Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Filosofia: objecto e método

Cornman, Leher e Pappas

 

«Ainda não há muito tempo, todas as matérias científicas eram consideradas parte da filosofia. A filosofia da natureza [philosophy of matter] compreendia o que agora chamamos química e física; a filosofia do espírito [philosophy of mind] cobria as matérias da psicologia e áreas adjacentes. Em suma, a filosofia era concebida de forma tão lata que cobria qualquer campo da investigação teórica. Qualquer assunto em relação a cujo conteúdo fosse possível apresentar uma teoria explicativa tornar-se-ia um ramo da filosofia. Contudo, quando uma certa área de investigação atingia um ponto em que uma teoria principal dominava e, por conseguinte, se desenvolviam métodos uniformizados de crítica e confirmação, essa área era separada da árvore mãe da filosofia e tornava-se independente. Por exemplo, os filósofos avançaram em tempos uma série de teorias para explicar a natureza da matéria. Um deles afirmou que todas as coisas eram constituídas por água; outro, de alguma maneira mais próximo das concepções actuais, propôs a teoria de que a matéria era composta de pequenos átomos homogéneos e indivisíveis. Tendo-se certas teorias acerca da matéria, bem como os métodos experimentais para as testar, tornado aceites entre a comunidade científica, a filosofia da natureza deu origem às ciências da física e da química. Outro exemplo de um problema filosófico convertido em problema científico é o da natureza da vida. Numa determinada altura, a vida foi concebida como uma entidade espiritual que entrava no corpo no momento do nascimento e o abandonava no momento da morte; noutra altura, foi concebida como uma força vital especial que activava o corpo. Hoje, a natureza da vida é explicada em termos de bioquímica.

Assim, é uma peculiaridade da filosofia que, tendo a argumentação e a disputa conduzido à aceitação de uma certa teoria, acompanhada de uma metodologia adequada para tratar uma certa temática filosófica, a teoria e a metodologia se separem da filosofia e sejam consideradas parte de outra disciplina. Certas temáticas estão actualmente em processo de transição. Um exemplo disso é o campo da linguística e, em particular, dentro desse campo, a temática da semântica. Os filósofos construíram uma multiplicidade de teorias para explicar como podem as palavras ter significado [meaning] e o que constitui o significado das palavras. As explicações eram em termos de imagens, ideias e outros fenómenos psicológicos. Actualmente, os filósofos e os linguistas explicam o que é o significado em termos da função das palavras no discurso e das características semânticas subjacentes, que desempenham na semântica um papel semelhante ao desempenhado na física pelas características das partículas atómicas. Neste campo não há uma distinção precisa entre filósofos e linguistas. Ambos utilizam metodologias recentemente desenvolvidas de análise gramatical e semântica para articular leis e teorias que permitam explicar a estrutura e o conteúdo da linguagem. É característico de uma área em processo de transição o facto de não ser claro se um investigador dessa área é filósofo ou cientista. Em filosofia, o desenvolvimento de uma área conduz muitas vezes à sua independência e autonomia. É por esta razão que qualquer especificação da filosofia em termos do seu objecto será, muito provavelmente, controversa na actualidade e desactualizada no futuro.

Contudo, as considerações anteriores explicam uma característica relativamente constante da filosofia, a saber, o seu estado de incompletude [the unsettled state of the art]. As questões estudadas em filosofia são tratadas através de métodos dialécticos de argumentação e contra-argumentação. E um aprendiz [student] pode às vezes sentir que, depois de uma longa e árdua investigação, nada ficou estabelecido. Esta impressão deve-se, em parte, ao facto de, num dado momento, a filosofia parecer lidar com aqueles problemas intelectuais que ainda não foram articulados de modo a permitir que uma única teoria e metodologia lhes seja aplicada que sirva para a sua resolução. Quando o espírito humano se defronta com algum problema intelectual complexo, sem que haja um tratamento [approach] experimental uniforme e estabelecido para a questão, é de esperar que o problema se encontre no domínio da filosofia. Uma vez que a investigação intelectual tenha conduzido à articulação de uma teoria uniforme com um método geralmente aceite de investigação experimental, então, com toda a probabilidade, o problema deixará de ser considerado parte da filosofia. Será, em vez disso, atribuído a uma disciplina independente. Assim, por causa do seu próprio êxito, a filosofia vai perdendo algumas das suas temáticas.

Contudo, esta caracterização não deve levar-nos a pensar que todos os problemas filosóficos são potencialmente exportáveis por meio de um processamento bem sucedido. Algumas questões e problemas resistem a essa exportação em virtude do seu carácter geral e fundamental. Por exemplo, em todos os campos da investigação, as pessoas procuram o conhecimento. Mas é em filosofia que se pergunta o que é o conhecimento, ou sequer se tal coisa é possível [whether there is any such thing at all]. Tais questões pertencem ao ramo da filosofia chamado epistemologia. Em alguns domínios, na economia e na política [politics], por exemplo, estudam-se as consequências causais de diversas acções e políticas [policies]. Em filosofia, pergunta-se quais são as características gerais que tornam as acções e as políticas [policies] justas [right] ou injustas [wrong]. Tais questões pertencem ao domínio da ética. Finalmente, críticos, literatos, compositores e artistas perguntam se um certo objecto é uma obra de arte. Os filósofos preocupam-se com a questão mais geral de saber o que torna uma certa coisa um objecto de arte. Estas são as questões da estética. Outras questões acerca da natureza [character] da liberdade, do espírito e de Deus parecem ser objecto perene da filosofia porque são questões simultaneamente muito básicas e muito gerais.

Além disso, um tratamento bem sucedido de um problema dentro de determinada área pode gerar novos problemas. Por exemplo, uma explicação de fenómenos físicos em termos de leis e teorias levanta a questão de se saber se o movimento dos corpos humanos, que fazem parte do universo físico, tem lugar de maneira puramente mecânica, o que poria em causa a nossa impressão de sermos agentes livres que determinam o seu próprio destino por deliberação e decisão. Da mesma forma, o sucesso da neurofisiologia na explicação do nosso comportamento levanta a questão de se saber se os pensamentos e os sentimentos não serão senão processos físicos. Não temos maneira de responder a estas perguntas através de um apelo directo à experiência ou de uma teoria firmemente estabelecida. Em vez disso, temos de confiar nos métodos da investigação filosófica - o exame cuidadoso de argumentos apresentados em defesa de posições divergentes e a análise dos termos importantes neles contidos. Não há que recear a escassez de temas filosóficos. O objecto [subject matter] da filosofia apenas é limitado pela capacidade do espírito humano de colocar novas questões e de reformular as antigas segundo um novo ponto de vista [in some novel way]. Ao fazê-lo, fornecem-se novos conteúdos à única área que recebe de braços abertos todos os órfãos intelectuais rejeitados pelas outras disciplinas por causa da sua estranheza e dificuldade. A filosofia é o lugar de acolhimento [home] dos problemas intelectuais com os quais as outras disciplinas são incapazes de lidar. Em consequência disso, está cheia do interesse intelectual da controvérsia e da disputa que têm lugar nas fronteiras da investigação racional.»

CORNMAN, LEHRER, PAPPAS, Pilosophical Problems and Arguments: An introduction,New York, Macmillan Publishing Co., Inc., 19823, pp. 1-3 (tradução de Vasco Casimiro).

publicado por Luís M. M. Duarte às 12:10
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