Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

A dimensão discursiva do trabalho filosófico (II)

A dimensão discursiva do trabalho filosófico
 
Maria de Fátima Moutinho

 

Exercício
 
1. Indique qual é a conclusão e quais são as premissas dos seguintes argumentos.
 
1. A construção de estradas implica, sem dúvida, a destruição das zonas verdes por onde elas passam, mas é mais útil para as populações do interior do país a construção de estradas do que a preservação do ambiente, pois elas permitir-lhes-ão aceder rapidamente aos grandes centros, onde há hospitais devidamente equipados, universidades e maior facilidade de encontrar os bens de que necessitam. De facto, pessoas são pessoas e em primeiro lugar estão os seus interesses.
 
2. Uma vez que todos os acontecimentos são determinados por outros acontecimentos, ou seja, são sempre efeito de uma causa, e dado que as acções dos seres humanos também são acontecimentos, então, as acções dos seres humanos são o efeito de outros acontecimentos. Portanto, a acção humana não é livre, porque o que é determinado não é livre.
 
 
III. Bons e maus argumentos
 
Para levar alguém a aceitar uma determinada conclusão, não basta argumentar, é preciso que os argumentos apresentados sejam bons argumentos.
Um bom argumento é aquele cujas premissas suportam ou justificam efectivamente a conclusão; e, para que isso aconteça, tem de reunir três condições:
1. Tem de ser válido.
2. Tem de ter premissas verdadeiras.
3. As premissas devem ser mais plausíveis do que a conclusão.
 
Um bom argumento tem de ser válido
Um argumento é válido quando é impossível ou muito improvável que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Ou seja, é válido se não há uma circunstância possível em que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.
 
Eis alguns argumentos válidos:
 
A1: Se somos livres, então somos responsáveis.
Somos livres.
Logo, somos responsáveis.
 
A2: Se Bobi é um cão, então é mamífero.
Bobi é um cão.
Logo, Bobi é mamífero.
 
A3: Se há paz no mundo, então ninguém passa fome.
Há paz no mundo.
Logo, ninguém passa fome.
 
A4: O céu é azul.
Logo, o céu é azul.
Estes argumentos são válidos porque se as premissas forem verdadeiras, forçosamente a conclusão será verdadeira (não há qualquer situação em que isso não aconteça).
 
Eis alguns argumentos inválidos:
 
A5: Se somos livres, então somos responsáveis.
Somos responsáveis.
Logo, somos livres.
 
A6: Se Bobi é um cão, então é mamífero.
Bobi é um mamífero.
Logo, Bobi é um cão.
 
A7: Se o João vive em Famalicão, então vive no Minho.
O João vive no Minho.
Logo, o João vive em Famalicão.
 
Estes argumentos são inválidos porque mesmo que as premissas sejam verdadeiras, não é forçoso que a conclusão seja verdadeira (há situações em que tal é possível).
 
Atenção: ser válido não significa ter premissas verdadeiras e conclusão verdadeira!
O argumento A3 tem pelo menos uma premissa falsa e conclusão falsa e é um argumento válido.
E o argumento “A relva é verde. O céu é azul. Logo, as vassouras não voam” tem as premissas verdadeiras e a conclusão verdadeira, mas não é válido: podemos facilmente imaginar um mundo em que a relva seja verde e o céu azul, mas as vassouras sejam objectos voadores (pense-se novamente no Harry Potter).
 
O critério de validade é o seguinte: há alguma circunstância possível em que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa? Se não há, então o argumento é válido; se há, então o argumento é inválido.
Um bom argumento tem de ter premissas verdadeiras
Um bom argumento tem de ser sólido, isto é, ser válido e ter premissas verdadeiras.
A validade preserva a verdade e isto quer dizer que, se queremos garantir a verdade da conclusão, temos que usar premissas verdadeiras (ou aceites como tal).
Veja-se novamente o argumento A3: apesar de ser válido, não constitui um bom argumento porque não é sólido. E se não é sólido, não tem interesse: a aceitação da conclusão depende da aceitação das premissas e ninguém aceita uma premissa claramente falsa.
Um argumento válido pode ser refutado se mostrarmos a falsidade de pelo menos uma das suas premissas.
Num bom argumento as premissas são mais plausíveis do que a conclusão
É necessário um argumento ser sólido para ser um bom argumento, mas não é suficiente.
 
Um exemplo elucidativo disso mesmo é o argumento A4: é valido; a premissa «o céu é azul» é verdadeira; no entanto, não constitui um bom argumento porque a premissa é tão aceitável como a conclusão.
 
Outros exemplos disso são os chamados argumentos explicativos, nos quais as premissas explicam a conclusão:
Todos os metais dilatam com o calor.
O anel da Fátima é de metal.
Logo, o anel da Fátima dilata com o calor.
Como podemos verificar, a conclusão é mais plausível, mais óbvia, do que a primeira premissa: podemos facilmente aferir, de modo empírico, que o anel da Fátima dilata com o calor, mas o mesmo não se passa em relação à primeira premissa.
Um bom argumento persuasivo é, pois, aquele que, partindo do estado cognitivo em que a pessoa está (concordância em relação à veracidade das premissas), a leva a aceitar uma conclusão que inicialmente não queria aceitar (e, portanto, que é menos plausível do que as premissas).
 
Por exemplo:
João — Não concordo contigo quando dizes que a construção de estradas no interior do país é mais importante do que a preservação da natureza!
Maria — Não achas que todas as pessoas têm igual direito à educação, à saúde e ao acesso a bens que lhes permitam viver melhor?
João — Claro que sim!
Maria — E pensas que é possível criar escolas, universidades, hospitais, centros comerciais, em todas as localidades do interior do país?
João — Não, isso não faz qualquer sentido! Além de ser economicamente inviável, não é necessário.
Maria — Então, as pessoas têm que poder deslocar-se até aos sítios onde isso existe.
João — Obviamente.
Maria — E a melhor forma de o fazerem é usar o automóvel.
João — Sim, considerando todos os factores, acho que usar o automóvel será o melhor.
Maria — Então é preciso construir estradas.
João — Pois.
Maria — E não se pode fazer isso sem abater árvores, fazer terraplanagens e alterar a paisagem.
João — Tens razão.
Maria — E então é mais importante garantir às pessoas direitos básicos ou preservar a natureza?
João — Garantir às pessoas direitos básicos.
Maria — Então tens de convir que a construção de estradas no interior do país é mais importante
do que a preservação da natureza!
 
Exercícios
 
1. O que é um argumento válido?
2. Basta um argumento ter premissas e conclusão verdadeiras para ser válido? Porquê?
3. O que é um argumento sólido?
4. Porque é que um argumento sólido nem sempre é um bom argumento?
5. Mostre que o argumento seguinte não é válido:
Se o partido XZ ganha as eleições, os impostos baixam.
O partido XZ não ganha as eleições.
Logo, os impostos não baixam.
publicado por Luís M. M. Duarte às 13:39
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Luís M. M. Duarte (Coordenação)

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