Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

A dimensão discursiva do trabalho filosófico (I)

A dimensão discursiva do trabalho filosófico

 

Maria de Fátima Moutinho

 

I. Os argumentos: instrumentos do trabalho filosófico

 

Vimos que os conteúdos da filosofia são problemas, teorias e argumentos. Os problemas filosóficos não têm resposta empírica nem formal, mas sim conceptual: as teorias são as respostas dadas aos problemas, as posições tomadas. Mas não basta apresentar respostas, é preciso mostrar porque é que se dá essas respostas, apresentar justificações que as fundamentem, ou seja, utilizar argumentos. Estes são os principais instrumentos do trabalho filosófico, pois é deles que vai depender a aceitação das teorias.

 

Premissas e conclusão

 

Vejamos um pouco melhor o que são argumentos recorrendo a um exemplo:

Se pretendemos defender que ler o primeiro volume do Harry Potter é mais interessante do que ver o filme, poderemos dizer que, apesar do filme ser visualmente muito apelativo, impede-nos de imaginar as personagens de uma outra forma; ou que, sem a leitura de determinado capítulo, não compreenderemos o que se passa nalgumas cenas; ou, ainda, que há uma série de pormenores que o filme não capta. E, daí, concluímos que ler o livro é mais interessante do que ver o filme.

O que fizemos foi mostrar por que defendemos determinada teoria e argumentar consiste precisamente nisso: apresentar as razões que nos permitem justificar a nossa posição.

 

Vejamos um outro exemplo:

Tudo o que fazemos está predeterminado; um ser cujas acções estão predeterminadas não é livre; portanto, não somos livres.

Neste caso, defende-se que «não somos livres» e as justificações apresentadas para tal são que «tudo o que fazemos está predeterminado» e que «um ser cujas acções estão predeterminadas não é livre».

Às razões apresentadas chamamos premissas; àquilo que pretendemos defender chamamos conclusão. Pelo que podemos dizer que um argumento é constituído por premissas (pelo menos uma) e conclusão e que as premissas servem para fundamentar a conclusão.

Por vezes, num argumento, nem todas as premissas são apresentadas; diz-se, então, que há premissas implícitas ou ocultas. Como no seguinte caso:

A pena de morte deveria ser abolida, pois desrespeita a dignidade humana.

P1 – A pena de morte desrespeita a dignidade humana.

P2 – …(a completar com a ajuda dos alunos) – Todas as práticas que desrespeitem a dignidade humana deveriam ser abolidas.

Conclusão – A pena de morte deveria ser abolida.

Nestas situações, há que tentar perceber quais são as premissas que estão escondidas

(uma ou mais), pois podem ser importantes para avaliar o argumento.

Proposições

Tanto as premissas como a conclusão de um argumento são sempre proposições.

Uma proposição é a expressão literal de um pensamento numa frase que possa ser considerada verdadeira ou falsa.

 

É preciso não confundir proposição com frase, porque:

 

1. A expressão literal de um pensamento é o seu significado literal, o que se quer dizer ao pronunciar a frase (e não a frase propriamente dita). Se digo que «estou a morrer de sede» isso significa apenas que «tenho sede» (se estivesse de facto a morrer já não poderia dizê-lo). Tal como se nos dizem «vi-me grego e troiano para conseguir fazer o teste», o que se compreende é «tive dificuldade em fazer o teste».

 

2. Frases diferentes podem expressar a mesma proposição: «Braga é uma cidade bonita» e «A capital do Minho é uma cidade linda» exprimem a mesma proposição. Tal como

«Todas as crianças são belas» e «Tous les enfants sont beaux».

 

3. A mesma frase pode expressar proposições diferentes: «Este prato é muito bom» pode expressar a proposição de que a comida é saborosa, de que a escolha dos alimentos é nutricionalmente equilibrada, ou de que o material de que o prato é feito é de qualidade.

 

4. Nem todas as frases são a expressão de proposições: só as frases declarativas com sentido exprimem proposições. As frases «Nunca mais toca para a saída!» e «Será que vou tirar positiva no teste?» não exprimem proposições porque não são frases declarativas.

E a frase «Trinta avelãs com cancro foram internadas ontem» não exprime uma proposição porque apesar de ser uma frase declarativa, não é susceptível de ser considerada verdadeira ou falsa; é, portanto, absurda.

 

Exercícios

 

1. O que é argumentar?

2. Num argumento, a que se chama premissas e a que se chama conclusão?

3. O que são proposições?

4. Indique quais das seguintes frases exprimem proposições e quais não exprimem:

1. A caneta é azul e não é azul.

2. Os extraterrestres são seres inteligentes.

3. A Lua bebe leite enquanto dança.

4. Quem me dera que a Maria gostasse de mim!

5. Construa um argumento, indicando quais são as premissas e qual é a conclusão.

 

II. Os Argumentos nos textos

 

Como é óbvio, nem todos os textos (ou discursos) são argumentativos, embora possam conter um ou outro argumento. Também nos textos argumentativos existem elementos que não têm relevância argumentativa directa, isto é, que não têm como fim a exposição das razões que levam a adoptar uma determinada posição, embora possam ajudar a encadear o raciocínio e a compreendê-lo.

Ora, para perceber a estrutura argumentativa, há que fazê-la sobressair retirando esses elementos que constituem o «ruído» do texto. Para tal, é necessário prestar muita atenção ao encadeamento do texto, de modo a perceber, em primeiro lugar, qual é a posição ou tese que está a ser defendida (a conclusão) e, em segundo lugar, que justificações são apresentadas para tal (premissas).

Há determinadas expressões que nos ajudam a identificá-las:

 

Alguns indicadores de conclusão

 

Alguns indicadores de premissa

Logo, …

 

 

 

[conclusão]

Visto que…

 

 

 

[premissa]

Então, …

Uma vez que…

Portanto…

Pois…

Conclui-se que…

Dado que…

Assim, …

Atendendo a …

Daí que…

Porque…

 

No entanto, não basta procurar no texto estes elementos, é necessário perceber se a função deles no texto é mesmo esta ou não; e, para isso, há que ter em atenção o conteúdo.

Acontece também que, num mesmo texto, podem ser apresentadas razões (premissas) que têm como fim justificar outras razões (premissas) que aí surgem como conclusão das primeiras.

 

Por exemplo:

Não é legítimo maltratar os animais, pois eles são semelhantes a nós, uma vez que têm igual capacidade de sentir.

P1 – Os animais são semelhantes a nós.

P2 (Implícita) – Não é legítimo maltratar os nossos semelhantes.

Conclusão – Não é legítimo maltratar os animais.

A primeira premissa surge como conclusão retirada de outras, que a suportam:

p1 — Os animais e os humanos têm igual capacidade de sentir.

p2 (implícita) — Todos os seres com igual capacidade de sentir são semelhantes.

Conclusão P1 — Os animais são semelhantes a nós.

 

publicado por Luís M. M. Duarte às 13:37
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