Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

Homem: unidade bio-psico-sócio-cultural

Dizer que o homem é um ser biocultural não é simplesmente justapor estes dois termos, mas mostrar que eles se co-produzem e que desembocam nesta dupla proposição:

- Todo o acto humano é biocultural (comer, dormir, defecar, acasalar, cantar, dançar, pensar ou meditar).

- Todo o acto humano é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural.

Comecemos pelo primeiro ponto: o homem é um ser totalmente biológico. Antes de mais é preciso ver que todos os traços propriamente humanos derivam de traços específicos dos primatas ou dos mamíferos que se desenvolvem e se tornam permanentes. Neste sentido, o homem é um superprimata: traços que eram esporádicos ou provisórios no primata - o bipedismo, a utilização de utensílios e mesmo uma certa forma de curiosidade, de inteligência, de consciência de si - tornaram-se sistemáticos no homem. O mesmo se verifica no domínio da afectividade: o jovem mamífero é um ser ligado à mãe (...) e é nesta forma primitiva que radica o amor e a ternura humana. Os sentimentos de fraternidade e de rivalidade que se encontram nos mamíferos desenvolveram-se também na nossa espécie: o homem tornou-se capaz da maior amizade como da maior hostilidade para com o seu semelhante. (...)

Falta mostrar agora que o homem é totalmente cultural. Antes de mais, é preciso recordar que qualquer acto é totalmente culturalizado: comer, dormir e mesmo sorrir ou chorar. Sabemos bem, por exemplo, que o sorriso do japonês não é igual à gargalhada do americano! E a coisa mais espantosa aqui é que os actos que são mais biológicos são precisamente os que são mais culturais: nascer, morrer, casar. (...). 

A ideia de uma definição biocultural de homem é fundamental e rica de consequências. O processo biocultural é um processo incessantemente recomeçado que, a cada instante, se refaz a nível dos indivíduos e a nível das sociedades. Eu definiria, por isso, o nó górdio da nova antropologia do seguinte modo: o ser humano é totalmente humano porque é, ao mesmo tempo, plena e totalmente vivo e plena e totalmente cultural."

Edgar Morin, A Unidade do Homem

publicado por Luís M. M. Duarte às 12:08
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5 comentários:
De Vilma Cassamo a 31 de Março de 2010 às 20:15
Oi, concordo com o comentário que o homem é uma unidade bio-psico-socio-cultural . Acredito que são aspectos indissociáveis e que todos os dias temos amostras claras disso.
Vejam o seguinte exemplo: o homem é componente biológico porque herda dos seus progenitores traços que determinam a continuação da espécie ; psico- porque tem a mente, a consciencia, o psiquico que é responsavel pelas nossas reacoes emocionais, social e cultural porque o ser humano é o espelho da sociedade e da cultura em que esta inserido.
De Luís M. M. Duarte a 22 de Abril de 2010 às 13:05
Cara Vilma, agradeço a sua intervenção e contributo.
Apenas ressalvo o facto do ser humano ser "o espelho da sociedade e da cultura em que está inserido".
Se o fosse, então apenas se valorizaria a componente comportamentalista/behaviorista, em deterimento de outras, como a estruturalista, a genética, a psicanalítica, entre outras.
Sem pretender dar a ideia errónea do predomínio de uma dimensão face a qualquer outra, opto pela sinergia entre uma pluralidade de factores, pelo que prefiro afirmar que o ser humano é influenciado pela sociedade e cultura em que está inserido, ao invés de ser reflexo ou espelho, algo que implicaria um certo determinismo sócio-cultural.
Exemplos não faltariam para refutar tal necessitarismo fatídico, porquanto o homem não é apenas produto de cultura, mas, simultaneamente, produtor de cultura. De contrário, a sociedade e o Homem estagnariam...
Um abraço.

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Luís M. M. Duarte (Coordenação)

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