvore deu frutos", que é um juízo de facto, eu posso olhar e verificar se é verdade ou não verdade.

Os juízos valorativos julgam factos e realidades em função de preferências axiológicas.

Estes juízos não são verificáveis empiricamente e não são, normalmente, alvo de consensos. Podem ser de apreciação moral, estética, religiosa, vital, de utilidade, entre outros.

Os valores são guias de acção, aquilo que “põe em movimento” os comportamentos, as condutas das pessoas. Na nossa vida estamos sempre a fazer juízos de valor e a guiarmo-nos por eles.

Eles orientam a vida e marcam a personalidade; uma pessoa define-se, diz quem é, em função dos valores que tem.

Os valores orientam as nossas preferências; eu prefiro isto ou aquilo em função dos valores que tenho. Por exemplo, se a igualdade de direitos é um valor importante para mim, eu vou optar por não discriminar as pessoas pela sua raça.

Por causa dos valores as coisas apresentam-se-me de forma diferenciada. Ou seja, o mundo não é todo igual para mim, há coisas de que eu gosto e coisas de que eu não gosto; há coisas que eu admiro e coisas que não; há coisas que eu respeito e outras que não respeito. É em função deste colorido que os valores conferem ao mundo, que o Homem escolhe e age.

Assim, é o valor que confere sentido à vida, serve para a nossa orientação pessoal.

Em relação à axiologia, teoria dos valores, podemos observar a tese da subjectividade, que se opõe à da objectividade dos valores, e a da historicidade, que se opõe à perenidade dos valores.

A tese da perenidade defende que o valor não depende da época histórica. A perenidade é do valor e não dos objectos em que ele se manifesta. Por exemplo, a honestidade e amizade sempre foram considerados valores ao longo do tempo, as suas manifestações, exemplos e realizações é que podem sofrer alterações.

A tese da historicidade defende que os valores mudam conforme a época histórica.

Isto está ligado a uma ideia de relativismo axiológico que defende que o que é ou não valor é completamente relativo. Tudo muda, e os valores também!

Podemos afirmar, como tese intermédia, que apesar dos valores sofrerem obviamente uma influência do tempo, até surgem novos valores, há algo de perene nos valores; amizade será sempre um valor importante, embora o seu conceito sofra inevitavelmente alterações.

As teses da subjectividade ou objectividade diferem porque uma defende que se gosta das coisas porque elas têm valor, o valor existe como algo de absoluto, independentemente das coisas e dos homens, que apenas os descobrem, enquanto a outra afirma que as coisas assumem valor porque um sujeito gosta delas; assim o valor é sempre uma criação do Homem, sendo dependente da apreciação do sujeito. Está presente no ditado popular: "Quem feio ama, bonito lhe parece."

A tese que concilia as duas posições defende que os valores não existem independentemente das coisas, eles apenas valem, não têm existência independente. Mas são propriedade real das coisas que despertam os valores. No entanto, as coisas só são valiosas potencialmente, apenas adquirem realmente valor quando entram em interacção com o Homem. Só nesta relação é que os valores fazem sentido.

Finalmente, hoje em dia fala-se muito da crise de valores e da emergência de novas polarizações.

Vivemos uma época de grandes mudanças a todos os níveis. Por esse motivo, há também a emergência de novas polarizações de valores.

Assim, numa fase de revisão daquilo que era considerado valor, a que muitos autores chamam Época de Crise, porque há questionamento, alterações drásticas, há enormes mudanças, e na mudança há sempre algo de instabilidade, o que é normal e salutar (crise em grego significa questionamento e decisão; não é um termo negativo). Surge a consciência de que aspectos que não faziam parte das nossas preocupações passam a fazer. Deste modo, não há apenas diferenças na hierarquia dos valores clássicos, mas há mesmo valores que não existiam e passam a existir. Estamos a referir-nos, por exemplo, à ecologia. Se o planeta não estava em risco é óbvio que as pessoas não andavam preocupadas com o assumir deste valor. Hoje, os riscos inerentes à tomada de atitudes pouco correctas são tais que há a necessidade de sensibilizar todo o mundo para esta questão. Assim, a ecologia apresenta-se como um valor contemporâneo.

In, www.edusurfa.pt, Porto Editora

publicado por Luís M. M. Duarte às 17:11
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Luís M. M. Duarte (Coordenação)

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