Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2021

A modernidade e o poder da dissimulação como refutação do princípio da desvantagem  

De acordo com a Teoria da Seleção Natural das Espécies, de Charles Darwin e Alfred Wallace, na esteira da sua sobrevivência, os seres vivos apenas conservam as características úteis, as quais lhes permitem adaptar-se ao meio e evoluírem.

Neste sentido, para preservarem a espécie, os animais, por exemplo, tendem a reproduzirem-se, munindo-se de estratégias de sedução de forma a garantirem o sucesso de acasalamento.

A Teoria da Seleção Sexual, decorre, consequentemente, deste princípio, na medida em que os seres vivos, sobretudo os machos, lutam entre si pela posse do sexo oposto.

Porém e como referiu Darwin, existem determinadas espécies, como o Pavão, o qual ostenta uma característica que, além de inútil, se afigura aparentemente contraditória à sua teoria, dado que o peso da sua cauda policromática, além de obstaculizar o seu voo e gastar energia suplementar face ao seu peso, o torna mais vulnerável e visível aos predadores, logo menos apto à sobrevivência. Contudo, essa limitação afigura-se, ao mesmo tempo, no seu sucesso face às fêmeas, graças ao seu carácter atraente e à imagem projetada de maior aptidão para garantir a conservação da prole.

Em que medida? Devido, precisamente, ao Princípio da Desvantagem (handicap), defendido por Amotz Zahavi, segundo o qual “as características que evoluíram por seleção sexual, através da escolha da fêmea, devem ser custosas para representarem sinais honestos que indiquem a qualidade dos machos”, ou seja, apesar desse carácter aparentemente inútil e de desvantagem para os machos, se sobrevivem é porque, de facto e honestamente, devem ser machos alfa, dignos dessa proeza, incompatível com machos menos aptos. Existe, portanto, uma ligação direta entre o exibido e ostentado e as suas capacidades evolutivas.

Fazendo um paralelismo com os humanos, que dizer? Se, por um lado, tal como os demais animais e, em especial, com os pavões-macho, essa característica de ostentação e de exibicionismo já não é apenas exclusivo dos machos, mas também das fêmeas, se bem que que diferenciados pelo binómio qualidade-quantidade: elas preferem machos com qualidade, que garantam a segurança, estabilidade, proteção e bons genes, como sucede, aliás, com os restantes animais; eles, a quantidade, a diversidade, de forma a garantirem a possibilidade de sucesso, já não apenas da disseminação, mas do seu próprio ego.

Contudo e sobretudo desde as últimas décadas, com o desenvolvimento tecnológico e científico, com o advento de cirurgias estéticas, a proliferação de health clubs e ginásios, ostentam-se qualidades e características desonestas e irreais, tanto na realidade virtual, como as redes sociais, como na realidade real, no dia-a-dia, exibindo bens materiais de todo tipo e, principalmente, do culto do corpo: dos músculos artificiais dos esteroides aos lábios, seios e glúteos voluptuosos de silicone e botox. Assim, além de inúteis, estas características exibicionistas são, igualmente, desonestas e refutadoras do princípio da desvantagem, porquanto quem as exibe, além de fraudulento, é quem, na sua maioria, se revela as menos aptas para desempenharem as capacidades que evidenciam, não almejando a conservação da espécie - já nem focando toda a panóplia de contracetivos e do novo fenómeno de multiplicidade de orientação sexual -, nem tão-pouco a qualidade; antes, alimentar o seu narcisismo e hedonismo: o prazer pelo prazer e o culto do eu, mergulhados que estamos no império do vazio.

Luís Duarte

publicado por Luís MM Duarte às 17:19
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