Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

As condicionantes da Acção Humana

É nas situações particulares, que o homem tem experiência da liberdade. O homem concreto, identificável pelo nome e pelo rosto, vivencia situações, concretas também, e é nelas que sente o que é ser livre e se apercebe dos obstáculos que se opõem à realização daquilo que deseja.

Condicionantes físico-biológicas

Todo o homem é condicionado pela morfologia e fisiologia do seu próprio corpo.
Possuir um corpo saudável e vigoroso permite desenvolver actividades que um organismo frágil é incapaz de realizar. Todos sabemos, por exemplo, que as nossas capacidades de actuação divergem quando nos sentimos doentes, ou com saúde.
O corpo que possuímos, a integridade dos nossos órgãos internos, o equilíbrio do nosso sistema nervoso, o bom funcionamento do sistema glandular, na medida em que condicionam a energia psicossomática necessária para muitas das nossas actuações, são determinantes do modo como agimos e reagimos nas diferentes circunstâncias.
Toda esta estrutura físico-biológica depende de uma herança que nos foi geneticamente legada pelos nossos ancestrais. A hereditariedade é, por princípio, uma condicionante básica das nossas possibilidades de acção.

Directamente ligadas à componente biológica do homem situam-se as motivações primárias que interferem também em todo o comportamento humano.
Na verdade, comer, descansar, dormir são actos que temos obrigatoriamente de realizar para preservarmos a nossa integridade orgânica. Para além disso, o grau de satisfação ou de insatisfação destas necessidades liga-se a condições fisiológicas que fazem variar as nossas actuações. E momentos existem em que a satisfação destas necessidades nos leva a condutas que efectuamos em detrimento de acções tidas como mais elevadas e essencialmente humanas. Deste modo, por mais altruísta que se seja, ocasiões se nos deparam em que a necessidade de preservar a vida se sobrepõe ao desejo de praticar acções de cariz humanitário.

Condicionantes histórico-culturais

A construção do ser humano decorre num ambiente social que exige a sujeição a um sistema de regras que norteiam o seu relacionamento com os semelhantes. Esta aferição dos modos individuais de reagir pelas normas e padrões sociais vigentes vai-se efectuando à medida que se desenrola o processo de socialização.

[Socialização: modo como o indivíduo se adapta aos diversos grupos em que se integra, o que implica a interiorização das normas sociais próprias de cada um desses grupos.]

É inegável que o homem reflecte as condições do meio social e histórico em que nasce e se desenvolve. Assim, o homem do século XX tem de ser necessariamente diferente do homem do século VI, e ambos diferentes do homem pré-histórico. As dissemelhanças observadas explicam-se pelos condicionalismos culturais das diferentes épocas. De uma para outra, diferem não somente as relações sociais, como também as formas de aproveitamento da natureza, os recursos técnicos e científicos, os sistemas de valores, os conceitos de educação, etc. Por isso, quando queremos compreender, por exemplo, a personalidade e o trabalho de um cientista, de um filósofo, de um político ou de um artista, há que fazer o enquadramento histórico adequado.
Se, ao longo do tempo, a mentalidade do homem e a sua acção nos aparecem com características que trazem a marca do contexto cultural da época, também é certo que, numa mesma época, o modo de ser e de agir das pessoas acusa diferenças, explicáveis pelos diversos espaços culturais em que estão integradas.

A antropologia fornece-nos exemplos sugestivos, evidenciadores do facto de o homem trazer patente na sua personalidade o cunho indelével da cultura própria da sociedade em que se desenvolve. Tais exemplos mostram como os padrões culturais, exteriores e anteriores ao indivíduo, são capazes de actuar sobre ele, moldando-lhe o comportamento segundo formas que ele próprio não escolheu. Para além de serem exteriores, os padrões possuem carácter constrangente, pelo que somos obrigados a segui-los, sob pena de marginalização.

Em suma, todos nós conhecemos entraves quando, muitas vezes, pretendemos actuar. Alguns obstáculos situam-se em nós mesmos, enquanto outros provêm do exterior. É que os acontecimentos, o mundo natural e biológico, o espaço físico e social, o corpo, a hereditariedade, as opiniões alheias, as crenças, as escolhas já feitas, os hábitos e o nosso próprio inconsciente interferem grandemente como condicionadores da nossa actuação livre.

Maria Antónia ABRUNHOSA; Miguel LEITÃO, 2004

publicado por Luís M. M. Duarte às 12:06
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Luís M. M. Duarte (Coordenação)

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