Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020

REALIDADE REAL?

Cada vez mais a exceção se torna regra e o anormal, normal.

Se até pouco tempo atrás, a anormalidade (a qual, por si só, merecia explicitação…) era vista como patologia; agora, afigura-se normal, tal é a disseminação de tamanha enfermidade.

Vive-se numa era da esquizofrenia virtual.

E o mais grave ainda: é consciente e consentida.

A suposta realidade real, facilmente, dá lugar à primazia da realidade virtual.

As redes sociais, pródigas em fomentar amizades virtuais, perpetua essa patologia generalizada.

Dos amigos virtuais aos sites de encontros, também eles virtuais, a nobreza de caráter, a beleza corpórea e a magnificência dos princípios nunca estiveram tão omnipresentes e na posse de tantas pessoas, principalmente, porque tudo é previamente filtrado.

Filtrado pelo Photoshop, pela hipocrisia e mentira e pelas expetativas que os outros têm de quem os publica e de quem espera de quem os publica.

Esta filtragem, também ela esquizofrénica – porquanto escamoteia a realidade e lhe atribui uma velatura da mentira –, anda aliada, numa espécie de nó górdio, de uma outra patologia mental, afetiva e de valores: de uma cultura light.

Sob a égide do light – do tabaco às bebidas e comidas –, corre-se o risco de se tornar numa espécie de insustentável leveza, não apenas do ser (como diria kundera), mas da própria existência, de tão leve que os valores se tornaram.

Que todas as culturas, povos e épocas tiveram os seus valores e que estes foram e devem ser encarados relativos e sob o escupo histórico donde brotam, nada a acrescentar; porém, os que atualmente se descortinam, afiguram-se desafiantes à gravidade e à própria humanidade...

Narcisismo coletivo, o qual espelha e reflete o narcisismo individual, mascara e apregoa uma felicidade do efémero do light, em que, parecendo recuperar o epicurismo antigo, em especial o hedonismo, acaba por desvirtuá-lo: vive-se numa tirania do aqui e do agora, do eterno presente tornado mumificado, do culto do prazer por prazer, onde quaisquer resquícios de estoicismo se afiguram alvos a abater, em que a dor e sofrimento não têm qualquer lugar.

Parece não haver mais qualquer lugar para a resignação ou conformismo, nem tão pouco para as utopias ou, havendo, reapropriam-se, dialeticamente, pela negativa, através da vivência numa esquizofrenia coletiva, distópica, onde se representam e organizam num mundo cada vez mais virtual e antinatural, onde se tenta conciliar Epicuro como Cítio, na velha máxima do carpe diem, viver o instante, como se fosse eternidade.

Invertida a realidade, a transmutação virtual, o imaginário, assumem-se nos algozes do real, numa lógica totalitária e autoritária, tão mais perniciosa quanto pseudodemocrática.

Quem não se subordina a ela é ostracizado por ela.

As ditas minorias acabam, por discriminação positiva, por tornar-se numa ditadura da maioria!

A loucura e a anormalidade deixam de fazer sentido ou, conservando-se, assumem novos contornos, por antonomásia, nos seus opostos.

O paradigma da normalidade conquistou-se – ou travestiu-se? – no paradigma que destruiu: da anormalidade, onde nem sequer Foucault poderia concetualizar.

Esta esquizofrenia virtual coletiva é tão mais perigosa quanto o grau da alienação em que vivem os seus agentes – ou pacientes? –, porquanto a opressão e o controlo não decorrem somente das elites, do Estado, instituições ou corporações; brotam da própria base, como cogumelos, numa espécie de geração espontânea.

É consciente e consentida e, por isso, mais alienante.

Não será, portanto, de espantar que as ideologias políticas ou religiosas jazem ou, pelo menos, não passam de zombies ou, na melhor das hipóteses, autómatos com a pretensa posse e manuseio de outros autómatos: robôs que se deliciam em manusear outros androides, numa circularidade esquizofrénica. Desde o acordar ao adormecer, onde, provavelmente, no intervalo destas distâncias, o sonho seja a única realidade.

A ficção suplanta cada vez mais a realidade, onde os vaticínios de Orwell ou de Huxley se tornaram em estórias de embalar.

Neste hospício em que se vive, onde tudo e todos parecem epifanias do divino e do sagrado e em que os defeitos e vicissitudes dão lugar às virtudes e esmeros, a única doença que se vislumbra é a que reclama o regresso à realidade real.

LD

 

 

publicado por Luís M. M. Duarte às 15:02
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