Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Comentário ao texto de Edgar Morin, Unidade bio-psico-sócio-cultural

Então, imaginemos que a pessoa X nasce inserida na nossa cultura, na cultura ocidental.
Depois, essa pessoa é retirada à mãe e colocada numa selva. Imaginemos que essa selva não tem mamíferos nenhuns.
Essa pessoa não vai ser influenciada pela cultura (porque não a há). Os actos não seriam culturizados. Não iria mostrar afectividade para com a mãe (porque nem sabe que tem uma mãe). É verdade que teria sentimentos de ternura, amor, carinho, etc… Mas a pessoa X chegaria a pensar? A pessoa X aprenderia a falar?
Quanto muito, imitaria o som do vento, da água a correr… Nada mais do que isso. E também não precisava de imitar porque não teria nenhuma finalidade.
O texto também diz que " o homem tornou-se capaz da maior amizade como da maior hostilidade para com o seu semelhante ". Ora bem, como X não tem nenhum semelhante, não pode ser dotado desse género de amizade.
Diz também que "actos que são mais biológicos são precisamente os que são mais culturais". Mas essa pessoa só tem actos biológicos, não tem actos culturais. Logo, não podemos ligar os biológicos aos culturais.
Esta pessoa também não viveria em sociedade e "o processo biocultural é um processo incessantemente recomeçado que, a cada instante, se refaz a nível dos indivíduos e a nível das sociedades".
Com isto, posso concluir que nem todo o ser humano é um ser biocultural. No entanto, se for cultural, é biológico, mas se for biológico não tem, necessariamente, de ser cultural.
              Laura Falé, Aluna do 10.º A, Escola Secundária de Ribeira Grande
publicado por Luís M. M. Duarte às 12:18
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3 comentários:
De Luís M. M. Duarte a 24 de Outubro de 2007 às 12:25
De facto, dizer-se que o Homem é uma unidade bio-psico-sócio-cultural, não significa nem que qualquer uma destas condicionantes/dimensões se sobreponha às restantes, nem que exista uma prioridade entre elas. Pelo contrário, significa que, sendo Homem, qualquer um dos seus actos deverá ser, simultaneamente, biológico, psicológico, social e cultural: são interdependentes, indissociáveis.
Supondo a hipótese que levantaste, efectivamente, não poderia dizer-se que existissem actos culturalizados, porquanto a criança estaria à margem de uma sociedade humana e, portanto, destituída de cultura.
Como ela, os primeiros homens – anteriormente ao gregarismo e à invenção de artefactos, mentefactos e toda a panóplia de utensílios e mecanismos culturais – teriam idêntico sentimento de isolamento e perplexidade. Talvez nem os sentimentos de amizade, ternura, amor e carinho existissem, na medida em que não foram adquiridos e desenvolvidos, graças à ausência de relações de afinidade, de afectividade e de intersubjectividade, só possíveis pela socialização primária e secundária… Pensar e falar? Como? Não serão o pensamento e a linguagem inseparáveis e imbricadamente interpenetráveis e estruturantes? Se a linguagem não lhes era familiar, porquanto não sofrera qualquer convenção e arbitrariedade significante e linguística, o pensamento ser-lhes-ia, consequentemente, vazio e impossível, tal computador extremamente potente, porém destituído de software.
O início da humanização, filogenética e ontogeneticamente (tanto na evolução da espécie humana, enquanto colectividade, como a nível individual), só é possível quando nela intervêm os elementos supra-mencionados, a saber, a par do aspecto biológico, o psicológico, o social e o cultural: interrelacionados.
Em consequência, não se pode “concluir que nem todo o ser humano é um ser biocultural” nem que “se for biológico não tem, necessariamente, de ser cultural”, como referiste. Contudo, como mencionaste, “se for cultural, é biológico”, mas se for biológico não tem, necessariamente, de ser cultural.
Por exemplo, qualquer actividade biológica, efectiva e verdadeiramente, humana é, simultaneamente, psicológica, social e cultural. Imagine-se o comer, o sexo, entre outras. Nelas, o Homem não se limita simplesmente a saciar as suas necessidades básicas e primárias, como sobrevivência e procriação: antes, fá-lo por prazer, por sentimentos; sujeitos a hábitos, costumes, tradições, regras…
O exemplo que apresentaste, embora legítimo, afigura-se um cenário contrário ao Homem – se é que é possível enunciar-se a singularidade humana a uma essência universal… –, dado que só existe Homem se os seus actos, ainda que, primária e essencialmente, biológicos, forem, ao mesmo tempo, psico-sócio-culturais. O exemplo mencionado vai, aliás, ao encontro das chamadas “crianças selvagens”, encontradas historicamente em diversas partes do planeta, as quais, de facto, não passavam de “selvagens”, dado que a sua “socialização” e aprendizagem não fora humana, mas animalesca.
De Laura F. a 24 de Outubro de 2007 às 17:59
Se falamos de crianças selvagens, não podemos falar de sentimentos, embora "possam desenvolver alguma ligação afectiva. Manifestam pouco ou nenhum controlo emocional e, muitas vezes, têm ataques de raiva podendo então exibir uma força particular e um comportamento claramente selvagem. Algumas crianças têm ataques de ferocidade ocasionais, mordendo ou arranhando outros ou até eles mesmo."
Isto pode ter-lhes sido ensinado pelo meio onde viveram. Podem ter sido criadas por animais e, assim, adquirirem o seu comportamento.
No entanto ( e para não se pensar em crianças selvagens), coloquei de propósito a frase "Imaginemos que essa selva não tem mamíferos nenhuns". Aqui, não se colocaria a hipótese da pessoa ter sido criada por um animal. Se não foi criada por uma animal, sobreviveu sozinha. E aí, se a linguagem não lhe era familiar, poderia ser desprovida de pensamento. Mas, por outro lado, teriam de pensar para sobreviver.
Imaginemos assim:
Se se vive sozinho e se nunca se aprendeu a falar, não falaremos. Mas pensaremos. Ao menos, temos necessidade de comer, de defecar… E procuraremos comida para sobrevivermos. No entanto, não necessitamos de falar e necessitamos de pensar. É verdade que o pensamento pode ser retrógrado, como é o caso de Kaspar, ("A sua exclusão social não o privou apenas da fala, mas de uma série de raciocínios e ideias, como por exemplo, o facto de Kaspar não conseguir diferenciar sonhos e realidade durante o período que passou aprisionado.") mas continua a ser pensamento. Sem linguagem.

De Luís M. M. Duarte a 25 de Outubro de 2007 às 10:41
Sem dúvida. Como referi, mesmo perante esse cenário, a criança poderá, eventualmente, "pensar" e toda a espécie de comportamento, porém não é nem um pensamento nem um comportamento humano.
Tal como o primitivo ancestral e como o "primitivo actual" e as denominadas "crianças selvagens", a exclusão social e a inexistência de padrões sócio-culturais de base e estruturantes - como a linguagem conceptual -, embora não os torne refractários a um certo tipo de "pensamento", não lhe permitem o exercício da interiorização da acção, entre outros, o que lhes obstaculiza o pensamento, não apenas o abstracto, mas inclusive o concreto.
À margem da sociedade e mesmo inserido em outros agrupamentos do tipo animal, não se pode falar em Homem.

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